“Março Marçagão. De manhã Inverno, de tarde Verão”.
Ou também o mês de algumas efemérides históricas que fazem parte desta vida.
16 de Março de 1974 – a tentativa de “golpe” falhado do RI 5 – Caldas da Rainha.
A 16 de Março de 1974, uma coluna militar em armas saída do Regimento de Infantaria nº 5 (RI 5) nas Caldas da Rainha, ensaiou uma rebelião militar ao pôr-se em marcha com destino a Lisboa com o objectivo confesso de derrubar o governo fascista da época chefiado pelo Primeiro Ministro Marcelo Caetano e apoiado pelo Presidente da República Américo Tomás. Aquela movimentação militar também tinha por objectivo colocar o general António de Spínola a chefiar um novo e alternativo governo.
Os principais comandantes da coluna militar saída das Caldas da Rainha, considerou-se, eram militares afectos ao general Spínola e contavam com o seu apoio militar, político e público, circunstância que, naquele momento crítico, não se verificou por falta de coordenação (ou falta de decisão conjunta) prévia daquelas movimentações. Ao mesmo tempo, outras Unidades Militares que os revoltosos contavam que os seguissem na “aventura”, também não o fizeram e igualmente por falta de decisão e boa coordenação conjuntas. Ou seja, passadas algumas horas de marcha e depois de atingir a zona do aeroporto de Lisboa, a coluna das Caldas da Rainha, afinal sozinha no terreno, fez marcha atrás e regressou ao seu quartel sem ter disparado e sem ter ouvido um só tiro que fosse. Nessa tarde, duas colunas armadas de outras duas unidades militares foram às Caldas cercar o RI 5 até receberem a sua “rendição” o que se verificou igualmente sem disparos. Os militares revoltosos do RI 5, desde logo os graduados (oficiais e sargentos) foram presos e vários deles metidos no Forte da Trafaria onde ficaram 40 dias até se dar o 25 de Abril. Saiba-se que entre eles esteve um jovem graduado, oficial miliciano, natural de Meruge (Oliveira do Hospital).
E assim acabou “ingloriamente” um golpe militar que mal chegara a ser iniciado. Mas, diga-se que serviu de ensaio geral para a preparação (acelerada desde aí), para a coordenação e para o comando das acções militares vitoriosas desencadeadas na madrugada libertadora do 25 de Abril de 1974 ou seja, valeu a pena fazerem a tentativa do golpe (embora falhado) do 16 de Março, a partir do RI 5, nas Caldas da Rainha. Salvé homens de coragem!
11 de Março de 1975 – o “golpe de Estado” falhado do General Spínola “e amigos”.
A 11 de Março de 1975 precipitou-se um golpe de incidência militar liderado pelo General António de Spínola que já fora Presidente da República a seguir ao 25 de Abril de 1974, se demitira e queria voltar a “mandar” nas Forças Armadas e no País.
Foram vários os pretextos, inclusive das maiores atoardas.
De facto, na manhã de 11 de Março é atacado por terra (por um grupo de paraquedistas vindos de Tancos) e atacado do ar por aviões, o então Regimento de Artilharia Ligeira nº 1, o “RAL 1” em Sacavém, às portas de Lisboa. Há tiroteio que faz uma vítima mortal e alguns feridos e deixa estragos visíveis no aquartelamento atacado. Acorre a comunicação social e a RTP em especial que faz reportagens em directo imediatamente a seguir aos primeiros confrontos entre os militares envolvidos metendo também Povo que, a dada altura, acudiu ao local.
O ataque ao RAL 1 não foi nenhuma brincadeira que houve tiroteios com um morto e alguns feridos embora ligeiros, mas desenrolou-se e terminou – por ali no RAL 1 – de uma forma caricata quase de autêntica “anedota militar”.
Entretanto, o “chefe”, António de Spínola, fora para Tancos, para a Base Aérea 3, e tinha cobertura activa por parte do Regimento de Caçadores Paraquedistas de Tancos, comandado por um oficial “Spinolista”. Por esclarecedor facto, esse comandante – coronel – dos Paraquedistas em Tancos era irmão do Segundo Comandante – Tenente Coronel – da Escola Prática de Cavalaria (EPC), em Santarém, e ambos tinham “Durão” como sobrenome de família. Estavam obviamente em estreita coordenação e ambos se envolveram sob o comando de António de Spínola naqueles acontecimentos do 11 de Março de 1975.
Escola Prática de Cavalaria (EPC) de Santarém não adere ao golpe do 11 de Março de 1975
A meio da manhã de 11 de Março, o comando da EPC convoca uma reunião plenária dos oficias em serviço no aquartelamento principal (e também no “Destacamento” que à época funcionava noutro edifício, em Santarém). No anfiteatro da Unidade – que entrara em “prevenção rigorosa” o que pressupunha complicação iminente – juntam-se então os “camaradas oficiais”. Na mesa do plenário, está o alto Comando da EPC que inicia a conversa. Explica uma situação de movimentações militares em armas que é suposto estarem já a desenrolar-se. De forma nervosa, o comando da EPC refere-se em especial aos confrontos que se estão a dar no “RAL 1” numa versão confusa em que explicita mesmo que e cito :- “os nossos camaradas estão a arriscar a vida para libertar o RAL 1 ocupado por cubanos e por guerrilheiros Tupamaros” – note-se que os guerrilheiros designados de “Tupamaros”, a dada época, existiram no Uruguai ! – pelo que se pede à EPC uma intervenção armada no conflito”. É nesta altura que um dos oficias presentes na plateia – daqueles mais “inflamáveis” – exclama: “de que é que estamos à espera? Vamos embora à acção que já me cheira a pólvora!”. Porém outros dos presentes há – sobretudo dos milicianos – que começam a pedir a palavra e a questionar, com jeito que se estava na tropa. Assim:
– “Mas então, quem está por trás disto!” – a resposta confirma: “sim, é o nosso General Spínola”.
– “Ah! Então trata-se de um golpe de Estado? – prossegue-se desde a plateia. A resposta salta: “Sim podemos dizer que se trata de um golpe de Estado!”. Note-se que, na altura, havia um “Governo Provisório” chefiado pelo general Vasco Gonçalves.
A situação fica mais clara. Há quem se mexa no assento, incomodado…
E é neste ambiente de tensão que o Comando se volta directamente para o Capitão Salgueiro Maia, o oficial-herói do 25 de Abril de 1974 e, também por isso, muito prestigiado e respeitado na altura. Aliás, era ele o Comandante de Esquadrão dos Carros de Combate da EPC. No momento, Maia encontra-se de pé, ao cimo do anfiteatro, rosto pálido a indicar tensão interior como lhe acontecia
– “Então Capitão Maia, como é? Qual é a sua opinião? Vamos sair?” – é-lhe perguntado.
Maia responde desde o alto do anfiteatro com aquele seu vozeirão característico:
– “Ó, meu Comandante. Eu fiz há pouco uns telefonemas a pedir alguns esclarecimentos – note-se que Maia em princípio não deveria ter feito “telefonemas” pois a Unidade estava em “prevenção rigorosa” e na época não havia telemóveis… – e eu não vou contra os camaradas que comigo fizeram o 25 de Abril! Por isso afirmo que a EPC deve municiar-se, deve preparar-se para o que der e vier, mas também devemos ficar dentro do quartel, portanto não devemos sair!”.
Oh! Grande Maia! Que nos disseste tu neste momento tão preocupante?! Abençoado sejas! – foram estas as reacções íntimas de muitos dos oficiais sobretudo dos milicianos que não estavam nada inclinados para irem “cheirar pólvora” aos tiros uns aos outros. E foi a Maia que se agarraram os mais renitentes, e outros até, a rejeitarem as “ordens” do Comando! O resultado foi ter-se abortado a eventual saída em armas da tropa da EPC, na altura das Unidades Militares mais operacionais e com maior poder de fogo! Foi uma vitória e o melhor de tudo foi acontecer sem se disparar um só tiro! A situação caracterizou-se ainda por ter contrariado a lógica militar. Então o comando da EPC faz um “plenário” para decidir se vai ou não sair para a rua em armas em vez de dar ordens directas nesse sentido? O resultado foi o que se viu com a quebra da cadeia de comando e o abortar da saída…
Cerca das 15 horas, Salgueiro Maia, recebe “ordens” para ir a Tancos com o Segundo Comandante da EPC e outros graduados demover o general Spínola de continuar o “golpe”.
Salgueiro Maia detestava António de Spínola por questões graves que com ele tivera na Guiné durante uma sua “comissão de serviço” na guerra colonial. Porém, o Segundo Comandante da EPC deu-lhe ordem (cerca das 15 h.) para também ir a Tancos (de helicóptero) ao contacto com Spínola para o demover de continuar a acção militar e também para lhe dar alguma protecção. Embora contrariado, Maia mete-se no helicóptero e lá vão para Tancos. Aí e após convencerem Spínola e tratarem do apoio necessário, o general do “monóculo” – o “caco” como alguns o apelidavam – com familiares e alguns subordinados saem (helicóptero) de Tancos e vão para uma base aérea militar em Espanha – em Talavera la Real, perto de Badajoz – onde se “refugiam” e de onde (Espanha) Spínola continuará a “conspirar”…
A derrota deste golpe do 11 de Março de 1975 proporcionou de imediato o avanço entusiasta do “processo revolucionário em curso”. Digamos assim, foi o “explorar da vitória” !
De nossa parte, nós estivemos lá, directamente, a viver esses momentos dentro da EPC. Retemos disso a memória viva de acontecimentos tão intensamente vividos!
16 de Março de 2022
João Dinis, Jano
Nota:- a seguir, em próxima oportunidade, contamos ainda abordar o tema da “Cimeira das Lajes” (16 de Março 2003) que anunciou a invasão do Iraque que se iniciou a 20 de Março por uma “coligação militar”. E assim também começou (mais) uma guerra que 19 anos depois ainda continua no Iraque a matar Gente e a provocar a saída de muitos refugiados. As televisões não falam disso, porquê ?…
