Todos nós podemos eleger uma primeira viagem que tenhamos efectuado na nossa vida, que nos marcou, mesmo que seja uma simples ida a Cacilhas no velhinho barco “cacilheiro”, quase em vias de extinção. Para os não lisboetas, não familiarizados com esta expressão, direi que significa fazer uma viagem, de passeio, juntamente com os milhares de pessoas que os usam, diariamente, como meio de deslocação para e dos seus locais de trabalho, e atravessando o rio Tejo, de Lisboa a Cacilhas, no lado sul. Também os turistas, nacionais e estrangeiros, gostam de fazer esta viagem de cerca de dez minutos e que permite, desde o rio, desfrutar duma imagem panorâmica da cidade de Lisboa, principalmente grande parte da sua extensão ribeirinha. Pessoalmente e mais do que eleger “a primeira viagem da minha vida”, o que pretendo trazer à memória é a minha primeira viagem de comboios, digo comboios porque a viagem incluiu três e também uma viagem de barco, eu que nunca tinha visto o mar, mesmo que fosse o “mar da palha”, onde desagua o nosso principal rio, o Tejo, no início dos anos sessenta e não foi uma viagem de família, apesar dos meus onze anos!
Foi assim que eu, nascido e criado numa aldeia de ruralidade profunda, à época, mas
O fumo e a sinuosidade da linha do “ramal do Dão” deram-me a volta ao estômago levando-me a “expelir” os bocaditos do farnel da viagem (broa de milho e coelho) que a minha mãe meteu detro duma saca de pano. Situação embaraçosa, ocorrida já dentro da carruagem, parada ainda em S.C.D e abarrotada de gente, pois o comboio era um dos principais meios de deslocação, porque sair da carruagem para ir ao fontanário ali existente, tal como era habitual em muitas das estações do país, lavar as mãos, que foram o recipiente que segurou os “detritos gástricos”, foi uma situação de risco, pois o comboio poderia iniciar a marcha e eu ali ficaria apeado juntamente como o meu “camarada deo rancho”, dois anos mais velho do que eu. E já era de boite. Mas, felizmente, regressámos ao assento e a viagem prosseguiu, noite dentro, até Lisboa. Depois, fazer o transbordo, a pé, para a estação fluvial Sul e Sueste, no Terreiro do Paço, hoje maravilhosamente recuperada e que preserva o seu historial, que, por barco dos “CP, nos levava até à estacão ferro-fluvial do Barreiro; ali, matei o largo tempo de espera, encostado ao paredão do cais fluvial, mesmo ao lado da estação de caminho de ferro, hoje feitas ruínas, como muitas são as ruínas do anterior tecido ferroviário do país (estações e apeadeiros em ruinas e abandonados, etc) e a observar a imensidão da água que ondulava e, fechando os olhos, me transportava numa onda, mas, afinal, esperava-me uma nova viagem , isto é tomar o combóio da Linha do Sul até à estacão/apeadeiro de Canal Caveira, concelho de Grândola, povoação tornada famosa
Todos os dias, porque a herdade era atravessada pela linha do combóio, tal como pela estrada nacional, eu via passar vários comboios, de passageiros, de mercadorias e outros, muito compridos nos seus “wagons” de minérios extraídos nas minas de Neves Corvo com destino à cirurgia nacional, no Seixal, pela linha do Sul admirando a pujança e a velocidade daquelas máquinas poderosas. Durante muitos anos e ainda hoje sou fã dos comboios, mesmo que sejam relíquias ou os modernos. Muitas mais viagens fiz posteriormente, nalgumas com pequenas “estórias” para contar, mas, psicossociologicamente, a parte mais importante desta “primeira grande viagem da minha vida”, aqui descrita na primeira pessoa, é a razão de ser dela própria. Fica para a próxima crónica, até porque relatarei a permanência do “rancho dos quatorze ratinhos” naquele inóspito cenário alentejano e a viagem de regresso até Viseu, como se fosse um filme visto do final para o início, mas já em pleno mês de Junho do ano seguinte. Até lá.
Serafim Marques
Economista (Reformado)
