Agnes Sedlmayr, filha de mãe húngara e pai alemão, luta pelo “repovoamento” dos territórios portugueses de baixa densidade
Agnes Sedlmayr chegou a Portugal com oito anos, quando a mãe húngara e o pai alemão, corria o ano de 1986, escolheram viver em Portugal, por troca com a Alemanha. Agnes fez todo o percurso escolar em Portugal, conseguindo licenciar-se em Coimbra e tirar o mestrado na Universidade do Algarve, além de uma passagem por Itália. A viver em Cabanas de Viriato, Concelho de carregal do Sal, Agnes, de 44 anos, que se define como uma activista pelo Interior, deixou de leccionar no secundário, passou a fazer traduções e agora está empenhada em dar cursos de português para a comunidade de estrangeiros “que cada vez mais escolhem os nossos territórios de baixa densidade para viver”.
“Sei as dificuldades que passei, juntamente com a minha família, e percebo o que muitos imigrantes, vários deles qualificados, estão a passar por não dominarem o idioma português. Para atrairmos mais estrangeiros para o interior, precisamos de lhes oferecer esta pequena ferramenta. Tudo o resto já cá está”, conta esta docente, que tem dupla nacionalidade (portuguesa e alemã) e que domina, além da portuguesa, a língua alemã, húngara, inglesa e italiana. Uma ferramenta que Agnes quer utilizar para ajudar os imigrantes que já se encontram por cá, muitos deles vindos na altura da pandemia, e apoiar outros que escolham os territórios de baixa densidade de Portugal para viver.
“Houve muitos estrangeiros que chegaram ao país, como ingleses, holandeses ou alemães, para se fixarem de imediato e outros que pretendiam apenas afastar-se dos locais demasiado povoados na fase mais aguda da doença. Muitos desses, porém, acabaram por gostar tanto que se estabeleceram por aqui em definitivo. Há já uma comunidade significativa. Conheço muitos casos. E não estou a falar de apenas de reformados, mas, cada vez mais, de pessoas activas que podem trabalhar a partir daqui para todo o mundo”, conta, enfatizando que estes indivíduos necessitam de meios que lhes permitam começar a dominar o idioma.
“Há muitas famílias que não falam português e que querem colocar os filhos nas escolas, mas que gostavam de lhes facultar algumas bases da língua de Camões”, sublinha, apontando a sua experiência pessoal para defender a criação de instrumentos necessários para superar este problema. “Quando cá cheguei e fui para a escola não sabia uma palavra. Foi difícil, até porque não tinha qualquer ajuda. Há muitas crianças que estão agora a passar agora pelo mesmo e os pais a sentirem os problemas que os meus sentiram”, conta. Agnes explica, então, que foi esta lacuna que a levou a lançar um curso “a preços simbólicos”, para ajudar as pessoas que não conseguem tratar de um simples documento sem um tradutor. “Sei disso porque sou muitas vezes solicitada para acompanhar estrangeiros a diversos serviços”, avisa.
Esta docente, que faz questão de se apresentar como uma “activista” a favor do repovoamento do interior, acredita que a fileira dos “imigrantes” pode e deve ser aproveitada no sentido fixar pessoas nos territórios de baixa densidade. “Muita gente está disposta a vir para cá, porque já não se sentem bem em países muito industrializados, em enormes centros urbanos, com custo de vida elevado e climas agrestes”, conta, apelando ao poder local e central medidas que ajudem a colmatar este problema. “Ao facultar-se esta ferramenta estamos a criar mais um atractivo para que as pessoas venham para estes territórios. Sei que já cá estão muitos e que muitos mais podem vir”, refere, sublinhando que está disposta a deslocar-me a outros locais para ministrar cursos e fazer voluntariado no caso dos refugiados ucranianos. “Não nos podemos esquecer que a língua é fundamental e os estrangeiros podem ajudar a resolver o povoamento do interior”, conclui.
