
O sol estava a brilhar nessa madrugada da Primavera. Decidi ir conhecer a zona que, desde a minha mudança há três semanas, já posso chamar ‘a minha terra’.
Guiado pelo vento, seguia um caminho na floresta desolada entre Lourosa e Vila Pouca da Beira, até chegar a uma ribeira. Lá, na margem da ribeira pacífica, encontrei-a: a heroína desta história. A cadela de cor veado, com os olhos de uma foca. Magra como as vítimas na Somália. Tremendo. Cheia de medo e de dor. Agarrada com arame no pescoço a um pinheiro.
“O que fazer, o que fazer”, pensei em desespero. “Não tenho a experiência, nem os meios para ajudar neste momento”. “Preciso da única pessoa com as capacidades adequadas neste situação: o meu amigo Paulo Marques, o curador do museu em Oliveira do Hospital”. “O rei dos cães”.
Operação salvamento
O Paulo apareceu logo depois de eu ter voltado à civilização. Seguíamos as setas que eu deixei no labirinto pela floresta, até chegar à cena do crime. Já começava a anoitecer. Depois da análise da situação, o Paulo fez questão de estabelecer uma ligação entre ele e a vítima. A lei da cautela foi cumprida: a trela e o cobertor foram aplicados, enquanto a nossa cadela nem piscava as pestanas.
“Credo, a coitada deve estar exausta da luta pela vida”. Esta luta dura e longa. Os vestígios à volta dela contaram a história de duas semanas de noites frias e de dias sem fim. Dentadas nas árvores, pegadas na lama e o pescoço… com cortes profundíssimos.
O realizador deste filme de horror deixou o arame suficientemente comprido para a cadela não morrer de sede, condenando-a, assim, a uma morte lentíssima. “Por o facto de ela estar presa num sítio tão afastado de tudo e de todos, podemos concluir que isto é um caso de um crime deliberado”. “A armadilha de um javali não faz sentido aqui”, disse o Paulo.
“Quem seria capaz de fazer uma coisa assim tão cruel?”. “Só um cobarde”. “Alguém sem alma, nem coração no peito”, pensei. “Como consegues NÃO perder a confiança no ser humano, Paulo?”, perguntei. “Porque eu sei que 90% das pessoas são pessoas boas!”, disse ele…
Epílogo
A seguir gostaríamos de saber se alguém reconhece esta cadela. Além disso, precisávamos de encontrar um lugar seguro e certo para ela ter uma segunda oportunidade numa vida com valor.
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Bernardus Vroom* green.lift@hotmail.com
* Cidadão holandês, radicado no concelho de Oliveira do Hospital.