Esmeralda Albuquerque fundou a Confraria dos Bolos, Doces, Aguardentes e Licores de Ervedal da Beira que divulga produtos ligados à tradição pascal….
A Páscoa em Ervedal da Beira, no concelho de Oliveira do Hospital, tinha algumas actividades pelas festas pascais que hoje são recordadas com saudade por e fazem parte do património tradicional daquela vila. Era por esta altura que os jovens, e outros com mais idade, se juntavam e, em conjunto, percorriam de porta em porta as ruas da vila para provar o licor de café, o bolo finto e os matrucos. Sem esquecer a aguardente de pêra de S. Bartolomeu e licor de tangerina. Estes produtos estão hoje bem presentes na mente da população local e são conhecidos mesmo fora das fronteiras do concelho. Em boa parte, graças a Esmeralda Albuquerque que em 2012 resolveu criar a Confraria dos Bolos, Doces, Aguardentes e Licores de Ervedal da Beira, algo que acabou por conseguir em Dezembro de 2013.
“Toda a vida achei que se deviam perpetuar estas preciosidades tradicionais da nossa terra. Uma das formas de o conseguir passava por constituir uma confraria. Foi o que aconteceu. Contei na altura, entre outros, com a ajuda da notária Inês Amaral e com a designer Cláudia Grilo Quaresma. E teve um sucesso grande”, conta Esmeralda Albuquerque, ex-administrativa de um estabelecimento de ensino. “A confraria contribuiu para o relançamento destes produtos que nunca estiveram propriamente perdidos, mas estavam encerrados em casa de cada um. Esquecidos para o resto do mundo e, aos poucos, também para os mais novos. Hoje são conhecidos, graças à confraria, em todo o país e até em Espanha. Chegamos a ter aqui duas centenas de confrarias, incluindo espanholas, nos nossos capítulos”, sublinha.
Os produtos ganharam nova vida. Hoje, há quem faça o bolo finto para venda mesmo para fora da freguesia de Ervedal da Beira e do concelho de Oliveira do Hospital, bem como o licor de café ou a aguardente de pêra de S. Bartolomeu. “Estes produtos fazem parte da nossa identidade como comunidade e, não só não os devemos esquecer, como devem ser promovidos. Felizmente a Confraria cumpriu o seu papel”, nota esta ex-administrativa escolar, explicando que, curiosamente, Ervedal, cujo nome vem de êrvedo, medronheiro, devido ao elevado número daqueles arbustos na localidade, nunca se virou para a aguardente do medronho, preferindo sempre a de uva.
“É algo para o qual não temos explicação”, sublinha, frisando, no entanto, que o traje da confraria procurou essa faceta da vila de Ervedal da Beira. Esmeralda Albuquerque, que trabalhou em conjunto com a designer Cláudia Grilo Quaresma, conta que a capa em burel verde escuro representa a folha do medronheiro e o chapéu vermelho a cor do fruto, medronho. Já insígnia é amarela para contemplar as três cores da bandeira nacional. Cláudia Grilo Quaresma desenhou tudo. A produção dos trajes foi entregue a Jaime Martins, um especialista em fardas estabelecido em Penacova. Isto depois de uma reunião, convocada por Esmeralda Albuquerque, que também escreveu a letra do hino da confraria, com aqueles que produziam bolo finto e licor de café, bem como com os presidentes das instituições da vila. O objectivo era apresentar-lhes o projecto e convidá-los para serem dos primeiros confrades …. Aceitaram e concordaram com as restantes propostas que lhes foram apresentadas.
Há dois produtos que se distinguem dos demais. O bolo finto e o licor de café. O primeiro surgiu da vontade das mães brindarem os filhos com um pequeno mimo quando coziam o pão no forno comunitário. A cada fornada recolhiam um pouco de massa que ficava a levedar. Quando iam retirar o pão, juntavam novos ingredientes, como açúcar, azeite e mais farinha, à massa que tinham guardada. E ia a cozer. “Comia-se com queijo na Páscoa. Era óptimo. Com o tempo foi crescendo e hoje é feito, mas a massa é comprada ao padeiro”, conta Esmeralda Albuquerque. Já a explicação do licor de café deve-se, aparentemente, à grande colónia oriunda de Ervedal da Beira que se estabeleceu no brasil no Brasil. Esses elementos sempre que vinham a Portugal traziam café. Este produto era colocado em aguardente, onde permanecia alguns meses. No final, era fervido, adicionavam-lhe açúcar e nascia uma bebida única, o licor de café, que ainda hoje deixa muita gente alegre. “Ainda há quem continue, pela Páscoa, a ir de porta em porta dos amigos para provar os licores e bolos, algo que no final do dia acaba por fazer os seus efeitos”, conclui.
