Correio da Beira Serra

A pirâmide invertida… Autor: António Lopes

António Lopes

Há dias, lia eu um “post” de uma bombeira da corporação de Oliveira do Hospital onde, na defesa que se tornou muito corriqueira e doentia do televisivo “dislate fecal” do autarca cá do burgo (não confundir com hambúrguer), não se coibiu de atacar um comandante de corporação: Luís Martins, dos Bombeiros de Camarate.

Eu, que cumpri cinco anos e meio de serviço militar, tive um sorriso amarelo e exclamei para mim próprio: abençoada democracia! Já conseguiu inverter a pirâmide! Mas onde é que já se viu, por disciplina ou princípio ético (e ao que julgo saber a bombeira é licenciada), um subordinado de base vir opinar, criticamente, contra um superior hierárquico ao nível de comandante?

Na epístola, a autora tecia as habituais loas ao poder local. Razões para o fazer não lhe faltam. Comentei, dizendo que defender os bombeiros, como a autora diz que o poder local faz, seria cumprir as diversas leis da protecção das populações e defesa da floresta, por mero acaso da autoria do partido que governa Oliveira do Hospital, evitando assim graves prejuízos para pessoas e bens, incluindo a já terrivelmente habitual morte de populações e bombeiros.

Isso sim seria defender os bombeiros.

Minutos depois, o comentário estava eliminado. (Alta cultura democrática.)

Pergunto, à tão preocupada bombeira: qual é a freguesia do concelho onde as casas estão limpas com um raio de 50 metros? Qual é a população do concelho que tem o perímetro dos obrigatórios 100 metros limpos? Mais fácil, e mais perigoso, porque não estão limpas, 10 metros para cada lado, as bermas das estradas do concelho? É amigo dos bombeiros, merece ser defendido quem, tendo a obrigação legal de fazer — ou contribuir para que se faça — a prevenção, faz uso da negligência continuada, colocando em risco a segurança de todos, incluindo a dos próprios bombeiros?

Não foi isto que, repetidamente, o comandante Luís Martins afirmou? Não convidou o comandante Luís Martins o presidente de Oliveira do Hospital a cumprir as suas obrigações? Não foram dadas informações quanto ao apoio que outros concelhos dão às corporações de bombeiros, bastante superiores ao que se faz por cá? Não foi questionada a prevenção quanto a estradões de acesso, criação de faixas de interrupção de combustíveis para minimizar a propagação e reduzir as áreas ardidas?

Com que moral uma jovem bombeira vem criticar um dos seus, e no caso um comandante, para defender os negligentes e irresponsáveis? Será que quer ver mais área ardida e mais colegas e população mortos?

É que, em oito anos, e com os mesmos protagonistas na câmara, o concelho já ardeu uma vez todo e agora meio. É para louvar?

Em 2017, dizia o então presidente — e desta sou capaz de conceder — que com aquele nível de vento não há combate que resista. Admito. Mas, a ser assim, as leis de protecção, se nada resolvem, porque não são revogadas? Se é assim, quantos são os meios aéreos e outros necessários para evitar a catástrofe?

Um helicóptero, um carro de combate e um bombeiro por cada pinheiro resolvem? Com vento ou sem vento? Alexandrino dizia, dessa vez penso que bem, que com aquele vento nada resiste.

Então, assuma-se o que tem de ser assumido. Se nada resiste, meios aéreos, fazer despesa, para quê? Se limpar, fazer a ordenação florestal, criar faixas de interrupção de combustível e constituição de mosaicos florestais resolvem, como a lei pretende fazer crer, não se faz porquê?

É que já não há paciência para tanta loa e servilismo, ademais quando vêm sempre dos mesmos e por motivos que todos sobejamente conhecem.

Resolvam lá a vidinha, façam lá os fretes que entendam e a dívida possa justificar, mas não nos tratem por tolos, porque não o somos.

Não se coloque a segurança de todos nós em perigo, defendendo quem nada tem para defender, antes de ser responsabilizado, obrigando-nos a pagar, às vezes com a vida, as benesses das “trombetas” de serviço.

Cumprir as obrigações do cargo, cumprir as leis, não é um favor, é um dever. Assacar responsabilidades próprias a terceiros é falta de carácter. Exigir aos outros o que não fazemos, tendo a obrigação de o fazer, é desonestidade.

Coloque-se a pirâmide na posição correcta.

 

 

 

Autor: António Lopes

 

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