Proponho a continuação de artigo anterior sobre este tema da “Revolução de 1383 – 85” e da batalha de Aljubarrota que considero serem dos mais empolgantes e determinantes capítulos em toda a nossa História com Povo e País.
Não sou propriamente um “especialista” nem sequer um grande estudioso desses acontecimentos embora, desde cedo, me interesse bastante por eles. Volto a dizer que é imprescindível a leitura, bem ponderada, e de entre outras, das “crónicas” de Fernão Lopes sobre a matéria e gosto da abordagem que lhe consagra em “Os Lusíadas” o nosso poeta Luís de Camões.
Hoje, é credível afirmarmos que caso esta batalha decisiva tivesse ocorrido no dia seguinte – dia 15 de Agosto portanto – o que teria acontecido caso este não fosse “Dia Santo”, o respectivo desfecho poderia ser muito diferente implicando mesmo uma eventual derrota do exército Português, dos “verdadeiros Portugueses” – dos Patriotas. Sim, que um dia a mais para lá do dia 14, portanto um dia depois do efectivo confronto em armas, isso daria oportunidade ao numeroso e muito “esticado no terreno” exército por Castela se ter concentrado melhor e de ter mais um dia de manobras no terreno e até mais tempo para usufruir de algum descanso antes de entrar em combate directo com os Portugueses que os esperavam, no dia 14, já instalados no terreno que tinham preparado.
Daria até mais um dia para incutir terror e falta de confiança entre os Homens do nosso lado Português que, entretanto, iriam ouvindo e vendo “coisas” que lhes indicariam o de facto grande número de combatentes do lado invasor por Castela e de seu armamento superior… Aliás, relatos há que dão conta do extremo cuidado que o Comando Militar Português no terreno e particularmente o “Condestável” – Chefe do Exército – D. Nuno Álvares Pereira, tiveram em mandar ocultar, entre os seus comandados a, pelo menos aparente, enorme força do exército por Castela em relação ao bastante mais pequeno e mal armado exército reunido em arraial por Portugal.
Enfim, isto é pura especulação que não foi assim que (felizmente) aconteceu embora certas circunstâncias da preparação e do combate em si próprio possam justificar o prognóstico supra. Mas regressemos então a Aljubarrota como esta aconteceu…
— O Alto Comando Português manteve-se unido e decidido, e assim combateu dando mesmo o exemplo directo aos seus Comandados. O Alto Comando por Castela nunca esteve unido, não foi capaz de posicionar simultaneamente todas as suas tropas em combate e foi manifestamente surpreendido pela táctica bem pensada e articulada pelo exército Português. E quando as coisas entraram a correr visivelmente mal para o seu lado, o Rei de Castela foi o primeiro a abandonar o local (a fugir) sem sequer mandar acautelar a retirada dos seus soldados que também entraram em fuga mas desprotegidos.
– O Alto Comando Português, na véspera da batalha de Aljubarrota, com o próprio Nuno Álvares a liderar a manobra, fez um bom reconhecimento do terreno e até solicitou opinião a outros combatentes experimentados, nomeadamente a capitães Ingleses que apoiavam a causa nacional embora até fossem mercenários. Nesse contexto, esteve em Aljubarrota um conjunto deles com uns 600 entre arqueiros e besteiros “especializados” (há autores que dizem ter sido menos), os quais constituíam, à época, um corpo de “tropa de elite” que muito contribuiu para a vitória militar.
Do lado Português combateu-se com a maior determinação e sem nunca perder confiança na vitória.
O decorrer da batalha teve momentos em que a nossa força de combate tremeu, por exemplo, quando chegou a ser rompida a linha da frente em que, no comando, combatia Nuno Álvares. Há relatos que dão a indicar que até esse tipo de circunstância fora previsto e prevista estava a forma de melhor lhe reagir… É nesses momentos em que se instalou a indefinição perante o rumo da batalha, que D. João I ordenou a degola, pura e dura, de uns 500 cavaleiros por Castela que acabavam de ter sido feitos prisioneiros (apeados) após o primeiro embate, pois receava-se que eles pudessem voltar ao combate!
A imediata resposta dos Portugueses, vinda desde a rectaguarda e comandada pelo próprio Rei D. João I em circunstâncias bem conduzidas, acabou por comprimir os Castelhanos que foram “entalados” sem espaço de manobra, pela frente, pelos lados e por trás, em terreno exíguo e previamente “armadilhado”. Sim, foi um verdadeiro massacre, para o que confluíram coragem e determinação dos combatentes por Portugal e o génio militar sobretudo de Nuno Álvares bem apoiado pelos seus capitães e até pelos seus pajens “escudeiros” e “guarda-costas” muito experimentados e sempre prontos a darem a própria vida pelo seu Comandante e “Condestável”. Pelo seu lado, D. João I, embora mais cauteloso, também cumpriu magnificamente o seu papel enquanto Rei combatente e Chefe Militar do seu sector de combate. Note-se que quer D. João I – o “Mestre de Avis”, sendo que esta era uma “Ordem” (organização permanente) militar e religiosa – quer Nuno Álvares Pereira eram militares profissionais de formação e já com experiência nesta “guerra da sucessão” contra Castela e o “Juan I”. Uma guerra desgastante que só terminou com o tratado de paz de Ayllon assinado em 1411 – 26 anos após Aljubarrota – entre Portugal e Castela e em que D. João I é por fim reconhecido oficialmente por Castela como Rei de Portugal.
Antes de tudo isso, o então Mestre de Avis, D. João, e D. Nuno Álvares Pereira, cedo ficaram amigos e “cúmplices” da política da época e da guerra de independência. E assim se mantiveram durante décadas, praticamente até Nuno Álvares professar como monge e passar a ser o “Frei Nuno de Santa Maria” e o “Santo Condestável”. Pelo meio, também tiveram algumas sérias divergências no plano político e no plano militar, divergências que sempre acabaram por sanar embora quase sempre tenha prevalecido a vontade de Nuno Álvares o que confirma a sua influência de facto. O último combate em que participaram juntos, e onde também combateram o Príncipe Herdeiro (D. Duarte) e dois dos seus irmãos Infantes (D. Pedro e D. Henrique), esse último combate aconteceu na conquista de Ceuta (Norte de África) em 1415 (30 anos depois de Aljubarrota). Sim, foi muito tempo à espadeirada !… Mais tarde nos últimos anos de vida do “Condestável”, com ele já professado como monge colhia esmolas nas ruas, o já Rei D. Duarte intervém e “consegue” remover Nuno Álvares – o monge – dessa prática, pelo menos em público.
Neste contexto das relações pessoais entre estes dois Homens notáveis – Nuno Álvares Pereira e João “Mestre de Avis” e Rei – comecemos por assinalar o facto que quando o então muito jovem Nuno Álvares Pereira foi armado cavaleiro e escudeiro da Rainha Dª Leonor, o fez dentro de uma armadura (medieval…) cedida pelo Mestre de Avis, o D. João, este “Mestre” (chefe) dessa Ordem também desde muito jovem… Logo em pleno início da “Revolução” em 1383, D. João é praticamente “confirmado” pelo Povo de Lisboa para ser o “Regedor e Defensor do Reino” e daí ter ele confirmado Nuno Álvares Pereira como “Fronteiro-Mor” do Alentejo” onde assume acção constante e com grande autonomia operacional, quer a defender a fronteira quer mesmo a ir atacar (e pilhar…) dentro de territórios Castelhanos. Mais tarde (Março e Abril de 1385), D. João é aclamado “Rei de Portugal” nas Cortes de Coimbra onde, dentro do salão, argumentou loquazmente a seu favor o insigne João das Regras mas enquanto Nuno Álvares Pereira montara, cá fora e de prevenção, uma intimidatória força militar sob seu comando com a bem entendível “mensagem” de punir severamente os protagonistas caso as Cortes tendessem para uma decisão desfavorável ao Mestre de Avis… Há quem diga que pesou mais, na decisão final dessas Cortes, a “força em prontidão” de Nuno Álvares do que pesou o brilhante argumentário de João das Regras… Pudera!…
E nessas Cortes de Coimbra, também é nomeado “Condestável do Reino” – chefe militar do reino – D. Nuno Álvares Pereira, então com 25 anos. Note-se que nas mesmas Cortes de Coimbra foi feita uma bem sucedida subscrição para obter fundos para financiar a guerra. E menos de 4 meses depois, logo quando Castela invade Portugal pela Beira Alta e se reúne “o Conselho de Guerra” Português convocado por D. João I, para Abrantes, Nuno Álvares reagiu mal ao desenrolar desse “Conselho de Guerra” e logo fez vingar uma sua decisão pessoal, mesmo face ao Rei, de dar combate imediato ao exército Castelhano para evitar novo cerco a Lisboa. Ou seja, Nuno Álvares Pereira tinha forças militares e militarizadas ao seu dispor e que lhe obedeciam sem hesitações, aliás forças capazes de “impor” decisões do tipo e também já tinha grande prestígio pois era militar profissional desde tenra idade e possuía grande experiência de combate na “linha da frente” e sempre com sucesso. É, aliás um prestígio que se mantém luminoso até hoje e que assim vai continuar.
Uma única vez Nuno Álvares e D. João I não almejaram objectivos militares a que se tinham proposto. Foi essa durante o cerco frustrado a uma vila – Cória – em Castela/Extremadura e que tentaram tomar (sem êxito) a seguir à batalha de Valverde também esta travada e vencida já dentro de Castela, a Sul, portanto com Portugal agora como invasor.
A seguir, um filho de D. João I vem a ser casado com a filha de Nuno Álvares e desse enlace “combinado” vêm a sair a rica e poderosa “Casa de Bragança” e os “Duques de Bragança”, linhagem que acede directamente ao Poder Régio em Portugal, em 1640, na “Restauração da Independência”, na guerra contra os Filipes de Espanha iniciada em 1640 e, em definitivo, “só” perde o Poder Régio com a implantação da República, em 1910 !
“Pé terra“ – defesa do território e de teres e haveres – defesa da Pátria.
Entre nós, as batalhas dos Atoleiros, de Aljubarrota mesmo de Valverde, assinalaram a tendência para a profunda alteração táctica e estratégica, ocorrida em combates militares medievais, em que a Infantaria normal, todavia bem reforçada com destacamentos móveis formados por “especialistas” arqueiros e besteiros, uma “tropa de elite”, a Infantaria assim reforçada estava “a bater”, e com bastante sucesso, na Cavalaria pesada tradicional. Afinal, era um figurino que já era utilizado na Europa nomeadamente na “guerra dos 100 anos” entre Inglaterra e França.
Entretanto, não foi por mero acaso ou por inspiração divina que se produziu essa profunda alteração. A Cavalaria pesada era tradicional e tradicionalmente composta por Alta Nobreza pois exigia grandes meios de combate – cavalos e ginetes – armaduras caras – espadas e lanças – pajens/escudeiros – e muito treino específico (profissionalização) – ou seja, era para ser praticada pela Nobreza e por alguns mercenários também estes “profissionalizados”. A baixa Nobreza e o Povo não tinham acesso a tais meios e, aliás, também tinham que trabalhar na agricultura, na pesca e nos vários “misteres”. A Burguesia emergente, na base nos “mesteirais” e respectivos “chefes de ofícios” e dos comerciantes, precisava de ter margem de iniciativa e queria pagar quanto menos impostos melhor, desde logo para não ter de sustentar guerras “alheias” as quais também lhes prejudicavam os “negócios”… É nesse contexto sócio-económico e político que se dá a “Revolução de 1383 – 85” que constitui a primeira revolução burguesa no mundo e que bem soube mobilizar a intervenção popular enquanto a Alta Nobreza “se bandeava” para Castela.
A maioria dos soldados combatia apeada, mal equipada e mal preparada. Todavia, dava insubstituível colaboração para os êxitos militares, alguns deles em grande escala, fosse na guerra directa contra Castela, fosse na espécie de “guerra civil” que dentro de Portugal também grassou. Era a ”arraia miúda de ventre ao Sol” e “pé no chão” como até carinhosamente lhes chamou Fernão Lopes. Era “o Povo em Armas”, embora, por exemplo, os lenhadores e outros operários que trabalhavam com madeira, transformassem o respectivo machado de trabalho (e outras alfaias) numa temível arma de combate e bem capaz de rachar a meio o elmo e a cabeça de um nobre ao serviço de Castela…
Mas confluindo em manifestações de coragem e patriotismo, “ferviam” em ânimo e revolta, capazes de se superarem em todas as difíceis circunstâncias e de vencerem os “senhores da guerra” de então – a Alta Nobreza e o Alto Clero – e seus profissionais ! Sim, o período 1383 – 85 é um exaltante exemplo de uma Revolução com profundo carácter popular, democrático e patriótico ! Elementos que constituíram o mais eficaz “arsenal” que, nessa época, se reuniu e fez actuar até à vitória da Independência nacional !
Mais tarde, em 1640, veio a suceder algo desse género durante a “Guerra da Restauração da Independência” contra os Filipes de Espanha ! O processo da também heróica e muito sacrificada resistência interna às Invasões Napoleónicas, no início do século XIX, esse processo, sem dúvida notável, todavia teve outras e muito diferentes características. A implantação da República, em 1910, consuma a ascensão da Burguesia Nacional ao poder político central no nosso País, de início com apoio popular. Já a “Revolução dos Cravos” iniciada a 25 de Abril de 1974, essa retoma e promove a intervenção directa do Povo na respectiva consolidação e condução, com impactos democráticos próprios que perduram para além do tempo e das vicissitudes.
Viva todos os Heróis Portugueses ! Viva a Independência Nacional !
Viva Portugal !
Agosto de 2024 – 639 anos após Aljubarrota.
João Dinis, Jano
