Dono do “Refúgio Serrano” abandonou espaço que ocupava há mais de 30 anos quando valor atingiu os cinco mil euros por cinco anos
No rosto de Carlos, o antigo proprietário do “Refúgio Serrano”, uma banca de venda de queijos e enchidos instalada há mais de trinta anos no Mercado Municipal de Tábua, é visível o desapontamento. É com uma pontinha de emoção que nos explica os motivos por que teve de abandonar esse espaço que ocupava praticamente desde a inauguração do mercado:
“A minha mulher ficou mais triste do que eu, mas não podia pactuar com o valor astronómico que atingiu a arrematação dessa minha banca, mais de cinco mil euros. Chegou a estar nos 600 euros, mas picaram acima desse valor e eu desisti. É pena, pois a Câmara não protegeu os comerciantes locais”, diz, acrescentando: “Não nos avisaram, iniciaram a hasta pública no dia 22 de Abril e acabou uma semana depois, nem deu tempo para nos preparamos, nem para avisar clientes”.
Agora a anterior banca é ocupada por um comerciante de Penacova, que aposta na venda de produtos caseiros, principalmente os chouriços e presuntos. Resta agora a Carlos prosseguir o seu negócio no mercado da Figueira da Foz, ele que nasceu há 81 anos em Candosa. “Temos de pensar nas coisas, pois a idade já não permite certas brincadeiras. A somar a isso, ainda teria de pagar 40 euros mensais. Isto é válido por cinco anos, mas existe uma renda, o espaço nunca é nosso”, frisa.
Agora restam as memórias do convívio e fraternidade com colegas e público, “havia muita gente para quem nós éramos uma família”.
O vereador Vítor Melo, que também tem uma banca no mercado, diz-nos que já tinha lançado o alerta há muito tempo, “com a finalidade de salvaguardar a posição dos agentes económicos do concelho”. Acrescenta que o objectivo do mercado visa escoar os produtos locais e deveria haver no regulamento um item que protegesse os agentes económicos tabuenses, dando a primazia aos mesmos, “e depois, se houvesse espaços disponíveis, então é que, quem viesse de fora, se poderia candidatar”. O que nunca aconteceu, explicando que comerciantes exteriores a Tábua andaram a picar os valores nas várias bancas. “Eu tive de ir até aos 5 mil euros, o Zé da Céu aos 4 mil euros”, sublinha, garantindo haver um estado de revolta geral. “Fazem regulamentos para tudo, para as festas e festinhas e para proteger as pessoas e empresas locais, não se faz nada”, acentua Vítor Melo. Agora, depois do encaixe efectuado com as arrematações, quem ficou no mercado espera pela melhoria nas infra-estruturas, por exemplo, numa das entradas, onde chega a chover apresentando a parede visíveis fissuras.
Texto: José Leite
