Correio da Beira Serra

Bola de futebol usada no primeiro jogo em Portugal representada no prato comemorativo dos 200 anos da Vista Alegre

Peça artística revelada no dia do aniversário

O toque da sirene às 8 da manhã da passada sexta-feira, dia 5, assinalou um dia especial para a Vista Alegre, em Ílhavo, dando inicio às comemorações dos dois séculos de vida daquela empresa .

Momentos depois, e na presença dos presidentes das Câmaras Municipais de Ílhavo João Campolargo e  a de  Aveiro,  Ribau Esteves, além de responsáveis desta unidade que integra o Grupo Visabeira, procedeu-se à apresentação formal da primeira peça produzida em 2024,  um prato calendário cujas fases de  feitura foram sendo mostradas em vídeo. Autêntica obra de arte, esta peça remete-nos para a história da empresa, com representação de várias figuras, desde o fundador da Vista Alegre, José Ferreira Pinto Basto, os camelos que transportavam as loiças desde a fábrica até ao porto de Aveiro (forma de transporte usada pela Vista Alegre em tempos idos para não haver quebras das peças) até uma bola de futebol, idêntica àquela que entrou em campo no dia 22 de janeiro de 1889, há 127 anos, no primeiro jogo oficial de futebol internacional realizado em Portugal, nos terrenos onde agora está instalada a Praça de Touros do Campo Pequeno, que opôs uma seleção lusa e a Inglaterra, jogo favorável às nossas cores e que foi promovido pelos bisnetos do fundador da Vista Alegre.

Esta unidade fabril emprega 650 trabalhadores, com uma atividade contínua nos fornos concebidos com as mais altas tecnologias. Num museu ali patente e aberto ao público, podem ser vistas as primeiras e gigantescas estruturas onde antigamente era feita a cozedura das peças.

“Por dia, saem daqui 50 mil peças, com 75 por cento das mesmas desatinadas à exportação, sendo o principal país importador a Espanha, embora tenha havido um grande crescimento no Brasil, onde temos uma forte filial, Estados Unidos, Ásia e Médio Oriente, onde estamos a ter igualmente uma grande dimensão”, diz-nos Teodorico Pais, administrador da Vista Alegre.

Este responsável referiu que muitas das grandes marcas do sector, especialmente na Alemanha, “adotaram estratégias de sub- contratação na China e, hoje, foram perdendo mão-de-obra qualificada, o conhecimento e o investimento, acabando por ficar reféns com a rutura das cadeias logísticas após a pandemia e agora a Guerra, tornando mais difícil a sua estratégia de abrangência”.

“Nós não seguimos por esse caminho comercial, por que nunca deslocalizamos a nossa produção”, acrescentou Teodorico Pais

A grande matéria da produção de porcelana situava-se na zona de Ílhavo e Aveiro, Ovar, daí a implantação da empresa na região, mas a matéria-prima foi escasseando e agora, por exemplo, os caulinos mais brancos são provenientes da região da Cornualha, Inglaterra.

Ocupando uma vasta área no concelho de Ílhavo, o conjunto imobiliário da Vista Alegre engloba um hotel de 5 estrelas, o Montebelo Ílhavo Vista Alegre, dotado de todas as comodidades e decorado com as peças da empresa, como não podia deixar de ser,uma Capela de estilo barroco, onde se realizam as tradicionais festas em honra de Nossa Senhora da Penha de França, um Teatro, Museu e um outlet, onde podem ser adquiridas peças Vista Alegre a preços mais módicos. Como curiosidade o bairro social destinado aos trabalhadores mais carenciados continua a ser utilizado e as normas que estiveram na génese da sua construção foram mantidas: o agregado familiar do trabalhador que arrende uma casa só paga o equivalente a um dia de salário. E uma outra curiosidade que anotamos: à entrada da empresa, um grande cartaz, informa os trabalhadores que foi atribuído um prémio de 500 euros pelo Grupo Visabeira durante o natal.

O alvará que autorizou o funcionamento da Fábrica da Vista Alegre foi concedido em 1824 pelo rei D. João VI, passando esta a beneficiar de todas as graças, privilégios e isenções de que gozam, ou gozarem de futuro, as Fábricas Nacionais. Cinco anos depois, a Vista Alegre recebeu o título de Real Fábrica, um reconhecimento pela sua arte e sucesso industrial. A partir de 1832, a fábrica intensificou seu trabalho e dedicou-se ao aperfeiçoamento da porcelana.

A contribuição de artistas estrangeiros, tais como Victor Rousseau, foi importante, sobretudo para a criação de uma escola de pintura, ainda hoje famosa. E foi neste espaço que encontramos cerca de uma vintena de artistas – uma delas com 44 anos de casa – pintando à mão uma peça que, como tantas outras ali patentes, podem atingir valores superiores a 2 mil euros.

Durante a cerimónia comemorativa do aniversário, foi recordado o facto de esta empresa ter estado em risco de colapsar, sobrevivendo devido a uma aposta financeira muito conseguida do Grupo Visabeira, que soube aglutinar e gerir as várias sinergias, aliando a indústria ao turismo de uma forma positiva.

Os serviços Vista Alegre são usados oficialmente pelo Presidente da República Portuguesa, pela Casa Branca, por várias Casas Reais e por muitas personalidades de todo o mundo. A marca fornece ainda as loiças oficiais de várias embaixadas espalhadas pelo mundo, nomeadamente as do Brasil, Espanha e Marrocos, bem como outras instituições públicas e privadas nacionais e internacionais. Em outubro de 2018 foi distinguida pela Comissão Europeia com o prémio “Regiostars”, um galardão que gratifica os melhores projetos de política de coesão na União Europeia, privilegiando projetos inovadores e de boas práticas de desenvolvimento regional. Prepara agora a entrada em outras categorias, nomeadamente nos têxteis, sendo anunciado uma parceria com os bordados da Madeira, e  no mobiliário, estará presente pela primeira vez numa exposição em Paris, em parceria com designers italianos. Foi também anunciada a música oficial dos 200 anos e os CTT irão lançar selos alusivos à efeméride.

 

Texto e fotos. José Leite

 

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