Correio da Beira Serra

BTL, a feira das vaidades. Autor: Nuno Pereira

Há anos que o digo: a BTL deixou de ser, em grande parte, uma feira de turismo. Passou a ser uma feira de vaidades.

A ideia era boa. Promover o país, mostrar territórios, vender destinos, atrair visitantes. Mas depois vieram os stands sobre stands, as apresentações sobre apresentações, as regiões, as sub-regiões, as comunidades intermunicipais, os municípios, as aldeias disto e daquilo, todos a falar do mesmo território, quase sempre para as mesmas pessoas.

O turista, esse, fica muitas vezes perdido no meio da cartografia administrativa.

Por isso, não estranhei ouvir o presidente da Turismo Centro de Portugal, Rui Ventura, dizer que a BTL não pode ser uma feira de vaidades. Não disse que é. Eu digo. E digo porque basta olhar para aquilo: o mesmo território representado por várias estruturas diferentes, cada uma com o seu espaço, a sua apresentação e os seus custos.

A Região Centro é o exemplo perfeito. Há um stand da região. Depois há as comunidades intermunicipais. Depois os municípios. Depois as aldeias históricas, as aldeias de xisto, as aldeias de montanha, a transumância e tudo o mais que alguém conseguiu transformar em marca. No fim, o visitante já não sabe se está a descobrir um território ou a assistir a uma assembleia geral sobre quem gastou mais.

Isto não é estratégia. É dispersão com carpete.

E custa dinheiro. Muito dinheiro. Dinheiro público que devia servir para trazer pessoas ao território, não para levar estruturas públicas a Lisboa a promoverem-se umas às outras. Para isso, podiam ficar em casa. Sai mais barato e o resultado é parecido.

Promover a Região Centro faz sentido. Claro que faz. Mas promovê-la como um todo, com uma leitura clara, de norte a sul, do litoral à serra, das praias às aldeias, da chanfana ao queijo, dos rios aos caminhos da transumância. Um visitante não quer saber onde começa uma comunidade intermunicipal e acaba outra. Quer saber porque deve ir, onde pode dormir, o que pode comer, que experiência leva consigo.

E é aqui que está a diferença entre gastar dinheiro e investir dinheiro. Em vez de multiplicar stands, apresentações e vídeos para consumo interno, porque não criar mecanismos que tragam pessoas cá? Vouchers de estadia, programas de visita, campanhas directas, experiências no território. Ponham o turista a dormir, a comer, a visitar, a comprar. Depois, se gostar, volta. E talvez traga outros.

O sucesso de uma feira de turismo não se mede pelo número de apresentações nem pelo tamanho dos stands. Mede-se pelas reservas feitas, pelas camas ocupadas, pelos restaurantes cheios e pelas pessoas que decidem visitar o território.

Quando a promoção deixa de trazer visitantes e passa apenas a promover quem promove, alguma coisa está errada. Além disso, em vez de gastarem mais de 500 mil euros numa feira, podem gastar menos de metade e o resto ser investido no território.

 

 

 

Autor: Nuno Pereira

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