Correio da Beira Serra

Comprar casa no litoral exige esforço muito superior que no interior

Comprar habitação em Portugal é uma tarefa cada vez mais difícil. O preço das habitações disparou ao longo da última década, em grande parte devido à escassez que existe no mercado (a existência de uma procura superior à oferta inflaciona naturalmente os preços). Por outro lado, os rendimentos dos portugueses cresceram a um ritmo lento neste período, tornando a aquisição de habitação um sonho quase inalcançável para grande parte da população. De acordo com a OCDE, os portugueses são quem faz maior esforço para comprar habitação entre todos os países membros da organização.

Apesar desta tendência, existe uma enorme disparidade entre as diferentes regiões e concelhos em Portugal, seja em termos dos preços das habitações, seja relativamente aos salários médios praticados. Consequentemente, o esforço para pagar uma habitação varia muito de concelho para concelho.

No litoral do país, especialmente nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto, os salários médios estão acima da média nacional, no entanto o preço por m² de um alojamento familiar também é muito superior à média do país. O esforço médio para pagar uma habitação, medido através do número de anos de trabalho para se obterem os rendimentos brutos necessários para cobrir o seu custo, acaba por ser maior nesses concelhos. Considerando apenas as capitais de distrito, destacam-se Lisboa, com 17 anos de trabalho para uma habitação de 100 m², Porto, com 13 anos, e Faro, com 12 anos.

No interior do país, a realidade é bastante diferente. Os salários médios são mais baixos, mas os preços das habitações também. Em Portalegre o esforço médio para comprar casa é de apenas 5 anos de trabalho e na Guarda e Castelo Branco 6 anos, considerando apenas as capitais de distrito. Analisando todos os concelhos do país, é em Loulé (20 anos), Cascais (20 anos) e Lagos (19 anos) que o esforço é maior para adquirir habitação.

Na realidade, o esforço para compra da habitação ainda é maior, uma vez que os rendimentos líquidos são inferiores aos brutos, e existem inúmeros custos diários (alimentação, transporte, electricidade, etc.), bem como os eventuais juros do crédito à habitação, que reduzem as taxas de poupança, e que levam a que muitos portugueses demorem várias décadas até pagarem por completo a sua habitação.

Os números apresentados revelam, por isso, que não só as regiões do interior estão cada vez mais despovoadas e menos atrativas para a maioria dos portugueses (refletindo-se na desvalorização da habitação), como, por outro lado, no litoral a oferta de habitação é insuficiente para satisfazer a crescente procura, o que conduz ao aumento dos preços e a um esforço financeiro cada vez mais insuportável para a carteira da classe média portuguesa.

André Pinção Lucas e Juliano Ventura

25 de julho de 2022

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