Correio da Beira Serra

Confraria de Tondela celebrou o milho que alimentou gerações e ajudou a travar o fogo

XIII Capítulo da Confraria dos Carolos e Papas de Milho reuniu 31 confrarias e destacou a importância de uma cultura que marcou a alimentação, a economia familiar e a paisagem de Tondela

O milho, que durante gerações foi alimento e sustento de famílias em Tondela, voltou a estar no centro das atenções no XIII Capítulo da Confraria dos Carolos e Papas de Milho, realizado no sábado, em S. Miguel do Outeiro. A cultura esteve também ligada a um episódio mais recente e inesperado: segundo a presidente da Câmara de Tondela, os milheirais ajudaram a travar o avanço do incêndio que lavrou na Serra do Caramulo no início de Julho, evitando que as chamas atingissem habitações em aldeias como Matadegas.

“Reconhecer o papel das confrarias, em especial desta, que dinamiza, promove, faz recordar e coloca na agenda do dia um produto que foi fundamental na sobrevivência e na economia familiar, mas também no sector primário. Mas acima de tudo, que não deixa esquecer a importância do milho”, afirmou Carla Antunes Borges durante o encontro.

A presidente da Câmara de Tondela destacou ainda o papel dos milheirais durante o incêndio da Serra do Caramulo, considerando que foram determinantes para impedir o alastramento das chamas e evitar que algumas habitações fossem atingidas. A referência colocou em evidência uma dimensão menos habitual da cultura do milho, ligada não apenas à alimentação e à economia rural, mas também à própria configuração da paisagem.

A moleira-mor da Confraria dos Carolos e Papas de Milho, a principal representante da instituição, Céu Carrapiço, por seu lado, frisou que o milho é uma planta milenar que acompanha a história da humanidade. “Transformou hábitos alimentares, ajudou populações a ultrapassar períodos difíceis e marcou profundamente a identidade de várias regiões”, sublinhou, lembrando que no concelho de Tondela, os carolos e as papas de milho fizeram parte da vida quotidiana de várias gerações, tendo sido alimento de trabalho de famílias e comunidades e presença constante à mesa das populações mais humildes.

“Assumimos com orgulho o compromisso de proteger e valorizar este património”, garantiu a responsável, destacando também a importância do milho na economia, na paisagem e na cultura da região, considerando-o a origem de algumas das “maiores e genuínas expressões gastronómicas portuguesas”.

O XIII Capítulo reuniu 31 confrarias do Norte e Centro do país. A iniciativa começou com a recepção dos convidados e um momento de desfolhada junto à capela do Senhor do Calvário, em S. Miguel do Outeiro. Seguiu-se o cortejo até à capela de S. Pedro, onde foram benzidas as insígnias das confrarias participantes.

A cerimónia de entronização decorreu depois na Quinta do Terreiro. O secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território, Silvério Regalado, e o médico ortopedista Eduardo Mendes foram entronizados como confrades de honra, tendo ainda tomado posse três novos elementos da confraria.

Silvério Regalado, que afirmou ter uma ligação forte ao movimento confrádico, ao milho e ao mundo rural, disse que não lhe custará “divulgar o milho e toda a cultura e economia” a ele associada. O governante manifestou ainda disponibilidade para trabalhar com Tondela na promoção do território e do interior.

Eduardo Mendes recordou, por seu lado, a ligação da sua infância ao milho e às “voltas do milho”, associadas à vida familiar. “Fui criado no milho, nas voltas do milho, que implicavam uma vida familiar. Ainda bem que não deixam morrer o que faz parte da nossa cultura”, afirmou.

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