
Como é timbre de muitas “avozinhas”, aceitou as desculpas e a oferta e lá comeram todas as bolachas restantes. Afinal, aquele mal-entendido quebrou o gelo entre as duas desconhecidas e então a senhora perguntou: – Por que vais viajar para o Reino Unido (UK)? – Vou visitar a minha irmã que após a conclusão dos estudos universitários e apesar de ter frequentado um “bom curso e uma boa Faculdade”, não conseguiu arranjar, no nosso país, uma colocação profissional adequada e ousou emigrar para Londres, ainda antes do “Brexit” que agora torna mais difícil a emigração para o UK, respondeu a jovem. – E a senhora, qual o motivo da sua viagem? – inquiriu a jovem. – Eu vou visitar a minha neta que vive em Londres com os pais. A mãe, minha filha, portuguesa, e o pai, um italiano, que se conheceram aquando da frequência do programa Erasmus (sabes a que me refiro, indagou?). Nunca mais se largaram, afinal, um dos bons resultados do programa Erasmus ao facilitar os “casamentos” entre jovens estudantes universitários de vários países e que já gerou mais de um milhão de crianças, desde que começou há mais de trinta anos! Concluída a sua formação, ousaram emigrar para o UK, o “El dourado” de então. Mas agora, com o “Brexit”, a vida não parece fácil para a tua irmã e para a minha família, bem como para muitos outros imigrantes de várias nacionalidades ali residentes. Aculturados à vida do UK, sentiram receios em regressar a Portugal e aguardaram, com expectativa o resultado das negociações entre o UK e a União Europeia (EU). E tudo isto por causa de políticos incompetentes e irresponsáveis, porque referendaram um assunto de Estado. Colocaram as decisões no voto do povo, sem bases mínimas para decidir em consciência na opção, criaram um problema difícil de resolver e que se arrastou muito tempo.
E assim continuou a “avozinha”, em tom de desabafo e de mágoa, embora, no seu íntimo, desejasse que a filha e a restante família regressassem ao nosso país. Em jeito de conclusão e perante a atenção da jovem companheira de viagem, disse ainda que os políticos britânicos comeram várias vezes a última bolacha, mas continuaram a pedir mais uma e ainda mais uma à UE, isto é, a pedir constantes adiamentos nas negociações e da data final do “Brexit”, porque não sabiam como finalizar, a contendo, tamanha monstruosidade em que lançaram o seu “Reino” (Reino Unido). Já sentiram alguns dos efeitos com o “divórcio” com a Europa Continental, por exemplo, com a falta de trabalhadores para suprirem as suas carências – por exemplo, a falta de milhares de camionistas que quase parou a cadeia de abastecimentos. A História, um dia fará justiça desses políticos insensatos que para contentarem os descrentes e antieuropeístas existentes no seu partido e na sociedade do UK, avançaram com um referendo a toda a população do UK (Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales =UK) não foram competentes para analisarem as consequências e faltou-lhes também uma visão de futuro. Nem os imprescindíveis “trabalhos de casa” conseguiram fazer e daí os sucessivos adiamentos e extremar das negociações com a UE. Que sirva de lição para todos os políticos sem uma visão de Estado e de futuro, porque a Política deve ter horizontes alargados também. Esta “guerra” inimaginável, mas de acordo com as ambições expansionistas da Rússia, veio mostrar ao mundo democrático que a “união faz a força”, pelo que a saída do UK da EU foi uma opção insensata e uma lição para outros países que ameaçam seguir o mesmo caminho, como veio a provar-se agora. A invasão e intenções expansionistas de Putin, apanhou uma EU desarmada, mas, felizmente, uma NATO composta por trinta países e dos quais só os USA e o Canadá não pertencem à Europa, que, apesar de tudo, não se desmembrou, como defenderam alguns “políticos de faz de conta ou pró Rússia”, e que agora se desmascaram, “condenando a NATO” como causadora da invasão russa da Ucrânia, após o fim da “guerra fria”. Mostrou ainda que estar fora duma “União”, pode trazer-lhes dissabores, como é o caso da Suécia e da Finlândia (também da Rep. da Irlanda) que não quiseram ser membros desta Organização e agora estão fragilizadas face ao seu terrível vizinho russo. Erros que podem ser fatais, como é o caso de a Europa Ocidental estar sempre à espera que sejam os USA a liderar a defesa dos vinte e oito membros europeus, verdade seja dita que o seu “tamanho” lhe dá esses meios económicos e militares, mas retira independência ética às suas ações e fins.
E lá embarcaram ambas, com destino a um país que foi o “El dourado” de milhares de portugueses que para ali emigraram e que agora já não o podem fazer com a mesma facilidade de quando a UK fazia parte da EU. Mais consequências também para nós portugueses, advirão daquela separação entre as ilhas britânicas e o continente europeu pertencente à EU. Mas ainda confidenciaram, de que a invasão e a brutal destruição dum país/nação e o genocídio (imagens brutais que nos vão chegando) do povo ucraniano, para alem de consequências ainda mais abrangentes que poderão daí advir, veio mostrar-nos, a todos, quão frágil pode ser o nosso bem-estar e a nossa vida. E também que a democracia, pela qual nos batemos, tem dificuldade em “gerar” políticos com um “P” grande
Serafim Marques
Economista (Reformado)
