A minha aldeia e freguesia, anichada num tipo de relevo em concha, estava, no início da década de sessenta, rodeada por manchas de pinheiro-bravo e num perder de vista, até ao cume da Serra da Estrela, pelo lado norte. Fazia lembrar um presépio, não iluminado, porque, à época, a única luz noturna era fornecida por simples “lampiões” a petróleo. Os solos eram pobres e a água para rega tinha que ser extraída dos poços com “engenhos” movidos à força de braços. Nos verões de seca, esta faltava e das colheitas, muitas vezes, nem a semente se recuperava, para não falar no duro trabalho braçal ou apenas ajudado por parelhas de vacas que, muitas vezes, nem podiam com a charrua e com carros pesados para transporte de todo o tipo de bens. A fome “batia à porta” de muita gente, pois nem para o caldo de hortaliça e a cozedura da broa tosca de milho e centeio havia géneros. E se havia muitas bocas, qual ninho de pequenas aves que a mãe tinha que alimentar, então nem dava para enganar o estômago. Dar filhos, rapazes ou raparigas, para “servirem” nalguma família onde eles não existissem e ou mais abastada, melhor dizendo, menos pobre, em troca de comida e dormida, era uma prática habitual nas Beiras e no Minho.” Eu e a minha irmã mais nova fomos mandados para longe de casa por uma única razão: porque os meus pais não tinham dinheiro para criar todos os filhos” – relata o Miguel Sousa Tavares, este seu caso pessoal no seu livro autobiográfico: “Cebola Crua com Sal e Broa”, – este o menu de uma das refeições-uma cebola rachada em quatro gomos com sal e vinagre que se comia com broa.
O minifúndio, maioritariamente e de arrendamentos, era composto por solos pobres tornando difícil obter os alimentos para enganar o estomago a famílias numerosas – a média era superior a cinco/seis filhos por agregado familiar. A “fuga”, eram as emigrações para o Brasil, e as migrações para Lisboa e para o Alentejo, etc, onde o latifúndio e a baixa densidade populacional carecia de gente para fazer todo o tipo de trabalhos agrícolas que a pouca maquinaria agrícola existente não fazia ainda. Foi assim que, num certo dia do final de verão de 1961, apareceu lá na aldeia o feitor dum latifundiário do Alentejo com o propósito de engajar um grupo de trabalhadores dispostos a fazerem uma campanha de cerca de nove meses na sua herdade algures na proximidade de Canal Caveira (concelho de Grândola. Dirigiu-se a um conterrâneo adulto e já com experiência deste tipo de contrato, a que se dá o nome de “Manajeiro”. Era este homem, já tarimbado neste tipo de prestação de serviços, que engajaria cerca de uma dúzia de trabalhadores (!) dispostos a aderir a esta campanha sazonal. Seriam todos do sexo masculino e entre os onze anos e os quatorze anos.
O manajeiro bateu à minha porta e falando com a minha mãe – o meu pai já há cerca de quatro anos que
O Manajeiro engajou os restantes “miúdos” na minha aldeia e noutras em redor e, em meados de outubro de 1961, partimos para fazer a já descrita “A Primeira Viagem da Minha Vida”, publicada na edição anterior, eu que apenas tinha feito viagens à cidade, algumas a pé, apesar dos doze quilómetros de distância. A minha mãe comprou-me uns tamancos (calçado com base em madeira e couro na parte superior, cravado com “atachas” e uma simples caixa/arca de madeira onde meteu as minhas parcas roupas que serviriam para os nove meses de campanha naquele clima nada ameno do Alentejo (muito frio no inverno e muito quente no verão). Ali chegado, fiquei a saber que os trabalhadores nativos nos olhavam com azedume e desdém e nos apelidavam de galegos ou «ratinhos» (os provindos das Beira Alta e de outras origens e outros destinos, os nomes eram diferentes (Gaibéus, e Avieiros no Ribatejo, etc) que, em grupo/rancho e com o um capataz ou Manajeiro, executavam diversas tarefas agrícolas com as mãos, enxadas, foices, etc, nos latifúndios alentejanos, colmatando a crónica falta de mão-de-obra daquela província do sul de Portugal. Vários autores (Alves Redol, Saramago, etc.) produziram obras literárias sobre esta gente pobre que era mal-amada pelos povos, igualmente pobres, dos lugares onde aportavam. Nós, os Ratinhos, sujeitávamos-mos a uma vida dura e cruel. Eramos gente simples e dos mais pobres da Beira, que aceitávamos ir para lá trabalhar durante meses a fio, envolvendo-se nas tarefas agrícolas mais duras. Manhã cedo, antes do nascer do sol, seguíamos em grupo, orientados pelo capataz que tinha a responsabilidade de falar com o feitor, de manter a coesão do grupo e disciplina, como um tutor, e de a todos trazer de volta no final da campanha. Trabalhávamos arduamente e vivíamos em condições miseráveis, dormindo em tarimbas, sobre palha de arroz impregnada de percevejos. Arranchávamos onde calhava, comendo papas e migas de pão e azeite quente e servindo-se todos da mesma gamela, todos em redor desta e apenas com uma colher como utensílio individual que cada um guardaria. Trabalhávamos descalços e não suportando o frio de inverno, escrevi à minha mãe a pedir que me enviasse, dentro duma carta, uma nota de 20$00 (vinte escudos) e com eles desloquei-me, talvez pela única vez, à loja em Canal Caveira onde comprei umas galochas infantis. Agasalhos para o agreste frio alentejano no Inverno? Só me lembro duma “capa feita com uma saca de serapilheira” que deixava fluir os pingos de chuva.
Trabalhávamos de “sol a sol” e “enregávamos” no local onde naquele dia íamos executar as tarefas. Depois, do por do sol, “ala para o quartel”. Folgávamos apenas nas tardes de domingo. As refeições eram, invariavelmente, arroz com hortaliça (1ª refeição) e ao almoço, alternadamente, arroz com grão-de-bico e arroz com feijão frade. À noite, a ceia era uma refeição de pão alentejano em azeite a ferver, a que chamávamos de migas (sem carne ou outro conduto). Outro tipo de comida? Só se algumas ovelhas fossem atropeladas pelo comboio que atravessava a herdade. O “cozinheiro” era um rapaz do rancho e depois havia outros com tarefas complementares (o aguadeiro, que com um barril de madeira de dez litros tinha que fornecer a água para beber, com uma concha de cortiça, e cozinhar no local de trabalho – eu fui o indigitado, mas o
A certa altura, fui recebendo algumas cartas muito tristes de Lisboa e, na escala, no regresso, um primo levou-me a visitar o meu pai…Ali voltaria, cinco meses depois, para ficar até hoje. O ordenado líquido era de 200$00/mês (duzentos escudos) a pagar no final do contrato, para evitar deserções? O Manajeiro entregou o dinheiro à minha mãe, quando na manhã do dia de S. João, aportámos a Viseu, a cidade de partida em meados de outubro de 1961, fazendo agora a viagem em sentido inverso que durou mais de trinta horas, pois eram usados os comboios chamados de “comboio-correio”, noturnos e com paragens em todas as estações. Não mais fui como “ratinho” para o Alentejo, – a emigração para a Europa e consequente falta de “ratinhos, avieiros e gaibéus” e trabalhadores locais, levou os agrários a investirem na mecanização dos trabalhos agrícolas – mas fiz depois mais viagens de luta contra o destino: filho de pobre está condenado a ser pobre e/ou a lutar arduamente contrariando esse destino fatal. Eu lutei e consegui. Super-herói? Não, pelo que incentivei sempre os meus “companheiros” deserdados da sorte, a lutarem como eu. A Primeira Viagem da Minha vida, afinal, foram duas e de sentido oposto, mas ambas com o mesmo destino: o futuro duma criança.
Serafim Marques
Economista (Reformado)
