Eu joguei muito à bola mesmo desde antes de saber que havia o futebol. Sim, em criança comecei a dar chutos em bolas de todos os tipos menos “bolas de futebol”. Até porque dessas havia muito poucas e ainda menos as havia disponíveis para garotos (e até para adultos).
A partir dos 3 anitos, já se corria sem parar atrás daquele objecto pró-redondo e “chutável”, fosse ele de plástico, quiçá borracha, fosse a bola de pano (fiz tantas !), mesmo a bexiga de porco (cheia de ar…). Só muito mais tarde, apareceu para nós a bola de “cáutchu”, em couro com a “câmara de ar” (em borracha) dentro e que nós enchíamos e depois lhe atávamos o “pipo” (borracha), assim lhe chamávamos, dobrado em dois, atado com uma guita e pressionado para reter o ar da câmara, para o meter por dentro do couro que até dava ideia de se fazer um umbigo à bola. A seguir, tapava-se o largo orifício da entrada do couro com um pedaço também de couro. E lá ficava a bola de cáutchu pronta para nos atrair sem hipótese de lhe dizermos “não”. Mas esta fase ficava já para a adolescência e não era todos os dias que havia dessas bolas.
Em garoto, bastava juntarem-se dois na rua para haver jogo com ambos a tentarem sobrepor-se um ao outro. Duas pedras separadas por um metro de distância entre elas simulavam a baliza onde cada um tentava “meter golo”… “Agora sou eu a fintar” – dizíamos, enquanto se alternava a pretensão em ser “atacante” e em ser “defesa” . E se preciso fosse, eram horas seguidas nesse jogo “ingénuo”, puramente instintivo e de diversão. Às vezes juntava-se uma dúzia e mais de garotos – havia muita criançada nesses tempos – e formava-se duas equipas com duas “balizas”, uma para cada equipa. Quase sempre, se formava as equipas a partir de dois pequenos “artistas” dos que tinham mais jeito e que se acordava serem “adversários”. Escolhia-se, ao ritmo de “agora escolho eu…agora escolhes tu…”, cada uma dessas equipas de entre os presentes procurando mesmo equilibrá-las à partida. Muitos dos pequenotes antecipavam-se e logo diziam “eu quero ser do João” ou “eu quero ser do Pedro” consoante as preferências individuais. E pronto, “bola ao centro” no meio da rua ou do pequeno prado, e lá andávamos todo o tempo possível aos chutos à bola, aos gritos, entusiasmados, felizes, sem fadigas. Não tirávamos os olhos da bola. Ela ganhava vida própria, apesar de chutada por nós embora de forma quase aleatória.. E como pinchava e nos fugia ela ! Mais do que determinarmos a direção da bola era ela que determinava a nossa direcção nas corridas. E onde andava a bola, andávamos (quase) todos nós. Não raras vezes, o dono da bola aborrecia-se quando não a chutava durante algum tempo e reclamava-a aos berros::- “a bola é minha ! Levo-a já daqui para fora se não ma passam !”…
Algumas vezes, as mães ou os pais deste ou daquele, apareciam a chamá-lo sem margem para recusas. Quase sempre a maioria jogava descalça, isto até aos 13 ou 14 anos de idade e também dependendo das posses e hábitos das famílias. Aliás, tantas e tantas vezes nos descalçávamos para iniciar o jogo descalços portanto para evitar estragar o calçado que houvesse no momento.
Podem crer que muitos e muitos dos melhores jogadores dessa época e ainda hoje venerados, assim se iniciaram no jogo da bola, descalços, em terra batida, nos arredores das cidades e vilas, nas aldeias, nas praias. Falamos de Eusébio, Garrincha, Pelé, Maradona, de entre tantos outros. Mesmo Cristiano Ronaldo se iniciou no “pé na bola” nas ruas do Funchal, na Madeira.
É necessário voltar à “técnica” de rua com o jogo da bola hoje chamado de futebol !
Invoco para consideração escritos notáveis sobre este aspecto. De Jorge Valdano, grande futebolista argentino que foi campeão do Mundo pela Argentina, em 1986, em que fez parte da equipa de Maradona. De Lobo Antunes um benfiquista irredutível, médico de profissão e escritor de vocação. Cada um à sua maneira, escrevem magistralmente. Tenho dito com frequência que qualquer um deles já merece o Nobel da Literatura. Pois ambos, embora sob enfoques distintos, coincidem numa crítica também ela distinta mas muito detectável, ao esquema das estratégias e das tácticas mais actuais – naturalmente assentes em treino físico e operativo, e treino mental, intensivos, em ginásios, em gabinetes e em campos da bola. A “especialização” é tal que, nos “bancos” das equipas da chamada “alta competição”, se vê mais gente da “equipa técnica” multifunções, do que se vê jogadores “suplentes”. E mesmo equipas de média competição também elas seguem tais exemplos.
Sim, são muito exigentes e selectivos os meandros físico-técnicos e conceptuais, que dominam o futebol “moderno” enquanto “indústria”. Como consequência directa dos excessos “competitivos”, das (brutais) cargas de treino específico desde tenra idade, muitos e muitos futebolistas, ainda jovens, sofrem lesões graves sucessivas como, entre nós, tem sido (mau) exemplo o plantel do Sporting.
Ao mesmo tempo, influenciam a obtenção das performances individuais e colectivas, o tipo dos estímulos que incidem sobre os jogadores, as emoções que os fãs mais ou menos fanatizados “injectam” nas equipas principalmente durante o jogo, a pressão constante da grande comunicação social onde pululam os comentadores “avençados”, as expectativas dos grandes Clubes e das respectivas SAD, – o lucro financeiro – tudo condiciona brutalmente os homens e agora também já as mulheres que atingem a profissionalização no futebol desde muito jovens e durante um período de cerca de 20 anos em média para a generalidade deles e delas.
Nesta “panela de alta pressão” futeboleira, “sofrem” todos e destacam-se os super-atletas e uma mão cheia de “artistas”. Alguns tiram grande proveito, a maioria extrai frustrações.
Merece um outro artigo específico, o aspecto que motiva este escrito. A tese de que é necessário recuperar o “ambiente” do jogo da bola na rua (ou na praia), para assim criar condições à recuperação do “jogo instintivo”, dos reflexos apurados, do driblar – fintar – com prazer e eficácia a sair da “cabina telefónica” por qualquer um dos seus lados. E para os mais jovens, é deixá-los brincar, divertir-se a correrem aos chutos na bola. Improvisem, meninos e meninas, improvisem…e divirtam-se enquanto o fazem ! Para que deixe de haver futebolistas que “nunca foram crianças a jogar”, no caso, o jogo da bola ! Mas também é verdade que, agora, já não se veem crianças a jogar a bola nas ruas… Ora bolas !
Porém, atenção, hoje esta opção, não invalida uma outra, mais actual, a de “construir” o jogador de futebol que se movimenta para trás, para a frente, para os lados e para cima com uma impressionante capacidade físico-técnica-táctica. Esta componente, rumo à especialização, treina-se e treina-se, de cabeça levantada para dominar o espaço e o tempo de jogo, controlando o próprio ritmo cardíaco (a emoção). Na verdade, isto não se adquire no típico jogo de rua. Mas juntando e harmonizando uma componente com a outra – improviso/alegria – jogadas treinadas – estaremos a preparar jogadores da bola – futebolistas, uma “espécie” cada vez mais rara. Lembremo-nos desse “jongleur” (malabarista) espectacular que foi Ronaldinho Gaúcho – e ele divertia-se a jogar e marcava muitos e bonitos golos – mas também desse futebolista “construído” em muito treino – especializado em apenas meia dúzia de movimentos/jogadas – que foi Robben, este tremendamente eficaz, embora repetisse e repetisse o mesmo tipo de jogada, arrancando do lado direito (sendo canhoto) para dentro e chuto para golo. Tão diferentes e tão bons futebolistas eram Eles !! Sim, que futebol não é circo…Mas também não é atletismo. Todavia, um “artista” é sempre diferente. É ser artista !. .Bravo Messi !. Pelo seu lado Pelé foi o futebol-jogo de antes (à base da “ginga” brasileira e também de muito treino)…e foi o futebol de agora…e o de amanhã… Maradona foi o “drama cénico” (emoção sem lamechices) em campo, “drama” que ele inventava para a equipa, para os adversários e para o público, desde logo para quem o via nas televisões. Entretanto, Eusébio é da minha devoção ! Hoje, dá-me um certo gozo privativo, ver jogar “Pote” e Vitinha, por exemplo. Não têm perfil físico de culturistas nem de velocistas dos 100 metros em pista, e antes pelo contrário. Mas “Pote” pensa mais rápido do que a velocidade do jogo e Vitinha vê melhor com um olho fechado do que a maioria com os dois olhos abertos… Finíssimos !
E digo tudo isto sem esquecer que há outros fãs do jogo da bola – futebol que têm outras preferências. É o futebol ! É a vida !
Março de 2026
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