Correio da Beira Serra

É preciso manter este chão sagrado… antes que seja tarde! Autor: José Carlos Gonçalves Marques

O Largo é o coração, o centro nevrálgico das aldeias e vilas.

Local de encontro, local de troca e partilha, umas vezes de bens de consumo que alimentam o corpo, outras vezes de troca de saberes e tradições que nos alimentam a alma.

O nosso Largo é a Feira!

O Largo da Feira ou Largo Dr. Agostinho Antunes (médico carismático “amigo dos pobres” que por cá trabalhou, criou família e marcou com as suas qualidades pessoais e profissionais todos aqueles que tiveram o privilégio de o ter como amigo ou médico), em Lagares da Beira, é ainda um espaço com características especiais.

Falar do nosso Largo da Feira é falar da feira mensal que neste local se realizava. É lembrar a venda e compra de animais de capoeira ou de curral vendidos na feira dos porcos, é recordar as inúmeras peixeiras – as Graúdas, a Maximiana, a Alzira do Onofre, as Russas ou a Conceição Viola, que junto à casa das meninas da feira, vendiam o pescado que durante a madrugada o Armandinho trazia da Figueira da Foz. Mas, porque era nas feiras que tudo se vendia e comprava, também na nossa feira se podia adquirir sapatos no senhor João Paulino ou nos Silvas, que se faziam deslocar na sua carrinha Citroen cinzenta. Era na Mimi, na Dulce Tanoeira, no Levim ou na senhora Máxima de S. Paio, que todos aqueles que se deslocavam das quintas e aldeias vizinhas, podiam comprar todo o tipo de peças de vestuário.

E com que encanto, saliva na boca e um perfume doce nas narinas, nós, as crianças, olhávamos para os baús, cheios de preciosidades que, a senhora Agostinha e o senhor Raúl dos bolos, o senhor Mário Roque e a senhora Lucília, o senhor Aires e a senhora Maria Augusta, expunham os bolos típicos cá da aldeia?

Era sobre este palco térreo cheio de história que, todos os dias, as crianças da escola enchiam com gritaria e jogos o Largo. O Largo foi o primeiro campo de futebol de todos aqueles que manifestavam ter algum jeito para a bola, foi a terra onde os pregos se enterravam, a tela onde eram desenhadas as ralhas da bilharda ou as quadrículas do jogo do cura e as pistas do jogo das caricas (que os miúdos procuravam pelas muitas lojas, existentes à época, na nossa aldeia).

O Largo foi a esponja de muitas lágrimas e a terra pisada por muitos pés ao longo de gerações!

É sobre esta terra do Largo que ao longo dos tempos, o nascimento de Cristo se anuncia com a queima do cepo de Natal, que aquece este chão sagrado e a alma dos homens. É sobre esta terra pisada que um dos ranchos folclóricos da nossa terra, dramatiza a apanha da uva e nos faz recuar no tempo. É sobre esta terra, com história, que os homens adultos, aos domingos e feriados, jogam as suas partidas de malha ou fito…

Porquê empedrar o Largo da Feira?

Para que vamos cobrir, empedrar esta terra sagrada cheia de memória e não assumimos que o nosso Largo da Feira é ainda um dos espaços que mantém alguma identidade que é fundamental preservar?

Devemos e podemos cuidar do Largo Dr. Agostinho Antunes! Podemos cuidar, podando as árvores centenárias que ainda existem, plantando, com algum critério, novas árvores, criando um sistema de rega automática que funcione durante a noite de modo a poupar a água que vai escasseando, mantendo o chão térreo limpo…. Podemos! Até podemos e devemos olhar para património arquitetónico que rodeia o Largo, sensibilizar os seus proprietários para as caraterísticas ímpares das fachadas das suas casas e apoiar, se for necessário, a sua recuperação.

Empedrar e tapar a terra do Largo Dr. Agostinho Antunes é esconder a memória de um povo e é contribuir para que a temperatura, durante o Verão, aumente nesta zona da Vila.

É preciso manter este chão sagrado… antes que seja tarde!

 

 

 

José Carlos Gonçalves Marques, morador no Largo Dr. Agostinho Antunes

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