Correio da Beira Serra

“Em vez de uma feira por concelho, devemos realizar um evento anual de grande dimensão que empodere o território e os produtores”

Tal como a cidade de Seia aproveita o aumento de visitantes à Serra da Estrela durante o período de Carnaval para realizar a sua festa do queijo Serra da Estrela, a cidade de Gouveia tira partido da maior afluência de pessoas ao território pela da Páscoa para realizar o seu “Mercado” que encerra o ciclo de eventos dedicados àquele produto distintivo da região.Aproveitamos a visita das pessoas ao território pela Páscoa para lhes oferecer mais um acontecimento no período de tempo que cá estão”, conta o presidente da Câmara Municipal de Seia em entrevista ao CBS. Luís Tadeu defende que o preço do queijo Serra da Estrela tem de aumentar para se aproximar do seu real valor e compensar o esforço de pastores e queijeiras. O autarca considera ainda que os apoios estatais e europeus devem continuar para ajudar a recuperar este sector da economia e defende que é altura de “introduzir uma nova forma de promoção e de ‘marketing’ da fileira do queijo. “Penso que em vez de uma feira por concelho, devíamos realizar um grande evento anual, com dimensão, rotativo pelos concelhos da zona demarcada, que empodere o território e os produtores”, assinala Luís Tadeu que sobre a construção dos Itinerários Complementares  (IC’s) diz apenas que já é um assunto “mais que requentado” que devia levar quem tem poder “a ter consciência de que já é mais que tempo de se fazer alguma coisa”.

 CBS – O que o levou a colocar o Mercado do Queijo Serra da Estrela de Gouveia (7 e 8 de Abril) a encerrar este ciclo de eventos da região?

Luís Tadeu – Consideramos, por vários aspectos, que esta é a altura certa, véspera da Páscoa (dia 9), para a realizar. Por vários aspectos. Um deles é o facto de não colidir com outra feira, o que às vezes acontecia e não pode acontecer. Não faz sentido andarmos a sobrepor-nos uns aos outros. Perdemos todos. Esta nossa foi uma data premeditada para a realização do nosso Mercado. Assim, aproveitamos a visita das pessoas ao território pela Páscoa para lhes oferecer mais um evento no período de tempo que cá estão e também a possibilidade de adquirirem produtos genuínos da Serra da Estrela.

Como está a produção do queijo Serra da Estrela em Gouveia depois da seca e dos incêndios de Agosto do ano passado?

Foram momentos sofridos, muito complicados, dos quais ainda estamos a recuperar. Podemos dizer que as coisas estão a regressar gradualmente à normalidade. Tivemos problemas com alguns criadores em termos de alimentação e de material para fazer cama para as ovelhas. A Câmara esteve sempre ao lado dos pastores e produtores, ajudando da forma que nos era possível cada um conforme o número de cabeças de gado que possuía. Choveu, as coisas melhoraram. Mas não estamos livres da seca se repetir. Penso que choveu pouco. Em breve estamos no Verão e se não existir pluviosidade em quantidade podemos ter um Verão complicado.

“…temos de introduzir uma nova forma de promoção e ‘marketing’ da fileira do queijo”

A autarquia está a antecipar esse cenário?

Está, dentro daquilo que é possível, o que não é muito. Mas nunca deixaremos os pastores desprotegidos.

E os pastores continuam a diminuir no concelho de Gouveia?

Não há propriamente uma diminuição. Temos é de pugnar para que continuem a existir para estas actividades ajudas do Estado e dos fundos europeus. Espero é que o novo quadro comunitário 2030, à semelhança do que aconteceu no 2020, com o programa de valorização dos queijos da região Centro, mantenha prolongamento deste plano. É preciso continuidade. Este é um processo que demora tempo. O que foi feito na formação de pastores e queijeiras tem de continuar a existir. E espero mesmo que o 2030 tenha uma área de apoios de intervenção mais alargada, até porque temos de introduzir uma nova forma de promoção e “marketing” da fileira do queijo. É preciso pensar bem esse aspecto.

Há jovens a entrar na actividade?

Há. Nós temos dois ou três jovens que não só apostaram na constituição de um rebanho como investiram nas suas queijeiras. São jovens que fizeram a escola de queijeiros e que até vieram de fora do concelho. A autarquia apoio em tudo o que é necessário, porque este é um sector da nossa economia que não podemos perder. É uma actividade fundamental em vários aspectos, incluindo na prevenção do flagelo dos incêndios. É provavelmente uma das mais eficazes.

“A qualidade tem o seu preço e o queijo, especialmente DOP, tem de aumentar…”

Falou em novas formas de promoção do Queijo Serra da Estrela e dos produtos que lhe estão associados…  Este modelo de feiras por cada um dos concelhos da zona demarcada está ultrapassado?

Este modelo tem sempre em aberto a sua actualização e introdução de melhorias. Mas temos de começar a falar uns com os outros. Aqueles que fazem parte destes territórios. Se calhar, por diversas razões, não faz sentido cada um andar a fazer a sua feira. Penso que seria mais vantajoso realizar um grande evento, marcante e agregador de todos estes concelhos, realizado anualmente, de forma rotativa, pelos municípios. Uma feira com dimensão e que venha empoderar o território e os produtores. Ganha-se escala, sinergias e dá outra visibilidade aos nossos produtos e à região.

É um defensor do aumento do quilo do queijo. Como é que isso pode ser feito?

O produto queijo tem de ser remunerado de acordo com o seu valor. Na fileira do queijo, seja o pastor ou quem faz o queijo tem de ter o retorno do seu trabalho. Merecem mais que aquilo que rebem hoje. Bem mais. Estamos a falar de uma actividade que exige um forte desgaste e uma entrega total das pessoas. A qualidade tem o seu preço e o queijo tem de aumentar, especialmente o de denominação de origem protegida (DOP). É necessário que todos pratiquem o mesmo preço. Tem de existir aqui uma forte união entre estes protagonistas. Não podem praticar-se preços diferentes. Estamos a falar de um produto único e que não existe em excesso. O seu preço com as medidas certas subirá para importâncias de acordo com o seu valor.

Uma das lutas dos empresários desta região têm sido os IC’s que estão prometidos e nunca saem do papel…

Os empresários, a população, autarquias… Essa é uma luta que continua a ser de todos. A própria CIM apresentou, em devido tempo, claramente a sua preocupação relativamente aos IC’s [IC6, IC7 e IC37). Nós, autarcas, não temos competências nem dinheiro para executar essas obras. Quem tem poder e meios é que devia saber que já é mais que tempo de fazer alguma coisa. É intolerável a forma como este processo tem sido esquecido. A região merece outra atenção para poder ter outra atractividade de investimento e para salvaguardar os empresários que se encontram por cá.

É urgente realizar essas obras?

Urgente? Já não podemos dizer que é urgente. Este é um assunto mais que requentado. E quem pode sabe disso. É algo muito importante para o desenvolvimento da região, para atrair população e investimento. Repito, quem tem poder e meios é que devia ter consciência que já é mais que tempo de fazer alguma coisa. São demasiados anos. Demasiadas promessas. E pouca obra.

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