Nuno Tavares Pereira defende que a forma de combater a seca e o calor passa pela “reflorestação com plantas autóctones que baixem a temperatura e ajudem à pluviosidade”. O empresário defende também o investimento em recursos hídricos e que o Governo cumpra a aposta no regadio, cujos fundos europeus desviou para o Alqueva.
Os agricultores estão a atravessar uma fase verdadeiramente “tenebrosa”. A onda de calor poderá afastar cerca de 70 por cento da produção de fruta do mercado de frescos. Nuno Tavares Pereira, 42 anos, um produtor beirão de frutos, não se recorda de temperaturas tão elevadas e prolongadas. As suas plantações também foram afectadas, apesar de todos os cuidados e das reservas de água que detém depois de ter investido nos últimos anos cerca de meio milhão de euros em recursos hídricos. Mas este produtor acredita que há agricultores em pior situação. Atribui também culpas a um Estado que continua sem aparecer no terreno e que ao longo dos tempos desviou para o Alqueva os fundos previstos para o regadio da Beira Alta. Considera que com o que se tem vindo a passar, o Governo já devia ter tomado medidas para orientar os produtores e tomar medidas como obrigar as seguradoras a proteger contra o escaldão. Defendendo “que a água também se planta”, este produtor considera que para combater estes fenómenos é necessário um plano estrutural de reflorestação com árvores autóctones. “Uma coisa é certa, não é com acácias e eucaliptos que vamos lá”, diz em entrevista ao CBS.
CBS – Que impacto tem esta onda de calor na produção de frutos?
Nuno Tavares Pereira – As ondas de calor são normais. O problema está na época e no número de dias com temperaturas elevadas. Neste caso, temos a tempestade perfeita. Há um longo período de calor intenso, uma seca severa e na pior época possível, já que cai na fase da engorda, vamos chamar-lhe assim, das maçãs, pêras e outros frutos. É a fase em que estão a crescer e a ganhar cor. Toda aquela fruta que está exposta vai sofrer um escaldão. Por isso, não recomendo que se faça a tradicional monda, em que se aproveita o pequeno calibre do fruto para se tiraram alguns, juntamente com as folhas. O melhor é não lhe tocar, porque a folha e a fruta protegem-se umas às outras, evitando alguma exposição solar.
Tem memória de uma situação destas?
Com tantos dias consecutivos com estas temperaturas? Não.
É uma situação invulgar?
Quais os frutos mais afectados com esta altas temperaturas?
Todos os que já estão formados. Falamos das maçãs, pêras, bem como tudo o que seja ligado aos pequenos frutos: mirtilos, framboesas, groselhas ou amoras. Os pêssegos, nectarinas e os figos também vão sofrer, tal como a azeitona. Além disso, a fruta danificada vai atrair pássaros e abelhas que acabam com tudo. Isto é dramático.
O que é que aconselha para mitigar estes problemas?
Como já disse que não se faça a tradicional monda. Há a possibilidade de aplicar um óleo de Verão que
“Acredito que cerca de 70 por cento da produção está perdida para o mercado de frescos…”
Mas outro dos problemas é precisamente a seca, a falta de água…
No meu caso não. Nos últimos quatro anos, investimos cerca de meio milhão de euros em recursos hídricos, como charcas e poços. Essa água até tem ajudado os bombeiros. Aqui o problema está também no Estado que nunca apostou no regadio na nossa região. Somos sempre deixados para trás. Noventa
A sua plantação é em larga escala. Neste momento qual é a estimativa de perdas?
Dos mirtilos que ainda não tinha colhido, cerca de 80 por cento já estão completamente queimados. Mesmo os de Agosto estão afectados. Na framboesa há uma perda aí 20 a 30 por cento. Mas aqui o maior problema nem é o calor, até se estão a aguentar, mas sim os pássaros que vêm para dentro dos túneis para se proteger do calor e acabam por comer a fruta. O problema é que ainda nem a meio do Verão estamos. Tudo isto vai ser penoso. Não sei se as quebras não vão ser maiores, até porque há plantas a morrer.
Qual poderá ser o impacto na produção da maça e pêra?
Mas essa fruta não tem qualidade?
Tem. O aspecto é que não é o ideal para se apresentar toda bonita nos supermercados. O Governo é que podia assegurar que esta fruta, com mau aspecto, mas de qualidade seria escoada através das cantinas do Estado ou por outros meios. Entre comer fruta nossa, embora “feia”, a comer aquela que vem de África, com tudo o que isso implica em termos de conservação e transporte, contribuindo para a peugada de CO2, e provavelmente de pior qualidade, é preferível comer a nossa. Mas a inércia continua a marcar quem está no Poder. Nós estamos a falar de fruta, mas temos também animais em risco. E o pessoal do ministério da Agricultura continua de mãos nos bolsos, quando já deviam estar junto dos agricultores a dar-lhes concelhos para mitigarem o problema. Mas não fazem nada.
“A água também se planta. Mas podem estar certos que não é com acácias e eucaliptos que vamos lá. Não é dessa forma que baixamos a temperatura e teremos mais água. Precisamos de reflorestar com árvores autóctones…”
Este tipo de fenómenos parece ter vindo para ficar…
Como é que isso poderia ser feito?
Seria preciso um plano a 20 ou 30 anos. Com uma floresta ordenada, com árvores autóctones como o sobreiro, azinheira, castanheiro, amieiro, etc. Árvores que fariam baixar a temperatura no solo e aumentar a chuva. Mas nada disso é pensado. Pelo contrário, até junto aos rios têm cortado árvores. De uma coisa podem estar certos, não é com acácias e eucaliptos que vamos lá. Não é dessa forma que baixamos a temperatura e que teremos mais água.
Mas há muitos movimentos ecologistas…
Pois há. E que se limitam a falar em energia verde sem pensar muitas vezes nas consequências que esse tipo de tecnologia tem para o meio ambiente. Falo por exemplo nos carros eléctricos, com as suas baterias, painéis solares, etc…. Quanto é que a produção destes produtos nos custa em termos de ambiente? Não sei, mas estou em crer que nos fica cara. Continuo a dizer que a temperatura amena e a água também se planta e nós precisamos de reflorestar ordenadamente e com as árvores autóctones o nosso país.
