Fornotelheiro, concelho de Celorico da Beira, possui uma das maiores e mais antigas necrópoles das beiras e impressiona os visitantes
O ambiente no espaço da Necrópole de São Gens não deixa ninguém indiferente. Sobre o local, na freguesia do Fornotelheiro, concelho de Celorico da Beira, onde se chega por um caminho de terra batida e sinalética envergonhada, há um silêncio e uma calma surpreendente. Sente-se uma certa grandiosidade. Só o aspecto desleixado e de quase abandono do local não condizem com a imponência do espaço. Sónia Villarino, uma brasileira com formação superior em turismo, não esconde a emoção de poder tocar as ruínas daquilo que terá sido um povoado medieval datado desde o século VI ao século XIV. Como não esconde a comoção que lhe provoca a necrópole com, pelo menos, 54 sepulcros escavados nas rochas. Um número invulgarmente elevado que coloca este cemitério como um dos maiores e mais antigos das beiras. Talvez por isso, em Setembro de 2015, a Direcção-Geral do Património anunciou a abertura do procedimento de classificação daquele espaço. Um caso que parece ter caído no esquecimento.
“É impressionante como esta paisagem e as rochas parecem libertar uma energia própria da grandeza deste espaço. É o local onde estão sepultados os nossos ancestrais. São centenas de anos de história”, refere, sem disfarçar o espanto quando se depara com o imponente Penedo do Sino, talhado pelos agentes de meteorização e muito conhecido por se encontrar num estranho e sublime equilíbrio. O impacto visual é forte. Parece dominar toda a área que foi ocupada por comunidades que viviam em comunhão com o rio Mondego, utilizando os vales adjacentes para a exploração agrícola e vinícola, como demonstra um lagar escavado na rocha. “Extraordinário” resume Sónia sobre o bloco pedunculado granítico.
“Mas a Prefeitura [Câmara Municipal] e as estruturas de turismo deviam olhar para este espaço de outra forma. É inadmissível. Este espaço, no fundo, é um cemitério dos nossos ancestrais. Não pode estar neste estado”, lamenta. “Este é um local que nos permite reflectir e imaginar como viviam os nossos antepassados. Do ponto de vista turístico tem um potencial enorme que está simplesmente a ser desperdiçado”, conta Sónia, apontando para as duas singelas placas que contam alegadamente tudo o que se sabe sobre o local. “É muito pouca sinalética para uma necrópole e outras estruturas do povoado que aqui existiu. Os sepulcros deviam estar identificados, segundo a sua tipologia, e protegidos. Até por respeito às pessoas que ali foram sepultadas O lagar devia estar também sinalizado. Enfim, tudo devia estar categorizado”, resume.
São Gens, segundo os estudos do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa
“São Gens é um dos sítios emblemáticos da arqueologia medieval da região centro de Portugal. O mesmo congrega um povoado e a maior necrópole desordenada de sepulturas escavadas na rocha conhecida nesta região, que agregaria mais de 54 sepulturas. O povoado, de planta ovalada, tinha apenas uma entrada e era rodeado por uma cerca em pedra e madeira. Quatro campanhas de escavações foram levadas a cabo no povoado entre 2008 e 2013. Os trabalhos ofereceram uma colecção de espólio arqueológico muito significativo e que engloba cerâmicas, objectos em osso, peças em metal e peças líticas utilizadas quer na moagem, quer como afiadores. Estes materiais atestam as diversas actividades económicas que ocupavam os habitantes do povoado. As escavações permitiram ainda identificar locais de habitação e recuperar macrorrestos carbonizados de árvores, arbustos e sementes, bem como restos de fauna. Os dados obtidos evidenciam uma comunidade de pequena dimensão constituída por quatro a seis famílias, que se fizeram enterrar na necrópole rupestre anexa. O sítio foi abandonado na segunda metade do século X, após ser sujeito a um incêndio destrutivo”.
