Recebemos a informação do Instituto Nacional de Estatística de que a população residente em Portugal cresceu cerca de 10% entre 2019 e 2025.
Os dados da população são normalmente apurados através dos Censos, realizados de dez em dez anos. Os próximos estão previstos para 2031, mas, até lá, vão sendo divulgadas estatísticas que nem sempre espelham a realidade.
Basta perceber que, só este ano, cessaram actividade na Segurança Social mais de 160 mil imigrantes, o que indica que muitos já abandonaram o país, aos quais se juntam, entretanto, os portugueses que continuam a emigrar.
As nossas terras estão cada vez mais vazias. O canto dos pássaros é cada vez mais intenso e, não fosse o som dos carros que transportam trabalhadores para as limpezas florestais e outros trabalhos locais, quase não se via ninguém.
Cada vez vemos mais vizinhos a partir, os funerais sucedem-se quase diariamente e quem chega mal se dá por isso.
Estes números são um autêntico engano, porque o crescimento assenta, em muitos casos, no registo de moradas que, para grande parte dos imigrantes, já não correspondem ao local onde efectivamente vivem.
O que acontece é que, em concelhos com poucos habitantes, cria-se a sensação de aumento da população, quando, na realidade, cada vez somos menos.
Muitos imigrantes registam aqui a sua morada quando vêm trabalhar, mas, entretanto, encontram outros empregos e seguem para outras paragens. São números que o INE deveria explicar com maior cautela.
O aumento demográfico verifica-se essencialmente em concelhos com forte recurso a mão-de-obra imigrante, como Odemira, ou em concelhos ligados à hotelaria e ao turismo, normalmente situados no litoral.
Dizer que o Interior está a recuperar população é, salvo uma ou outra excepção, simplesmente falso. Casos como o da freguesia da Benfeita, onde houve um crescimento efectivo de moradores, são raros. A realidade é que continuamos cada vez mais sós.
As medidas para fixar população no Interior praticamente não existem. Já não bastava os portugueses migrarem para o litoral, agora também muitos imigrantes fazem o mesmo, deixando para trás apenas o registo da morada.
Só em 2031, com os novos Censos, saberemos exactamente quantas pessoas vivem em cada concelho e em cada freguesia. Nessa altura perceber-se-á que muitas das políticas adoptadas assentavam num diagnóstico errado.
É preciso apoiar quem vive nos territórios de baixa densidade e não continuar a concentrar tudo onde já existe população. O custo de não apoiar o Interior será muito maior. Os recursos estão cá: a floresta, a agricultura, a água e uma parte significativa da produção de electricidade. Não podemos servir apenas para justificar pedidos de financiamento a Bruxelas; também servimos para fazer crescer o país. Mas, para isso, é preciso mudar este paradigma.
O Interior está cada vez mais sozinho. E o litoral parece cada vez mais longe.
Autor: Nuno Pereira