Correio da Beira Serra

GEAT nasceu sem clientes em Celorico da Beira e hoje projecta obras para todo o país

O engenheiro civil António Tomaz recusou sair para África quando a crise da construção empurrava muitos técnicos portugueses para fora do país. Regressou a Celorico da Beira, abriu um gabinete sem clientes e dirige hoje o Gabinete de Engenharia António Tomaz, GEAT, empresa com 14 trabalhadores, projectos em vários pontos do país e a ambição de obter o estatuto de PME Líder.

Há dois pisos ocupados por computadores, secretárias e ecrãs com desenhos técnicos num edifício de Celorico da Beira. Pouco ali lembra o início. Há 15 anos, o engenheiro civil António Tomaz esperava por clientes que não apareciam e dava algumas horas de formação por semana para ajudar a pagar as despesas. “O primeiro ano passou quase em branco, sem qualquer contacto para fazer trabalhos”, conta.

A primeira encomenda surgiu ainda em 2011, uma moradia. “Foi o meu primeiro projecto”, recorda. Seguiram-se pequenos serviços, levantamentos, rectificações de áreas e contactos que passavam de uns para outros.

A decisão de ficar veio depois de uma passagem pela Mota Engil, onde António Tomaz entrou em 2008, depois da licenciatura em Engenharia Civil. Mais tarde, fez o mestrado em Engenharia de Gestão Industrial, na Universidade da Beira Interior, e em Engenharia de Reabilitação Urbana, no Instituto Politécnico da Guarda. Pelo meio veio a crise. Havia menos obra em Portugal, mais engenheiros a procurar trabalho fora e África surgiu como possibilidade. Corria o ano de 2011. Não aceitou. “Por uma decisão pessoal não quis. Escolhi ficar em Portugal, abrir o meu próprio negócio.”

O começo foi lento. A formação no ensino profissional ajudava a aguentar as despesas e, diz, o apoio da mulher foi decisivo nessa fase. Em 2013 chegou a primeira funcionária, seguida de outra no ano seguinte. A partir de 2015, o crescimento tornou-se mais visível.

O primeiro grande teste apareceu em 2018, com uma base dos CTT em Torres Novas, com cerca de cinco mil metros quadrados de implantação. O projecto tinha prazos curtos, dois a três meses, e obrigou o gabinete a reforçar a equipa. “Foi o nosso primeiro grande projecto. Criou uma dinâmica diferente”, recorda, sublinhando que naquele local trabalham agora cerca de 700 pessoas.

Em 2019, com a facturação a subir, António Tomaz constituiu uma sociedade com a mulher. A empresa passou a chamar-se GEAT, Limitada. O que mudou não foi apenas a dimensão. O gabinete começou a juntar dentro de portas valências que, no início, teria de procurar fora. Hoje tem 14 trabalhadores, projectos em vários pontos do país e a ambição de chegar ao estatuto de PME Líder ainda em 2026.

Um trabalho de arquitectura e engenharia pode exigir levantamento topográfico, estabilidade, redes de águas, electricidade, telecomunicações, térmica, acústica, segurança contra incêndios e certificação energética. Ao subcontratar, diz, os prazos ficam nas mãos de outros e o preço sobe. “Se tivermos só uma determinada área, isso obriga-nos a fazer subcontratação. E, com a subcontratação, estamos a falar de preços mais elevados. Sendo preços mais elevados, não conseguimos ser competitivos”, explica.

A empresa tem hoje capacidade para executar praticamente todas as especialidades, da topografia à acústica, do gás às telecomunicações, sem precisar de recorrer a subcontratação. O trabalho pode começar no terreno, seguir para a arquitectura, passar pelas especialidades e chegar ao licenciamento, com o projecto pronto para obra. “Quando nos ligam, sabem que nós internamente conseguimos resolver esse problema”, afirma.

Escala nacional a partir do interior

O GEAT passou a trabalhar regularmente fora da região. Faz projectos para municípios, empresas privadas, outros gabinetes de engenharia e grupos de construção. Entre os clientes públicos referidos por António Tomaz estão os municípios de Figueira de Castelo Rodrigo, Fundão, Covilhã, Santarém, Trancoso, Celorico da Beira e Guarda. Os clientes dividem-se a meio entre sector público e privado.

O crescimento nacional não afastou a empresa dos projectos no concelho. Para Celorico da Beira, o GEAT projectou as instalações da TIR2RENT e uma ampliação já licenciada, que prevê uma zona de lavagem, postos de combustível e novos serviços. Acompanhou também o projecto da MesaPrime, ligada às estruturas metálicas e pré-fabricadas, financiado pelo PRR e com previsão de criar cerca de 50 postos de trabalho. Para a Ovos Matinados, projectou pavilhões e novas ampliações.

António Tomaz diz que a forma como as empresas olham para o território está a mudar. Há empresários a perguntar por terrenos, a pedir estudos, a querer saber se determinado espaço serve para instalar uma unidade. “Nem todos os contactos chegam a obra, mas já há perguntas que antes não existiam”, explica.

Por conhecer a zona industrial, os acessos, os terrenos e as condicionantes, o GEAT acaba por fazer mais do que desenhar edifícios. Ajuda empresários a perceber localizações, custos de movimentação de terras e alternativas possíveis. “Estamos num território de baixa densidade. Se não ajudarmos quando temos oportunidade de captar esses investimentos, estamos a perder riqueza”, frisa.

António Tomaz defende que Celorico da Beira tem vantagens que nem sempre foram aproveitadas: bons acessos, localização e uma zona industrial visível para quem passa. Durante anos, faltou oferta para mostrar a quem queria investir. Hoje já há terrenos disponíveis e sinais de interesse. “Há uns anos não havia procura nenhuma. Hoje já há essa preocupação dos empresários em tentar perceber o que conseguem fazer”, afirma.

A distância para os grandes centros pesa, mas também baixou custos e obrigou a empresa a procurar trabalho fora do mercado local. “Se calhar, se estivéssemos no litoral, não tínhamos este sucesso”, admite António Tomaz.

Crescer sem perder prazos

Os projectos mais exigentes trouxeram novas ferramentas. A empresa trabalha em BIM, metodologia digital que permite compatibilizar arquitectura e especialidades, reduzindo erros e omissões. Em 2025, a aquisição de um equipamento de elevada precisão, o BLK 360 laser scanner, representou, segundo António Tomaz, um avanço na forma como são executados os levantamentos topográficos e arquitectónicos, permitindo uma leitura mais precisa do terreno e das construções. “Conseguimos detalhar ao pormenor”, diz.

Mas a tecnologia não resolve tudo. Grande parte da equipa chegou por estágio: cerca de 80 por cento dos trabalhadores entraram depois da formação académica, fizeram estágio profissional na empresa e ficaram. A dificuldade está em encontrar técnicos no próprio concelho. Apenas dois trabalhadores são de Celorico da Beira, não por falta de vontade de contratar localmente, diz António Tomaz, mas porque o mercado não oferece a formação de que o gabinete precisa.

A empresa procura agora mais um engenheiro civil e volta a sentir a mesma limitação. Os pedidos chegam, mas António Tomaz diz que evita aceitar trabalho que não possa cumprir dentro dos prazos. A confiança dos clientes também foi construída aí. Para crescer, precisa de equipa suficiente para responder sem falhar.

Mesmo assim, nunca quis sair de Celorico da Beira. Chegou a pensar abrir um pólo noutro concelho, apenas para apoiar a sede e facilitar a contratação. A base continuaria ali. “Cresci aqui, saí daqui só no tempo em que andei a estudar e estive a trabalhar, mas sempre tive vontade de regressar.”

A próxima meta é conquistar o estatuto de PME Líder, distinção atribuída pelo IAPMEI a pequenas e médias empresas com desempenho e gestão de excelência. António Tomaz quer chegar lá ainda em 2026, ano em que espera atingir os objectivos necessários para esse reconhecimento. “Estamos a trabalhar para isso”, diz, acrescentando que os primeiros meses do ano indicam que a empresa está no caminho certo.

Até 2030, quer também chegar aos 20 trabalhadores, com mais peso na digitalização e na sustentabilidade. A primeira moradia continua por ali, no concelho de Celorico da Beira. O problema já não é encontrar clientes. É encontrar gente qualificada para responder ao trabalho que continua a chegar.

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