A anomalia normalizada (anomalia a dividir pelo respectivo desvio padrão) do gelo oceânico, do Ártico + Antártico, tem apresentado desde 2016 sistematicamente valores abaixo de -2σ (3º gráfico), tendo mesmo atingido nesse ano valores próximos de -8σ. Valores entre -2σ e +2σ correspondem a um sinal de distribuição Normal em 95% do tempo. O valor de 3 a 8σ fica fora da região normal (<0.1% de probabilidade). Durante a série de dados disponíveis (desde 1979, ano em que se iniciou a observação da extensão de gelo oceânico via satélite), a anomalia normalizada apresenta 18.1% do tempo abaixo de -2σ, dos 19.7% do tempo fora do intervalo +/-2σ (esteve apenas 1.6% acima de +2σ). Facto que evidencia a tendência de défice contínuo de gelo marinho, com tendência para um novo normal (como indicam as curvas PDF do 2º gráfico) que certamente não ficará por aqui.
Se até 2016 era apenas o Ártico que contribuía para o défice de gelo oceânico, desde 2016, graças ao El Niño de elevada intensidade, o oceânico Antártico mostrou que este gigante também é sensível ao aquecimento global e pode vir a sentir um forte “abanão” nas próximas décadas. Com temperaturas médias anuais mais baixas e um aquecimento global menos acentuado, a grande dimensão de gelo na Antártida e respectivo oceano apresentam uma muito maior inércia que o Ártico. O problema é mesmo quando o gigante “acordar”.
A fusão do gelo marinho não contribui para a subida do Nível Médio do Mar (NMM), mas desempenha um papel importante, quer na climatização do planeta, quer na sustentação da dinâmica dos glaciares continentais da Gronelândia e da Antártida. A perda deste gelo, para além de acentuar o aquecimento dos oceanos (e consequentemente do planeta), vai causar uma maior dinâmica na base dos glaciares daqueles sistemas, aumentando consideravelmente (primeiro de forma linear de depois exponencialmente) a sua velocidade de escoamento. E aí sim, este gelo é o que irá depois contribuir fortemente para a subida do NMM.