André Coelho, o engenheiro de Nelas, foi decisivo na conquista do Europeu de Futsal
Portugal conquistou o segundo Campeonato da Europa consecutivo de futsal ao vencer a Rússia por (4- 2). A selecção contou na final com dois golos de André Coelho, um jogador natural de Nelas, que realizou toda a sua formação no ABC Nelas. Com 28 anos, o atleta beirão, depois de representar durante 11 temporadas o clube da sua terra natal, rumou ao Braga (2013), depois ao Benfica (2017/18) e finalmente ao Barcelona (2020/21). Estreou-se pela selecção nacional em 2013 e conquistou dois europeus e um título mundial. “É indescritível o que estou a viver”, conta o jogador em entrevista ao CBS, revelando que apostou no futsal e no ensino superior, tendo conseguido o mestrado em engenharia civil. “É o conceito carreira dual: estudar e praticar desporto. Não é fácil, mas é possível conciliar ambos os mundos”, refere, salientando que Nelas e o interior continuam a ter muitos jovens com talento. “Se lá vão chegar? Não sei. Para vingar no desporto não basta o talento”.
CBS- É um homem desportivamente realizado?
André Coelho – É um sonho que estou a viver. É muito complicado de descrever, de explicar.
A realidade superou as suas melhores expectativas?
É indescritível. O desejo de qualquer jogador em Portugal é chegar ao Sporting, Benfica e vestir a camisola da selecção. Mas atingir estes títulos deixa qualquer um sem palavras. Sim, pode-se dizer que a realidade superou as minhas melhores expectativas. Ganhar dois campeonatos da Europa e um Mundial é a excelência pura para qualquer atleta. Isto é muito difícil. Não há forma de descrever o meu estado de espírito. Forma de traduzir o significado da conquista destes troféus. É fantástico levar o nome de Portugal a este patamar.
Acredita que este título, como jogador aqui da região, pode ser importante para atrair mais jovens para a modalidade?
Há sempre aqueles que estão mais virados para o futebol e ao verem a conquista destes títulos, e com jogadores da região deles, resolvem experimentar e ficar a praticar futsal. É também uma fonte de motivação para aqueles que não estão a praticar qualquer desporto. Acho que transmitimos um bom exemplo: de que é possível com trabalho e dedicação chegar aos grandes palcos. Ou pelo menos praticar um desporto saudável.
No interior do País, os atletas têm as melhores condições para praticar futsal?
Antes de mais, deixe-me dizer que este crescimento e êxitos que temos tido no futsal conta cada vez mais com atletas do interior. No restante, só posso falar por mim. Estive até aos 19 anos no ABC Nelas e foi lá que fiz toda a minha formação. Estamos a falar de um clube de excelência, com uma componente de formação fortíssima, com participação em campeonatos nacionais, finais, etc… O melhor que se pode encontrar.
Não há uma menor competitividade no interior?
Nos grandes centros urbanos há mais oportunidades. É uma realidade. Mas já foi pior. Inicialmente havia o problema de não existirem campeonatos nacionais e estávamos limitados ao distrito de Viseu. Depois surgiram competições com maior amplitude, permitindo jogos com equipas de Lisboa, Aveiro ou do Porto. Aumentou a competitividade. Neste momento, estão reunidas as condições para os atletas dos territórios de menor densidade poderem competir praticamente em condições de igualdade. Tem existido um esforço por parte da Federação Portuguesa de Futebol nesse sentido, como a criação das selecções de sub-15 e sub-17. Tem sido feito um trabalho extraordinário.
Qual o clube que mais o marcou?
O ABC de Nelas. Foi onde estive desde que nasci até aos 19 anos. Mas tive experiências fantásticas nos quatro clubes que já representei. O Braga deu-me oportunidade de jogar na I Divisão e de chegar à selecção nacional. O Benfica permitiu-me dar o salto competitivo e abraçar o profissionalismo. O Barcelona é o topo. É uma carreira bonita que estou a construir. Sempre em crescendo.
Nunca. Nem sequer experimentei o futebol. O meu pai era treinador de futsal e esta paixão ficou de tal maneira que não experimentei mais nada. Hoje em dia tenho a sorte de trabalhar naquilo que gosto. É um privilégio.
Continua a acompanhar o futsal de Nelas e de Viseu?
Claro. Continuo a acompanhar.
Vê talento nos jogadores que agora estão a surgir?
Muito. Ainda agora no torneio interassociações verifiquei que há atletas com muita qualidade. Se lá vão chegar ou não? Isso já não sei. Como em todas as profissões não basta ter talento. É preciso muito trabalho. Mas há muito talento nos distritos de Viseu, Coimbra, Leiria e outros distritos do interior. Agora é preciso trabalho, dedicação e foco. Pautei-me sempre por esses valores que me foram transmitidos pelos meus pais. Para ser jogador profissional de futsal e atingir um patamar elevado só depende em grande parte dos próprios jovens. O ABC Nelas já tem o Afonso Milheiriço e o Eduardo Martins na selecção sub-17.
Aconselha os mais novos que apostem no futsal como actividade profissional de futuro, sem criarem uma alternativa para o final da carreira?
Não. O conceito que defendo é uma carreira dual: estudar e praticar desporto. Nem todos vão chegar a
Não é algo de muito vulgar conciliar os estudos e o desporto de alta competição. Como é que isso acontece no futsal?
É muito complicado. Temos de estudar o dia todo. Treinar à noite. É uma vida que requer muito foco, muita disciplina e determinação. Estar na escola das 9h00 às 18h00 e depois treinar das oito às 22h00. Cinco dias por semana e depois ao fim-de-semana há os jogos e, pelo meio, temos de encontrar tempo para estudar. Não é fácil, mas é possível. Nas outras modalidades de pavilhão também está a acontecer o mesmo. Em Braga, estudei com jogadores de andebol do ABC que agora estão na selecção e são licenciados. No Benfica reparei que também havia atletas do voleibol no ensino superior.
A que se deve essa adesão dos atletas de alta competição aos estudos?
Os dirigentes transmitem aos jovens que é possível e muito aconselhável apostar numa carreira dual, estudar e praticar um desporto. Essa mensagem está a passar e incute a consciência que é muito difícil amealhar dinheiro suficiente numa modalidade de pavilhão para viver o resto da vida. Sabemos que será difícil encontrar um emprego quando terminarmos a carreira, mas que tudo será mais fácil com formação superior.
