Portugal gosta de falar de qualificação. Fala de diplomas, de cursos, de competências. Fala menos de uma pergunta simples: para que estamos a formar? Temos jovens à procura de emprego e empresas à procura de engenheiros, de técnicos especializados e de outros profissionais qualificados. Temos universidades, politécnicos, cursos superiores profissionais e cursos profissionais. E, apesar disso, há empresas com trabalho para dar e sem pessoas com formação para o fazer. Não é uma contradição menor.
Fui recentemente integrado na Academia da Diplomacia do Reino de Espanha. Recebi essa distinção com honra e responsabilidade. Vejo-a também como uma oportunidade para continuar a defender o Interior, as suas empresas, os seus trabalhadores e as suas comunidades. É no contacto com esta realidade que muitas vezes percebemos aquilo que os discursos sobre o desenvolvimento e a qualificação não conseguem explicar.
Não tenho formação académica. Comecei a trabalhar ainda criança e foi no trabalho, nas dificuldades e nas responsabilidades que aprendi. É o que chamo a minha “Escola da Vida”. Não a apresento como alternativa à universidade. Portugal precisa de universidades, de ciência, de investigação e de conhecimento. Mas precisa também de olhar para o trabalho e para aquilo que acontece depois dos cursos. Formar por formar não chega. Tirar cursos por tirar, sem olhar às necessidades das empresas, também não. Um diploma é importante, mas tem de abrir uma oportunidade.
Conheço esta realidade directamente. As minhas empresas precisam de engenheiros mecânicos, de técnicos especializados e de outros profissionais qualificados. Temos trabalho, projectos e investimentos previstos, mas não encontramos as pessoas. Procurámos por isso o então Instituto Politécnico da Guarda, hoje Universidade Politécnica da Guarda, e outros. Reunimo-nos, explicámos as necessidades das nossas empresas e procurámos uma resposta de formação, nomeadamente na área da engenharia mecânica e automóvel. Houve diálogo, mas a formação não chegou a concretizar-se. Teremos de procurar noutros países os profissionais de que precisamos.
O ensino não pode viver de costas voltadas para o mundo do trabalho. As empresas devem dizer de que profissionais precisam, as instituições devem conhecer essa realidade e os jovens devem saber que oportunidades existem antes de escolherem o seu percurso académico ou profissional. Porque não voltarmos às escolas comerciais e industriais, que em tempos formaram pessoas que hoje são mestres, desde a construção, serrilharia, entre muitas outras.
No Interior, o problema é mais grave. Este território não precisa de discursos. Precisa de condições para viver, trabalhar e investir, de empresas, de trabalhadores, de formação adequada e de acessibilidades. Somos todos portugueses e devemos ter as mesmas condições, independentemente do lugar onde nascemos ou decidimos ficar. As acessibilidades a Norte da Serra da Estrela são um exemplo. Estamos longe de tudo e essa distância tem consequências.
Temos previstos investimentos superiores a 15 milhões de euros na região e no país. São projectos que criam actividade, emprego e riqueza. Mas há uma pergunta inevitável: quem vai fazer o trabalho? E outra: em que condições vamos conseguir fazê-lo? Na minha perspectiva, com excepção da agricultura, os apoios para mitigar as dificuldades de quem investe e trabalha no Interior têm sido praticamente inexistentes. Muitas vezes, o principal apoio que temos tido é o nosso próprio trabalho, esforço e dedicação.
É preciso discutir estas causas com clareza, verdade e rigor. Por isso dou importância a um encontro recente, promovido pela Câmara Municipal de Celorico da Beira, que reuniu agentes do território, entre os quais empresários e o presidente da CCDR Centro, Ribau Esteves. Pôs frente a frente quem decide e quem está no terreno, para discutir problemas e projectos concretos. É uma prática que deve continuar e ser seguida por outros autarcas. Mas terá de haver resultados positivos dessas reuniões. As conclusões destes encontros não podem ficar nas salas, mas sim chegar ao terreno.
Tudo isto, sem esquecer que a área da formação é um dos problemas mais graves que hoje temos na criação e manutenção das empresas. Não podemos ter jovens desempregados e empresas sem trabalhadores especializados como se fossem realidades independentes, nem pedir investimento ao Interior sem ter as condições ideais de mão de obra para desenvolvimento e manutenção destes projectos. A “Escola da Vida” ensinou-me que os problemas se vêem melhor no terreno. É aí que se percebe que um jovem pode ter um curso e não encontrar emprego, que uma empresa pode ter trabalho e não encontrar profissionais, e que pode haver vontade de investir sem haver condições para o fazer. E é aí que se percebe que Portugal muitas vezes esquece que o Litoral e o Interior fazem parte do mesmo país e que devem ter os mesmos direitos e deveres.
Autor: Fernando Tavares Pereira