Agostinho Augusto, 66 anos, nasceu e cresceu no Forno Telheiro, concelho de Celorico da Beira. Andou na escola primária que fica paredes meias com o Chão do Lagar e durante décadas passou por aquele lugar sem saber que ali existia uma lagariça. No domingo, 20 de Setembro, voltou à antiga escola vestido a rigor para participar, com actores da Associação Hereditas e habitantes da localidade, numa recriação histórica da produção de vinho naquele lagar escavado na rocha, numa iniciativa promovida pelo Município de Celorico da Beira e integrada nas Jornadas Europeias do Património.
“Estava soterrado e nem os mais idosos sabiam da sua existência”, conta Agostinho sem disfarçar a surpresa pela nova estrutura e pelo facto de saber que muito ainda permanece escondido na paisagem de Celorico da Beira. Além do Chão do Lagar, há outros dois já identificados na freguesia de Forno Telheiro, um na Quinta do Fiardo e outro na Quinta do Pereiro. Mas devem existir mais. No concelho estão já referenciados cerca de 30 lagares escavados na rocha, muitos deles em terrenos que deixaram de ser cultivados, normalmente vinhas, e onde as estruturas ficaram enterradas ou semi-enterradas. A iniciativa, integrada nas Jornadas Europeias do Património, juntou actores, habitantes e investigadores para recuperar uma prática que durante gerações fez parte do quotidiano das comunidades locais.
António Marques, arqueólogo do Município de Celorico da Beira e principal impulsionador do trabalho de inventariação destes lagares, explica que a descoberta das estruturas depende muitas vezes da memória de quem conhece os terrenos. “Se não forem as pessoas, os antigos proprietários que utilizavam esses terrenos, a dizerem que ali existe um lagar, é muito difícil conseguirmos dar com este tipo de estruturas”, afirma. Muitos desapareceram da paisagem à medida que os terrenos deixaram de ser cultivados.
Quando Celorico era terra de vinho
A distribuição destas estruturas acompanha uma paisagem que já foi muito diferente da actual. Nas zonas mais baixas do concelho, junto aos vales, o vinho e o azeite, sobretudo o vinho, tiveram uma importância económica e social superior à que têm hoje. “Actualmente, o queijo tem um peso muito maior, mas houve um tempo em que a vinha era uma das actividades que ajudavam a sustentar a economia local”, conta António Marques
É desse passado de forte produção vinícola que vem a antiga designação de “Celorico dos Bêbados”. A expressão, conhecida pelo menos desde o início do século XVII, não se referia tanto aos habitantes como à abundância e à qualidade do vinho produzido no território. Em 1609, o erudito e clérigo Manuel Severim de Faria escreveu que Celorico era “tão abundante de vinho” que os moradores lhe chamavam “dos bêbados”. A designação voltaria a aparecer em 1624, num documento satírico produzido numa sessão da vereação, “Sorolico dos Bebados”, que chegou ao Conselho de Portugal, em Madrid.
A mudança da paisagem terá sido acelerada pela filoxera. A praga, provocada por um insecto que atacava as raízes das videiras, devastou grande parte da viticultura europeia no século XIX. Em Celorico da Beira, António Marques aponta 1865-1866 como o período provável da chegada ao concelho. A partir daí, terá ocorrido uma reconversão da agricultura e a vinha perdeu importância, enquanto a pastorícia ganhou espaço.
O desaparecimento das vinhas ajuda também a explicar o desconhecimento que hoje existe sobre muitos destes lagares e é preciso procurar. António Marques admite mesmo que os cerca de 30 lagares já identificados podem estar longe da totalidade das estruturas existentes. A intenção é primeiro inventariar e localizar o que existe e, numa fase posterior, estudar a possibilidade de criar uma rota dedicada aos lagares escavados na rocha.
A arqueologia não é a única disciplina a olhar para este passado. Pedro Sobral, da Universidade de Trás-os-Montes, estudou também os vinhos produzidos em lagares escavados na rocha, comparando-os com vinhos obtidos por métodos modernos. O estudo encontrou diferenças na cor, na acidez, na composição fenólica e nas características sensoriais. Nos tintos analisados, o vinho produzido pelo método moderno apresentou maior equilíbrio químico e sensorial.
Uma nova vida para a antiga escola
O estudo não retira importância às estruturas antigas. Mostra, antes, que o interesse dos lagares está também no que permitem conhecer sobre técnicas de produção e sobre a relação entre vinho, território e comunidades ao longo do tempo.
O presidente da Junta de Freguesia vê também nestas estruturas uma forma de valorizar ainda mais o Forno Telheiro e quer ser um parceiro activo numa futura rota dos lagares escavados na rocha, que deverá ser promovida pelo Município. As lagariças, sublinha Bruno Almeida, vêm juntar-se, assim, a um conjunto patrimonial já rico, que inclui a forca, o pelourinho, vários testemunhos da presença romana na localidade e a estação arqueológica de São Gens, que esteja incluída nas freguesias de Celorico Beira, está bem mais próxima da localidade de Forno Telheiro. “Estas estruturas são mais um elemento para atrair pessoas à localidade”, confirma o autarca.
Esse trabalho poderá ganhar um novo ponto de apoio com a reconversão da antiga escola primária, cujo projecto prevê um Centro de Valorização do Requeijão, produto identitário da localidade, e um albergue, para oito pessoas, de apoio aos Caminhos de Santiago, cujo percurso, com início em Tavira, passa a cerca de 100 metros da escola.
