Correio da Beira Serra

Maavim vai pedir reabertura dos processos dos apoios após os incêndios de 2017

Decisão foi revelada numa reportagem do NOW, que reúne casos de vítimas sem compensação e de casas reconstruídas que o movimento contesta.

O Movimento Associativo de Apoio às Vítimas dos Incêndios de Midões (Maavim) promete avançar com o pedido de reabertura dos processos relativos aos incêndios de 15 de Outubro de 2017. A decisão foi revelada durante uma reportagem do programa “Repórter Sábado”, do NOW, que abordou alegadas irregularidades na atribuição de casas e apoios às vítimas e na contratação das obras de reconstrução. O movimento quer que sejam reapreciados os casos de quem ficou sem qualquer compensação e de quem, alegadamente, recebeu apoios sem cumprir os critérios exigidos. Pretende ao mesmo tempo que seja investigada a forma como foram tomadas as decisões e adjudicadas as obras.

A reportagem, assinada pela jornalista Ana Leal, apresenta casos de vítimas que perderam a primeira habitação e não receberam qualquer apoio e outros em que as habitações terão sido reconstruídas que, segundo o Maavim, não cumpriam os critérios definidos. Os exemplos citados naquele trabalho situam-se em Oliveira do Hospital, Tábua e Santa Comba Dão, mas o porta-voz do movimento, Nuno Pereira, garante que o universo de casos abrange outros concelhos, como Seia e Arganil.

“Depois de todos estes anos continuamos com pessoas que tinham e deixaram de ter habitações e outros que tinham anexos e acabaram por ter casa e até piscina”, afirmou. O movimento quer que sejam reapreciados os processos, investigado quem beneficiou dos apoios e quem ficou sem qualquer compensação e analisada a forma como foram tomadas as decisões.

Entre os casos apresentados pelo NOW estão os de Alexandre Cruz, que perdeu a casa em Vila Chã, no concelho de Tábua, e de António Regadas, que perdeu a habitação em Santa Comba Dão. A ambos foi recusado apoio por as casas não terem sido reconhecidas como primeira habitação. No caso de Alexandre Cruz, a ausência de facturas de água e luz foi apontada no processo, apesar de um atestado da Junta de Freguesia relativo à morada e de testemunhas ouvidas pela reportagem corroborarem a sua versão de que era ali que residia de forma permanente.

Alexandre Cruz diz ter atravessado dificuldades financeiras e explica que, na altura, não tinha condições para suportar as despesas de água e electricidade. “Se eu não tinha electricidade nem água, era porque não tinha possibilidade de as ter nessa altura. Não é mal nenhum, não é crime nenhum”, afirmou. Contou ainda que ia todos os dias carregar o telemóvel a casa do tesoureiro da Junta de Freguesia, que, segundo diz, poderia testemunhar que permanecia na localidade. Segundo a reportagem, o então presidente da Câmara Municipal de Tábua, Mário Loureiro, não reconheceu a casa como habitação permanente. E a CCDR- C recusou a sua reconstrução.

António Regadas viu também o pedido recusado por estar deslocado em serviço, em Loures. Segundo a reportagem, Ana Abrunhosa, então presidente da CCDR Centro, entendeu que primeira habitação era o “local onde se dorme, onde se tomam as refeições”. Regadas frisa ainda que foi reconhecida injustiça no seu caso e que lhe foi solicitado que assinasse uma declaração a confirmar que aquela não era a sua primeira habitação, para poder concorrer a apoios destinados às segundas habitações. “Foi na CCDR Centro”, confirmou à reportagem, rematando que ao lado foi reconstruída uma habitação que não era de primeira habitação e que a dele, que já até tinha um empréstimo com juros bonificados para primeira habitação foi rejeitada.

A casa de Valdemar

A casa de Valdemar Carvalho também foi rejeitada, e neste caso concreto a mesma terá sido demolida pela CCDR-C, deixando apenas os escombros da mesma. Ao dia de hoje, a casa continua por reconstruir, apesar de alegadamente ter sido paga parcialmente a sua reconstrução pela CCDR-C ao construtor.

Valdemar Carvalho, na altura do incêndio encontrava-se num lar após ter sofrido um acidente. Posteriormente teve alta conforme é atestado por um documento médico. Podia ir para a sua casa, mas a mesma já não existia, pois o restou do incêndio terá sido destruído em vez de ter sido reconstruída. A sua família alega que nunca foi informada da sua demolição, nem o próprio alguma vez teve conhecimento. Entretanto, Valdemar já faleceu.

Texto: Nuno Pereira

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