O Presidente da República reconheceu ontem que, “de uma forma geral”, a zona da Serra da Estrela tem “acessos difíceis”. “Temos aqui uma grande desigualdade de acessos, mas, de uma forma geral, a área da Serra da Estrela tem acessos difíceis”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, em Seia, na sessão de apresentação do Dispositivo Conjunto de Protecção e Socorro da Serra da Estrela.
O chefe de Estado disse ainda que o problema das acessibilidades deve “ser encarado globalmente”. “Como é que se acede do Norte, do Leste, do Sul, do Oeste, a esta área? Para a actividade económica, é fundamental. Para a própria actividade económica específica que é o turismo, é muito importante. É muito importante. Isto implica uma visão global. Claro que cada autarquia pode ver por si”, afirmou.
Marcelo de Rebelo de Sousa referiu que a Covilhã, por exemplo, poderá dizer que tem um problema e Seia dirá que tem “a Estrada Real, ou a Estrada da Beira”. “Outros municípios dirão coisas ainda piores, se forem mais profundos. Imagino que Manteigas dirá um pouco pior do que isto. E outros dirão um pouco melhor do que isto. A Guarda dirá melhor do que isto. Está mais bem servida de acessos. Gouveia está numa transição”, especificou. “Vale a pena pensar o conjunto, porque se não é cada um por si”, avisou.
Antes, o presidente da Câmara de Seia, Luciano Ribeiro, sublinhou que, entre os inúmeros desafios com que a região se depara, estão as dificuldades ao nível das acessibilidades e a regressão demográfica, defendendo neste contexto a criação de uma “zona económica especial”, com o propósito de tornar o território competitivo, em termos fiscais e aduaneiros, contribuindo para a reindustrialização da Europa e para a exportação de serviços digitais, que promova a fixação de pessoas (que só é possível com economia).
O autarca reiterou frisou ainda que o plano de revitalização da Serra da Estrela, anunciado pelo Governo na sequência dos grandes incêndios do Verão, deve ser verdadeiramente “transformador” para a região e ir além das medidas anunciadas, de modo a contribuir para a diversificação da economia e da recuperação dos valores naturais e humanos da serra da Estrela.
O Presidente da República também observou que o plano integrado para a prevenção e combate a incêndios florestais “é uma necessidade que começou a ser sentida” e tem agora a “oportunidade de dar um salto qualitativo”. O Dispositivo Conjunto de Protecção e Socorro da Serra da Estrela apresentado ontem em Seia está integrado no Plano Operacional da Serra da Estrela que permite a protecção e o socorro dos visitantes durante o período de 1 de Dezembro ao fim-de-semana após a Páscoa.
O Comandante Operacional Distrital da Protecção Civil de Castelo Branco, Francisco Peraboa, por seu lado, disse que o plano operacional abrange os municípios de Covilhã, Seia, Gouveia e Manteigas e integra elementos dos bombeiros, da Força Especial de Protecção Civil e da Unidade de Emergência de Protecção e Socorro da GNR.
Marcelo Rebelo de Sousa visitou os territórios atingidos pelos incêndios do Verão na região da Serra da Estrela, tendo passado durante a manhã pelos concelhos da Covilhã (Castelo Branco) e de Manteigas (Guarda). A seguir a Seia visitou os municípios de Gouveia, Celorico da Beira e Guarda.
MAAVIM não quer que presidente da República venha à região “de bolsos vazios”
O Movimento Associativo de Apoio às Vítimas do Incêndio de Midões (MAAVIM) referiu ontem que não adianta o Presidente da República continuar a visitar os territórios afectados pelos incêndios de bolsos vazios, quando é necessário investimento. “Não se combatem os Incêndios, sem combater a desertificação e a desertificação combate-se apoiando quem está no território, porque isso fica mais barato a todos os portugueses”, sublinha o porta-voz da MAAVIM, Nuno Tavares Pereira, em comunicado, defendendo menos burocracia nos acessos por parte das vítimas aos apoios. “As populações afectadas pelos incêndios deste ano quer na região de Leiria, quer na Serra da Estrela não tiveram sequer acesso ao apoio simplificado, que foi medida instituída em 2017 após a tragédia de Pedrógão”, sublinhou. “Não podemos continuar a ser territórios de segundo plano”
O MAAVIM lembra depois que ainda hoje existem vítimas dos incêndios de 2017 que continuam sem receber os apoios que lhe são devidos. “Há milhares de agricultores que nunca tiveram qualquer ajuda, centenas de famílias que ficaram sem a sua primeira habitação e dezenas de empresas que nunca mais reabriram por falta de apoio. Nos anos seguintes tivemos catástrofes em Monchique, Vila de Rei, Proença-a-Nova, Castro Marim, na região de Leiria e agora na Serra da Estrela. Os problemas continuam os mesmos, aumentando a desertificação”, pode-se ler no comunicado, no qual aquele movimento defende investimento nas regiões de baixa densidade.
“Fez-se mais, é certo, mas esse mais é o gastar milhões em estudos e agências, mas o que é preciso é gastar nas pessoas que estão no território, na agricultura do território, na floresta do território, nos bombeiros do território”, refere, antes de concluir que quem coordena o combate aos incêndios tem de ter conhecimento do terreno. “Não podemos ter centenas de bombeiros à espera de ordens de Lisboa, enquanto tudo arde”.
