Militar oliveirense imprime novo “fôlego e criatividade” à arte do ponto cruz
Correio da Beira Serra
Bruno Madeira distingue-se como bordador inovador
O oliveirense Bruno Madeira desmultiplica-se em várias actividades. Com 40 anos, Bruno é militar da marinha, bombeiro voluntário em Santarém e ainda passa quatro a cinco horas por dia por conta de um passatempo que vai ganhando cada vez mais contornos de negócio: bordador de ponto cruz, a mais antiga forma de bordado que se conhece. O “hobbie” transformou-se num negócio próspero que teima em aumentar. Uma arte, “algo peculiar” para um homem, que tem trazido a Bruno reconhecimento, com convites para vários programas matutinos de televisão.
A este apelo mediático não são estranhos os factos de se tratar de ser um homem a trabalhar uma área maioritariamente atribuída ao sexo feminino e de os seus artigos serem todos personalizados, com qualidade, produzidos com muito afinco, inovadores, com novos materiais e um design próprio. Sem limites. As obras mais clássicas e conservadoras convivem paredes meias com peças “mais arrojadas”. Grande parte delas ilustradas com mensagens e desenhos (em ponto cruz) que muitos podem considerar obscenos e impróprios. Capazes de fazer corar os mais puritanos. “Gostamos também de fazer coisas criativas fora da caixa, além daquilo que nos é encomendado pelos clientes. E mesmo eles pedem-nos peças, digamos, mais atrevidas”, explica Bruno. Como foi o caso do apresentador de televisão Jorge Gabriel que pediu uns chinelos peculiares…
“Parte do que faço é, como se costuma dizer, fora da caixa e tudo personalizado”
As mensagens trabalhadas por um artista da arte secular do bordado em fios contados na qual os pontos têm formato de “X, não deixam ninguém indiferente. A própria esposa de Bruno, Sílvia, natural de Fátima, designer de equipamentos e responsável pelo desenho das obras, não esconde um sorriso quando nos mostra um bordado onde se pode ler: “Vai para o…”, seguido de um desenho da pequena cesta que se encontrava no alto dos mastros das caravelas, de onde os vigias perscrutavam o horizonte em busca de sinais de terra. Uma mensagem “encriptada” como muitas outras que se podem ver em quadros, chinelos, roupa interior de senhora e homem. Há também babetes, fraldas, trabalho sobre madeira, uma cadeira e quadros, um deles com “o cavaleiro” símbolo da cidade oliveirense ou uma cadeira.
“Parte do que faço é, como se costuma dizer, fora da caixa e personalizado”, conta Bruno Madeira que reside em Santarém e participa pela primeira vez numa feira presencial: a Festa do queijo Serra da Estrela de Oliveira do Hospital, num dia de chuva que teima em não dar tréguas. “Vim cá porque apesar de ser de ser de Lagos da Beira, pouca gente conhece o meu trabalho”, refere, avisando que o seu mercado é quase exclusivo no domínio do on-line e por encomenda, tendo criado a marca Bis ponto cruz, com página na internet. E o passatempo começou a transformar-se num negócio com uma rentabilidade significativa. “O que ganhamos dá para pagar as férias e para nos dedicarmos a dar asas à imaginação criando peças com algum peso financeiro que podemos ou não vender”, conta-nos.
“… quando referia que era bordador de ponto cruz provocava alguns sorrisos”
Bruno Madeira, que tem dois filhos, conta-nos também as dificuldades que sentiu devido a preconceitos quando se candidatou à Carta de Artesão e à Unidade de Produção Artesanal. Explica que quando referia que era bordador de ponto cruz provocava alguns sorrisos. “Quase que me diziam na cara que aquilo era coisa de mulheres, que eu não percebia nada daquilo. Fiquei tão chateado que disse à minha mulher que ia desistir. Mas um dia lá apareceu o certificado. Fiquei muito satisfeito, porque esta é uma arte muito antiga que permite uma criatividade ilimitada. As pessoas devem abandonar os preconceitos. Afinal, estamos no século XXI e nem tudo o que é rosa é para as meninas”, sublinha.
A aventura de Bruno Madeira na arte do ponto cruz começou muito cedo. A mão era bordadeira e costureira. Transmitiu-lhe o gosto. Na escola, na disciplina de trabalhos manuais, enquanto os seus colegas preferiam a arte de trabalhar a madeira, Bruno escolheu a ala mais feminina e o trabalho de bordados. Mas este passatempo ficou pelo caminho. Enveredou pela carreira militar. Casou.
O ponto cruz tinha ficado para trás. Pouco depois, porém, surgiu o convite para o jovem casal ser padrinho de um bebé. Numa altura em que o dinheiro não abundava. Casal pensou, pensou e surgiu a ideia de oferecer uma fralda bordada com o nome da criança. “Lembrámo-nos que ambos fizemos trabalhos em ponto cruz nos tempos de escola. E lá começámos a bordar a fralda. Duas semanas depois, estava pronta. A mãe adorou. Passado uns dias, fomos contactados por um familiar a perguntar se fazíamos trabalhos por encomenda. Ficámos admirados. Aceitámos o desafio! Foi a arranque”, explicou, relatando que “palavra passa palavra e as encomendas começaram a surgir num montante significativo”. “Agora espero dar a conhecer o meu trabalho aqui na minha terra”, diz Bruno Madeira. “Afinal é em Lagos da Beira que recarregamos baterias”, conclui.
A página da empresa na internet: https://bispontocruz.pt/