Dirá a Comunicação Social e assim ficará para a História, a do obituário pelo menos, que morreu o historiador português António Borges Coelho.
Digo eu que morreu fisicamente um dos maiores entre os maiores historiadores portugueses! Mas a sua Obra fica viva a inspirar outras vidas!
Foi Borges Coelho um estudioso incansável, capaz de ver para lá dos documentos e outros materiais analisados que os via à luz da sua formidável inteligência e da sua imensa sabedoria. Obra extensa, a sua, mas também inovadora e pioneira em vários aspectos. Borges Coelho transparece inconfundível em qualquer das suas Obras pelo menos das que eu conheço.
E escrevia sobre História com jeito artístico para a escrita. E comunicava com afecto e simplicidade. Também era um comunicador!
Alexandre Herculano, outro grande mestre, apurou uma escrita sólida, trabalhada como erudito embora também ele um artista enorme, designadamente quando romanceou a História, e um Português sempre fiel aos seus ideais e à sua Pátria – foi um liberal combatente também no sentido literal do termo. Já Oliveira Martins, mesmo José Matoso, são historiadores incontornáveis, incansáveis também eles, mas não atingem a visão de natureza dialética e popular da História embora Oliveira Martins se tenha aproximado disso algumas vezes e Matoso até prezasse as Gentes comuns.
Como viu Galileu noutra matéria e noutros tempos, e por isso foi condenado, também Borges Coelho viu na construção da nossa História aquilo que os fascistas não queriam que fosse visto e, no caso de Borges Coelho, designadamente a crueza bárbara de certos acontecimentos históricos e, sobretudo, o papel do Povo e dos oprimidos na sofrida construção dessa nossa História-Pátria!
Sim, Borges Coelho cedo tomou partido. Como militante e dirigente do PCP foi alvo da feroz repressão fascista. Esteve preso e sofreu sevícias sem ceder. E comunista convicto se manteve. Homem de grande coragem cívica e física também!
Pessoalmente considero que Borges Coelho tem o tipo de escrita para se fazer perceber por quem não é “especializado”. Tem uma escrita com toque artístico em conteúdos inovadores. E, assim, desde sempre me faz lembrar o nosso primeiro grande historiador, o cronista Fernão Lopes. Também este, e 500 anos antes, foi capaz de ver e de registar com mestria a intervenção do nosso Povo na condução “intensa” da nossa História!
E não posso deixar passar um pensamento. Borges Coelho “aventurou-se” a pesquisar muito para escrever aquela sua Obra, bastante inovadora: – “Portugal na Espanha Árabe” em que faz justiça à formidável capacidade civilizacional, mesmo humanística, do chamado “domínio árabe” na Península Ibérica.
Pois com a fúria anti-civilizacional e anti-humanística que hoje grassa em vários países, de entre os quais o meu e nosso País, Borges Coelho ainda corre o risco de ser chamado de “historiador terrorista” e de a sua Obra entrar no “índex” dos novos inquisidores (que ele denunciou) e de outros fascistas (que ele combateu).
Oh! Novas Gentes! Leiam a obra de António Borges Coelho! Ficareis a sentir-Vos Mulheres e Homens melhores, mais capazes e humanizados(as)!
Autor: João Dinis, Jano
