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“Na política, o que hoje é branco, amanhã é preto”

Aos 41 anos, Ruizinho de Penacova, com a sua concertina, é uma referência nas festas populares. Dois anos depois da pandemia o ter colocado ao volante um TIR, está de regresso aos palcos. “Agora já respiramos melhor”, conta. Ruizinho confessa que o seu grande objectivo é divertir as pessoas e considera triste a desertificação do interior e a ausência de medidas para fixar pessoas nestes territórios. “Os poucos que tentam são travados por outros interesses”, diz ao CBS, momentos antes de dar mais um espectáculo no tradicional encontro de tocadores de concertinas na localidade de Fornotelheiro, concelho de Celorico da Beira.

CBS – Como é que se sente ao poder regressar depois de dois anos afastado dos palcos?

Ruizinho de Penacova – Precisávamos deste retorno como do pão para a boca. É uma lufada ar fresco. Não foi fácil. Tínhamos uma média de 140 a 180 espectáculos por ano e, de repente, ficámos sem nada. A nossa sorte foi ter poupado algum do dinheiro. Utilizamos aquilo que tínhamos poupado para uma emergência, como uma doença. Somos uma equipa de quatro elementos já há 22 anos. Ainda assim, tivemos de arregaçar as mangas.

O que fez durante a pandemia?

Agarrei-me ao volante de um camião e fui por essa Europa fora como motorista de longo curso. Aproveitei o facto de ter a carta de pesados. Fazia a ligação entre Portugal e a Suécia. São muitos quilómetros. É uma vida que exige sacrifícios.

Como é que entrou no mundo das festas populares?

Já vem de família. O meu pai era acordeonista e a minha mãe cantadeira. Sem grande escola ou formação ficaram algumas heranças e tive amigos mais velhos que estavam dentro da arte que me corrigiam. E, olhe, tornei-me cantor popular.

Chegou a trabalhar nos correios…

É verdade. Mas seis anos depois de lá estar, o Quim Barreiros convidou-me para lhe dar uma mão. Pensei para comigo: p… quando não tinha emprego não aparecia nada, agora que tenho a vida alinhavada é que surge este convite. Tinha de escolher e optei por ajudar o meu “padrinho musical”. Andei com ele muitos anos e ainda hoje o acompanho. Não me arrependo. Esta vida é muito bonita, mas, ao mesmo tempo, ingrata. Já tenho 27 discos gravados e o sucesso continua a não ser nenhum, mas tenho o reconhecimento das pessoas, do povo. É por isso que já venho, pela terceira ou a quarta vez, aqui ao Fornotelheiro [concelho de Celorico da Beira] participar nestes encontros de concertinas. O dinheiro não é tudo. Estar aqui, como noutros locais onde sou convidado a actuar, é sinal de que dou à nossa gente aquilo que ela quer.

Porque é que as suas músicas têm sempre um toque “picante”?

É a parodia. Nisso sou um barra. Mas sei até onde posso ir. Por vezes, vejo letras com muito picante que acabam por ferir A ou B. Tenho muito cuidado com isso. O duplo sentido está lá, mas apenas o quanto baste…. Sei o que o povo quer e até onde posso ir. Sem ferir a religião, futebol ou a política…

Onde encontra inspiração para as suas músicas?

São feitas daquilo que vou encontrando no dia a dia. No povo.

Um dos seus trunfos é a boa disposição…

Sou assim. Todavia, há momentos em que não é fácil manter esta estado de alma e divertir as pessoas. Mas a gente está num cartaz temos de cumprir o programa. O que mais me custou na minha carreira foi um espectáculo que dei um dia depois do funeral da minha mãezinha. Não é fácil divertir e animar as pessoas quando o que temos é vontade de chorar. Este é um lado muito ingrato desta vida.

Tem influências do Minho?

Da parte da minha mãe. O meu pai é que foi de Penacova para Viana do Castelo trabalhar. Faço questão de estar nos dois locais. O nome Penacova veio da parte do meu pai que tinha essa alcunha. Herdei-lha. O meu pai também era Rui, mas aí a minha mãezinha trocou-lhe as voltas e colocou-me um nome meio galego: Ruiz Ferreira da Costa. Daí o pessoal me tratar por Ruizinho.

Como justifica este interesse crescente pelas concertinas?

A concertina é a voz do povo a falar. No Minho qualquer casa sempre tem uma sanfona. É um instrumento que toda a gente entende. Faz parte da cultura popular. O meu avô, que não sabia ler nem escrever, tocava concertina como eu gostaria de tocar e cantava quadras ao desafio como eu não consigo fazer. A concertina é o instrumento ideal para a parodia. Quer fume para a esquerda, quer fume para a direita, bate sempre certo.

Como é que se sente perante este interior tão desertificado?

Vou-lhe ser muito franco. Louvados sejam aqueles que já partiram e que eu conheci há 20 ou 30 anos. Eles viviam da lavoura, das rezinas, do mel, do queijo, do gado e viviam bem. Poupavam. Havia alegria. Estas aldeias tinham gente e vitalidade. Os que já partiram não têm de ver este abandono. A nossa geração estuda, forma-se e não tem possibilidade de vingar nestes territórios. São obrigados a sair. Uns para as cidades do litoral, outros para o estrangeiro. É triste.

Acha que é possível inverter esta tendência de abandono?

Uma coisa eu sei: as pessoas que tiveram de partir querem voltar. Quando vou a qualquer lado perguntam-me sempre como está por aqui a terra. Têm saudades. Sei disso porque conheço muitas comunidades portuguesas espalhas pelo mundo. Infelizmente a única forma de orientarem a vidinha foi sair daqui. Todavia, também vejo alguns jovens a aparecer com projectos que vingam e fazem crescer o território. Apesar de todas as dificuldades vão lutando e ganhando. Estes jovens, como os empresários que fazem aqui as suas apostas, apesar das dificuldades extra, merecem o nosso reconhecimento.

Quem está no poder não devia procurar resolver os problemas destas regiões?

Têm essa obrigação. Mas, na política, o que hoje é branco, amanhã é preto. O engraçado é que vamos a Lisboa e encontramos nos centros de decisão pessoas naturais desta região. Tal como grandes empresários. Mas esquecem-se das suas origens. Eu se estivesse no lugar dos políticos, se calhar, fazia o mesmo. Olhava para a minha barriga e prometia o dobro do que eles prometem. A política é um tachinho de onde uns quantos se alimentam. Também já conheci gente honesta e competente. Pessoas que se preocupam com os problemas destas regiões e que procuram solucioná-los. Mas não têm força suficiente. Há outros interesses. Mas não posso falar muito. Pela boca morre o peixe.

….

O nosso interior é rico em cultura, alegria e tem pessoas com coragem. É o que nos vale para enfrentar e superar todas as adversidades. Ser do interior é motivo de orgulho. Sinto-me melhor a comer num tasquinho por aqui do que no restaurante mais requintado de Lisboa. Não me esqueço de onde venho. Quem se esquece de onde vem, nunca encontra o caminho certo para seguir em frente.

 

 

 

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