Modernizar, desenvolver ou civilizar Portugal é indissociável da escola pública. Enquanto adultos, a tendência quase instintiva é afirmar que na nossa remota época de estudantes tudo era mais difícil, porque hoje tudo é facilitado, na escola e na vida. Por norma, já os nossos pais assim pensaram, tal como os nossos avós, os nossos bisavós… Na República, Platão (séculos V a IV a.C.) colocou Sócrates a afirmar perante Gláucon: “acaso não levam os jovens uma vida de abandono aos prazeres e à inactividade quer física quer intelectual, e não são demasiado moles para resistir ao prazer e à dor, e ainda por cima preguiçosos?”
Porém, quem lida diariamente com crianças e jovens percebe facilmente ― caso esteja disposto a ouvi-los ― que um número muito significativo não gosta de frequentar a escola, não reconhece utilidade naquilo que é obrigado a estudar e que, com alguma frequência, se sente frustrado ou deprimido. Não raramente, os actos de violência e vandalismo contaminam o ambiente escolar. Daí é só um passo para perceber que a saúde mental dos mais pequenos, tal como a dos adultos, não conhece dias animadores (as taxas de suicídio, em particular na Região Autónoma dos Açores, aí estão para o demonstrar).
Comparar os manuais escolares de Português ou de Matemática dos anos 90, do 1.º ciclo, com os manuais destas disciplinas na actualidade é um exercício que considero particularmente importante para compreender alguns dos fracassos do sistema educativo nacional, que decretou a escolaridade obrigatória até aos 18 anos, sem, todavia, criar verdadeiras vias alternativas para aqueles que não se encaixam no ensino mais teórico. Eis uma das conclusões imediatas: tivemos a pretensão de colocar a universidade no 1.º ciclo, às vezes até na educação pré-escolar (apenas alguns exemplos: o estudo das isometrias no 1.º ciclo, conteúdos gramaticais muitas vezes ininteligíveis e obscuros e a leitura de textos, frequentemente, herméticos, de qualidade literária duvidosa e com reduzido significado pedagógico). Talvez seja por isso que já existam festas dos finalistas com cartolas, bengalas e tudo mais no final do 4.º ano de escolaridade.
É curioso que todas estas transformações tenham ocorrido numa época em que as ciências da educação estejam tanto na moda. Porém, a impressão com a qual se fica é que, na verdade, já poucos lêem Piaget.
Com programas escolares desfasados em relação à faixa etária e à maturidade cognitiva e emocional dos alunos, com professores transformados em tecnocratas resignados, cujo principal objectivo é garantir o sucesso estatístico a todo o custo, vai desaparecendo desde cedo o gosto pelo conhecimento, bem como a curiosidade e o prazer pela leitura, pela escrita e pelo pensamento. Na via rápida das lições escolares, não há tempo para parar ― no 7.º ano, por exemplo, existem 14 disciplinas!
Os interesses financeiros das empresas tecnológicas minaram o sistema educativo, levando os responsáveis políticos a acreditar que as máquinas nos poderiam salvar. A chegada massiva dos quadros interactivos e dos computadores às escolas fez praticamente desaparecer os manuais em suporte físico. Em várias escolas, as bibliotecas permanecem, por vezes, fechadas ou são subaproveitadas.
Ora, pelo menos até ao 12.º ano, os alunos necessitam de ter um livro em suporte físico estruturado, que possam sublinhar, tocar, sentir, cheirar; que possam abrir de imediato, quando o docente assim o exige, sem que estejam dependentes da existência de rede ou de outros bloqueios tecnológicos.
A Inteligência Artificial foi (está a ser) a machadada final neste processo de degradação das aprendizagens, no meio do qual os alunos, os professores e demais agentes educativos são quase sempre simples peões; aqueles que mais sentem na pele os resultados de opções políticas e economicistas erradas e anti- -pedagógicas (o actual caos em torno dos exames aí está para o demonstrar ― um assunto que, de resto, bem merece uma reflexão mais elaborada).
Na minha bancada de trabalho, tenho à frente aquela que considero uma obra-prima incontornável para aqueles que se interessam pelo processo de civilizar (ou modernizar) Portugal: Antero de Quental, Causas da decadência dos povos peninsulares nos três últimos séculos.
Em 1871, o “líder espiritual da geração de 70” (como lhe chamou Eça de Queirós), no decurso da sua célebre conferência, procurou identificar as causas estruturais do nosso atavismo. Como era inevitável, tocou por exemplo na questão da educação, em particular no que dizia respeito aos métodos dos Jesuítas, que considerava profundamente errados.
Hoje, volvidos 155 anos (1871-2026), pese embora as grandes conquistas verificadas, nomeadamente após a Revolução de Abril de 1974, temos ainda um longo caminho a percorrer. Ao contrário daquilo que possamos pensar, ser jovem não é assim tão fácil, até porque os perigos que hoje existem não se comparam com aqueles que marcaram a minha infância e adolescência, nas décadas de 80 e 90. Na actualidade, a omnipresença das drogas (v.g., sintéticas e novas tecnologias) cria problemas difíceis de resolver ou antecipar, mesmo para famílias altamente estruturadas e formadas, quanto mais para as restantes. De resto, os conhecimentos desenvolvidos nas escolas são hoje tão complexos, logo a partir de tenra idade, que muitas famílias não se sentem preparadas para ajudar os filhos a estudar. Daí que enveredem, quase sempre que o podem fazer, pelos centros de explicações.
Frequentemente, o absentismo escolar é um dos problemas centrais para o insucesso escolar. Talvez a criação de uma plataforma que potenciasse a comunicação entre as escolas, os tribunais, a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ), os hospitais, os centros de saúde, entre outros organismos, pudesse constituir um facilitador para resolver este problema. Além disso, os currículos escolares deveriam ser revistos, numa perspectiva holística.
Numa época em que proliferam as redes de comunicação, persiste, de um modo quase paradoxal, uma evidente dificuldade em conseguir que as actualizações científicas cheguem aos currículos escolares. E isso decorre em grande parte do modo como, erradamente, se processa a formação contínua dos docentes. Além disso, o paradigma educativo continua fortemente burocrático: em detrimento de privilegiar uma intervenção imediata, logo após serem detectadas as primeiras dificuldades de aprendizagem (exemplo: o direito de poder ficar retido no 1.º ano de escolaridade deveria estar consagrado na Constituição).
Ao contrário do que é comum dizer-se, não temos excesso de licenciados em Portugal. Quem me dera que todas as pessoas tivessem a oportunidade de frequentar o ensino superior, pois só a elevada formação científica dos vários elos da cadeia do trabalho nos pode ajudar a combater a falta de produtividade. A educação e a formação de adultos, sejam eles operários ou gestores, deveriam merecer outro género de atenção por parte de quem nos governa.
Modernizar ou civilizar o país exige alterar as mentalidades, nomeadamente a velha máxima segundo a qual se estuda para se obter “um lugar ao sol”. Pelo contrário, estuda-se para estar mais preparado para a vida em sociedade, cada vez mais exigente e competitiva. Por isso, a educação deveria conciliar a teoria e a prática de um modo mais regular.
Quando um aluno abandona a escola, sem sucesso, existe uma maior probabilidade de ele acabar nas ruas e de engrossar as fileiras dos extremismos que minam os alicerces do Estado democrático. Quando estaremos verdadeiramente dispostos a combater este flagelo?
Autor: Renato Nunes