Correio da Beira Serra

“O objectivo é estabilizar a AD Nogueirense e levá-la para patamares competitivos mais elevados que já conheceu no passado”

Márcio Silva, um treinador diferente que gosta de apostar em projectos de longo prazo

Márcio Silva, 36 anos, é um treinador de futebol algo invulgar. Natural de São Romão, concelho de Seia, começou a treinar guarda-redes com apenas 19 anos (corria a época de 2005/2006), actividade que conciliava com a tarefa de defesa central. Desenvolveu um gosto especial pelo treino e, ao contrário de muitos treinadores, permanece vários anos ao serviço dos clubes (esteve 14 anos a trabalhar com as camadas jovens da AD São Romão). Depois de duas temporadas, a trabalhar no Seia FC e no Desportivo de Seia, assumiu o cargo de treinador durante oito épocas no CD Gouveia. Foi aqui que, em 2020/2021, com apenas 24 anos, assumiu o comando de uma equipa sénior. Em 2022/2023 venceu tudo o que havia para vencer na AF Guarda e colocou a equipa no Campeonato de Portugal. Já esta, época, em Outubro, abandonou o clube. “Senti que precisava de outros desafios”, conta. Pelo Natal assinou pela AD Nogueirense, uma equipa do concelho de Oliveira do Hospital, que ocupa o quarto lugar na AF Coimbra Divisão Elite e que está “a desenvolver um projecto de reestruturação”.

CBS – O que é que lhe pediram os responsáveis da AD Nogueirense?

Márcio Silva – Não me foi exigido nada de especial, apenas que montasse a equipa e que apresentasse bom futebol. É também esse o meu desejo. E ajudar no projecto que está a ser implementado no clube.

E como define esse projecto?

A AD Nogueirense foi um clube com pergaminhos no futebol distrital e mesmo nas provas nacionais durante muitos anos e o objectivo é elevar novamente o clube a esses patamares, o que acredito poderá acontecer a breve prazo, depois de concluído este processo de reestruturação em curso. Enfim, este é um clube que se está a reafirmar e eu fui contratado para ajudar a consolidar esse plano.

O objectivo é tentar a promoção?

A direcção o que me disse foi para manter a equipa no pelotão de cima. Conseguir um local tranquilo e valorizar os nossos jogadores. Não me foi colocado como objectivo ser campeão. Se a promoção acontecer será bem-vinda, mas não é o grande objectivo do clube. Vamos caminhando passo a passo.

Afirma-se como um treinador de projectos e esteve durante muitos anos a treinar camadas jovens. A AD Nogueirense praticamente não tem formação…

Mas é algo que será uma aposta da actual direcção, porque a AD Nogueirense tem tradição na formação. Penso que a curto prazo as camadas jovens também vão ser uma realidade. Este não pode ter apenas infantis. Tem de formar atletas que ajudem a alimentar a equipa sénior. E eu, também aqui, penso a longo prazo e defendo a aposta nessa componente desportiva. Tal como a direcção.

Qual o estilo de futebol das suas equipas?

Gosto de um futebol de pressão alta, com intensidade, jogado no meio campo adversário e com elevada posse de bola, embora esteja dependente dos jogadores que tenho à minha disposição. Mas procuro que as minhas equipas pratiquem um futebol arrojado e que não se escondam. Gosto também de apostar nos jovens e, por acaso, aqui tenho um plantel bastante novo.

Abandonou o CD de Gouveia e nunca explicou bem essa saída…

Foram nove anos no Gouveia, onde fui feliz e deixei a minha marca. Mas, como tudo na vida, quando estamos muito tempo no mesmo sítio acabamos por nos acomodar. Senti necessidade outros desafios. No CD Gouveia ganhei o que havia para ganhar, o clube está muito bem entregue e espero que consigam a manutenção. O meu foco agora está no Nogueirense.

Por muitos anos?

Pelo tempo que a direcção entender que sou útil.

Como é que começou a treinar com apenas 19 anos?

Foi graças a um convite do meu colega Nelo Silva, que tinha sido meu treinador, para o ajudar com os guarda-redes dos iniciados da AD São Romão. O treino nunca me tinha seduzido particularmente, mas aceitei. Aos poucos fui-me dedicando e, curiosamente, descobri que tinha algum talento para o treino. Fui desenvolvendo as minhas competências e, no ano seguinte, assumi os juniores da AD de São Romão. Fomos logo campeões. A partir dessa altura tomei-lhe o gosto e procurei aprimorar cada vez mais as minhas competências e actualizar-me sobre os novos métodos de treino e gestão de pessoas. Passei a dedicar muito trabalho de estudo ao treino. E durante muito tempo fui conciliando a parte do treino de jovens e de jogador.

Como é que consegue ficar tantos anos nos clubes?

Quando assumo um cargo é porque há um projecto de base e de reestruturação subjacente. Sou um treinador que se preocupa com as condições de trabalho. Não chego e não olho só para o resultado. Quero algo de estruturante, em termos de meios físicos e humanos. O meu propósito é ajudar o clube a ser cada vez mais profissional. E tenho tido sucessos.

Qual é a ligação do clube ao designado Projecto Europa?

Há uma ligação. Nos últimos anos o Projecto Europa tem jogadores no AD Nogueirense.

O que é o Projecto Europa?

É uma empresa, com sede em Oliveira do Hospital, que presta serviços, desde o apoio aos clubes na área administrativa, área técnica e ajuda na reestruturação de todos os departamentos ligados à parte desportiva. O projecto tem também cerca de 40 atletas, dos quais assumimos o alojamento, que procuramos valorizar e de os lançar no mercado. Já saíram vários clubes para a I Liga. A empresa desenvolve um trabalho muito completo em relação aos clubes e atletas. Como o trabalho de performance com cada jogador, o treino individualizado e acompanhamento social, que é um departamento muito importante para ajudar os atletas a projectarem o seu futuro e a desenvolver as suas capacidades cognitivas. Temos cerca de uma dúzia de funcionários.

O projecto é só na região centro?

Temos vários atletas pela região, mas é também muito solicitado por vários clubes a nível nacional. É um caso de sucesso. Faço parte deste projecto, liderado por Frederico Souza Santana (ex-jogador brasileiro), e estou surpreendido pela forma rápida como se desenvolveu rapidamente. É um caso de sucesso. Tem vantagens para os clubes e para os jogadores.

 

Exit mobile version