O concelho de Oliveira do Hospital tem ainda mais de seis mil pessoas sem médico de família e houve outros que permaneceram vários anos sem acesso a esse serviço, entre os quais eu, Fernando Tavares Pereira, utente do Centro de Saúde oliveirense há quatro décadas. O problema foi, entretanto, parcialmente resolvido. Mas passei dez anos sem clínico de família. E como eu, muitas centenas de utentes que, sem esse recurso, se viram obrigados a recorrer ao sector privado para acederem a um direito básico que o Governo tem obrigação de assegurar.
Mas quem nos governa não consegue garantir esses direitos das populações. Por isso, o Governo devia aplicar as medidas que se impunham, principalmente, para salvaguardar os cuidados às populações mais carenciadas. Ao presidente da Câmara cabia-lhe defender os seus munícipes. Não se passou uma coisa nem outra. Alguém se esqueceu da necessidade de lutar por soluções. De criar um sistema que permitisse aos utentes, sem médico de família, utilizar o sector privado, sendo a despesa das consultas suportadas pelo Governo. Pagando directamente ou permitindo, por exemplo, o desconto na totalidade dessas facturas de consultas em sede de IRS. Não faz qualquer sentido que, neste estado de coisas, apenas 20 por cento das despesas de saúde possam ser deduzidas no IRS.
“Nós também somos humanos, não somos pedras”
Mas há aqueles que não têm limites para o descaramento. Estou a falar de quem, na qualidade de deputado do partido que apoia o Governo, vai para a televisão queixar-se do mal que deixou no concelho de Oliveira do Hospital, onde durante anos abandonou milhares de pessoas à sua sorte em termos de cuidados de saúde. Utentes que foram obrigados a gastarem do seu bolso dinheiro que tanta falta lhes faz para a educação dos filhos ou compra de medicamentos. Foi a mesma pessoa que apregoou um plano revolucionário para a saúde dos oliveirenses. Nunca se viu nada. Desse reinado, só resultou miséria fome e desemprego. Tal como em outros concelhos do Alto Distrito que estão hoje sem condições de vida.
Será que isto é para apoiar a desertificação? Será que querem criar condições propicias à exploração de minério? Será que alguém quer transformar este território numa quinta, como me acusaram na campanha eleitoral autárquica? Não serão eles que estão a transformar estes territórios numa coutada, salvaguardando algumas leiras? Perante isto, resta-me lamentar a actuação de alguns deputados, autarcas e responsáveis do sector público. Não se podem esquecer que nós também somos humanos, não somos pedras.
Fernando Tavares Pereira