“Vamos exigir que o Governo cumpra a promessa relativa ao IC6… e reclamar a ligação à linha da Beira Alta
Seia adiou para o final de Abril (de 23 a 25) a sua feira anual do queijo Serra da Estrela. O objectivo foi contornar os efeitos da pandemia que poderiam afectar um evento que o presidente da autarquia defende ser um pólo de negócios em que o queijo Serra da Estrela funciona como alavanca. Nesta feira os expositores procuram encontrar clientes e dar a conhecer os produtos locais. “Estamos a falar de uma feira e estamos interessados em rentabilizar o investimento das empresas e do município. Gostamos
de trabalhar a feira como um pólo de negócios”, explica António Luciano Ribeiro, mostrando-se confiante no futuro do queijo Serra da Estrela que pode conviver com queijo de leite de ovelha produzido no concelho. “O chamado queijo de ovelha de Seia tem a sua função que é competir em quantidade, e também com qualidade, nas grandes superfícies”, diz o autarca, sublinhando que o queijo DOP está noutro patamar. O autarca pretende ainda criar um modelo de Indicação Geográfica Protegida para Seia, como forma de defender os produtos do concelho. “A marca Seia está a ser usurpada”, conta António Luciano Ribeiro, defendendo que o Governo tem de cumprir a promessa de concluir o IC 6 e ligar Seia à linha da Beira Alta.
CBS- Está satisfeito com este regresso da Feira do Queijo Serra da Estrela à forma presencial, que foi adiada em relação à data habitual (Fevereiro)?
António Luciano Ribeiro – É um anseio grande. Uma grande expectativa. Toda a comunidade já tem saudades. Não é na data habitual, mas estamos convencidos que a melhor solução foi mesmo adiar o evento. Agora está tudo mais tranquilo no que respeita à gestão da pandemia. Em termos de produção e o facto de ser logo a seguir à Páscoa, um período forte de vendas, a data foi discutida com os produtores. Foi decidida uma margem de duas três semanas para haver queijo que possa ter escoamento na feira.
Esta Feira não se esgota no queijo Serra da Estrela…
É um polo de negócio tendo o queijo como foco principal e fonte de alavancagem. Mas serve para valorizar outros produtos locais e regionais. Desde o enchido ao pão, mel e artesanato. Digamos que, em paralelo, decorre uma feira que permite aos visitantes conhecer o saber fazer e o que de bom existe na nossa região. E que comprem. Estamos a falar de uma feira e interessados em rentabilizar o investimento das empresas e do município. Gostamos de trabalhar a feira como tal. Muitas das pessoas que visitam e compram produtos acabam por se tornar clientes dos produtores e das nossas empresas ao longo do ano. A somar a tudo isto, nestes dias da feira há uma forte dinamização da restauração e do alojamento. Neste modelo, por exemplo, estamos convencidos que aqueles programas de televisão que muitos dos nossos vizinhos utilizam não tinham espaço aqui.
Quantos visitantes e expositores são expectáveis neste evento?
Apontamos para cerca de 15 mil. Mas esta é uma altura muito volátil. Nestes últimos tempos, o mundo mudou. Os combustíveis aumentaram. Os preços subiram e as pessoas começam a fazer opções. Já em termos de expositores vamos ter cerca de uma centena.
“A Estrelacoop está a trabalhar no sentido de preparar o processo para elevar o queijo Serra da Estrela a património material da UNESCO”
Seia está também muito associada ao queijo de leite de ovelha que nada tem a ver com aquele que permite fazer o queijo Serra da Estrela e muitas queijarias utilizam mesmo leite proveniente de Espanha. Há quase uma marca própria. Como é que lidam com isto?
Bem. Na nossa feira todos têm lugar. Este é o mercado queijo Serra da Estrela. Temos a participação da Estrelacoop que é quem certifica o queijo DOP. Para nós é claro. Cada um tem o seu papel no mercado. O chamado queijo de ovelha de Seia tem a sua função que é competir em quantidade, e também com qualidade, nas grandes superfícies. Já o queijo DOP é algo de completamente diferente, com outra importância. Por isso, tem de se vender a um valor de acordo com a sua qualidade. E está claramente diferenciado pelo selo de certificação. Não há confusão. O queijo de ovelha de Seia já é uma marca. Concorre é num segmento diferente do queijo Serra da Estrela e do requeijão ou borrego DOP. Não é por acaso que os produtores mais pequenos, aqueles que vendem queijo DOP, não têm produto para colocar no mercado. Há produtores que dizem que para marcarem presença na feira têm de deixar algumas encomendas por satisfazer.
Isso passaria por o promover nos grandes centros?
Tenho uma ideia um pouco diferente. Defendo que o queijo Serra da Estrela, além da sua extraordinária capacidade gastronómica, mais do que ser um produto de qualidade que se coloca numa prateleira de Lisboa ou do estrangeiro, deve ser também um destino. Quem quiser ter uma experiência única de andar com o pastor, com o rebanho, assistir à ordenha, ver fazer o queijo e, no final, levar um produto autêntico para casa, deve vir ao nosso território. E, em vez de pagar o queijo a 18 euros o quilo, tem de o pagar a 20 ou mais. É essa a nossa perspectiva. E está alinhada com os produtores e a Estrelacoop, a entidade que certifica o produto e que está a trabalhar no sentido de preparar o processo para elevar o queijo Serra da Estrela a património material da UNESCO. Temos de desenvolver esta fileira, como aconteceu na área dos vinhos.
“Estamos a definir neste mandato um projecto estratégico para o sector primário, para a agro-pecuária do concelho”
Qual é o orçamento da Feira do queijo Serra da Estrela de Seia?
O que é que a autarquia de Seia está a fazer para combater a realidade que é o envelhecimento da população e o declínio dos rebanhos?
Não lhe vou dizer o que estamos a fazer neste momento. O que decidimos como meta foi definir neste mandato um projecto estratégico para o sector primário, para a agro-pecuária do concelho. Posso dizer-lhe que achamos que a base da produção tem de ser modernizada. Precisamos de novos actores no mercado e na região. Além dos pastores, que já de si é uma profissão muito digna e exigente, precisamos de empresários rurais. Pessoas que vejam a pastorícia como um trabalho com os mesmos direitos e deveres de outro qualquer. Temos de dignificar a profissão. Não só na vertente do rendimento, mas pela forma como ela é gerida. Não pode ser o pastor a trabalhar para as ovelhas, mas sim as ovelhas a trabalharem para o pastor.
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Precisamos de modernização, de recorrer a novas tecnologias que permitam atrair capital e pessoas com outra visão do negócio. A concepção romântica do casal e das ovelhas, em que o marido guarda e faz a ordenha, enquanto a esposa, depois de cuidar dos filhos, faz os queijos e o requeijão, está de alguma forma a ficar ultrapassada. Há bons exemplos no concelho na produção de determinados produtos. Nos caprinos surgiram explorações com conceitos modernos. Está tudo inventado, não temos de descobrir nada. Este é um desafio para Seia e para toda a região. Mas aqui também englobamos a floresta, paisagem, e procura de novas produções que consigam atrair as pessoas. Queremos trabalhar o sector primário de forma estruturada.
“Vamos exigir que o Governo cumpra a promessa relativa ao IC6 e que se concretize a ligação de Seia à linha da Beira Alta”
CBS- Uma das reivindicações dos autarcas do interior prende-se com as vias de comunicação. Em sua opinião quais devem ser as prioridades?
António Luciano Ribeiro – Exigir ao Governo que, em relação ao IC6, cumpra aquilo a que se comprometeu que é recomeçar a obra até 2026 e lutar para que esse calendário seja antecipado. Depois do IC6 chegar ao nó da Folhadosa, vamos exigir a ligação de Seia à linha férrea da Beira Alta, através do IC 37 que nos liga a Nelas. O Governo está a apostar, e do meu ponto de vista bem, na renovação do sistema ferroviário e, admitindo que a linha não possa passar em Seia, o que reclamamos é um acesso condigno à linha da Beira Alta que é estruturante para interligar à Europa e aos portos.
O presidente da CM de Gouveia defende uma requalificação profunda da EN 17…
São opções. Já tive essa conversa com ele e estamos a trabalhar. Acho que a EN 17 merece e carece de uma requalificação, porque se encontra bastante degradada. Mas o tempo não se compadece com ligações do tempo dos reis, como é o caso da estrada Real que era a Estrada da Beira. O que precisamos é de novas vias. Isso não invalida a conservação daquilo que temos e, nesse aspecto, concordo plenamente com o presidente Luís Tadeu quando ele defende uma reestruturação urgente da EN 17 no distrito da Guarda e também de Coimbra, embora aí já tenha o IC6.
O que defende em relação ao IP3?
Esse é um problema que nos afecta a todos. A estrada de Coimbra a Viseu podiam fazê-la e colocar portagens à vontade, porque agora não temos por onde andar. Depois de tantas tragédias naquela estrada, ter uma ao lado uma via portajada e a possibilidade de poder escolher seria algo a considerar. É um problema que tem de ser resolvido.
