O pastor, na sua humilde e mui nobre profissão, conduz o seu rebanho para o pasto, em dias úteis, fins-de-semana e até aos feriados, a fim de lhe proporcionar o alimento de que carece.
Esse rebanho, que ele conhece como as palmas das suas mãos, que até têm nomes próprios, é o seu sustento, da sua família, por isso o cuida com tanto carinho e entrega.
É o prolongamento do seu cajado e do seu inseparável cão.
Os riachos, os combros, os arbustos e os campos, completam a moldura, de um quadro pintado em cores e aromas naturais.
Ele quase não precisa de falar. O rebanho já conhece os seus hábitos, as suas falas e o caminho de ida para pasto e de volta para o redil.
O seu cão, sem nunca ter estudado em qualquer escola ou universidade, “fala” a sua linguagem e a do seu rebanho.
É um entendimento quase perfeito. Todos vivem e “trabalham “para o mesmo fim.
É uma “sintonia naturalmente sincronizada “e harmoniosa.
Quando há muito pouco pasto? Quando está frio ou calor? Quando chove ou cai neve?
A partilha é directamente proporcional aos ganhos e ao esforço aplicado na labuta ou aos benefícios provenientes do contributo de cada um para a fazenda.
Falamos de um pastor, do seu rebanho, nos limites do seu espaço e da sua fazenda.
Os problemas são locais, resolvidos com a prata da casa e sem lamentos.
Se houver necessidade de recorrer a ajuda externa, ela será sempre proporcional ao número de cabeças de gado e à riqueza que elas produzem.
Se tentarmos juntar numa só propriedade vários rebanhos, os problemas irão crescer, pois têm rotinas diferentes, vários pastores, hábitos particulares e caminhos diferentes, bem como diferentes climas.
Até os próprios cães se irão confundir na condução do rebanho e execução das intenções dos seus líderes, dado que ouvem diferentes ordens de comando.
A gestão da quinta passa a ser dividida e consequentemente as ordens serão diferentes, porque diferentes serão também os campos de onde provêm.
Os hábitos de cada pastor e a morfologia dos campos onde habitualmente vivem, também diferem. Os conflitos serão inevitáveis e não tardarão!
Uma gestão, simples, ordeira e singular, passa a ser uma constante contestação, porque cada um dos intervenientes quer assumir a liderança do grupo, tentando impor as suas ideias aos outros pastores, aos cães e até aos próprios rebanhos, que começam a sentir dificuldade em acatar e compreender tantas mudanças.
Claro que os rebanhos serão os mais prejudicados, lentamente, até ao dia em que os pastores se esquecerão deles, lutando entre si e atiçando os cães uns contra os outros.
Nesse dia os rebanhos não irão até ao pasto. Passarão a ter fome ao fim do dia!
Uma semana, um mês depois, os mais fracos e indefesos irão acabar por desfalecer ou até, morrer à fome, enquanto os cajados dos pastores andam de costela em costela, à procura de se magoarem o mais possível uns aos outros, esquecendo de que os que lhe dão comer, estão a morrer à fome e sem pastos para se alimentar.
Eles próprios irão sentir frio, porque o rebanho já não dá boas peles.
Eles próprios não terão leite para dar aos seus filhos, porque a teta secou, os queijos acabaram e não há mais agasalhos.
Não lhes resta outra alternativa senão começar a matar, uma a uma, as “suas” ovelhas para lhes saciar o apetite devorador, resultante de tantas energias gastas em lutas “pavónicas”.
O rebanho vai ficando cada vez mais pequeno, mais fraco, esperando que a peste provocada pelos cadáveres em decomposição dos seus iguais, não acabe por os dizimar a todos, numa agonia lenta e dolorosa.
Quando o extremo da miséria, da fome e morte chegar, cada pastor vai tentar pegar no que lhe resta do seu rebanho, voltar aos seus antigos verdes campos, que provavelmente já não lhes pertencerão e o verde estará amarelecido, quase castanho-escuro, causado pelo abandono a que foram votados.
O mal é que o rebanho não fala e nunca falou, porque se foi acostumando a viver com as migalhas que sobravam das contendas dos lobos, que, entretanto, substituíram os cães na condução dos destinos dos rebanhos. Até já os pastores deixaram de ter cajado.
Acho que a minha fazenda era pequenina, mas um verdadeiro paraíso. Porque saí de lá?
O pastor até que nem era mau de todo, se o compararmos com os que vieram depois para os conduzir sobre os escombros provocados pela falta de unidade.
Autor: Fernando Roldão
