Correio da Beira Serra

P2X Portugal vai produzir, na Figueira da Foz, 80 mil toneladas por ano de “combustível verde” para aviação

A The Navigator Company e a empresa alemã P2X Europe celebraram um acordo de princípio para a criação de uma joint venture – a P2X Portugal – para desenvolver uma unidade industrial de última geração para produzir, em larga escala, combustíveis não fósseis para o sector da aviação, também conhecidos como e-SAFs (e-Sustainable Aviation Fuels) – jet-fuel (querosene) sintético, neutro em carbono, produzido a partir de hidrogénio verde e CO2 biogénico. A instalação desta nova estrutura em Portugal marca um passo fundamental no caminho para a construção de um ecossistema totalmente integrado de produção de combustíveis verdes, será no complexo industrial da Navigator na Figueira da Foz e deverá produzir 80 mil toneladas por ano de combustível verde para aviões.

O projecto, que poderá estar a funcionar em 2026, pretende tirar partido da elevada competitividade de Portugal na produção de energia renovável (solar e eólica) e do CO2 biogénico gerado pelas bio refinarias da Navigator que utilizam como recurso as florestas. Em conjunto, estes são os dois elementos críticos para o sucesso da produção à escala industrial de jet-fuels sintéticos net-zero (neutros em carbono), com vista à descarbonização da indústria da aviação.

“A joint venture reúne por um lado o vasto know-how da P2X Europe, precursora no desenvolvimento de projectos PtL (Power-to-Liquids) a nível internacional e’trader’ experiente de combustíveis líquidos, e por outro lado a vasta experiência industrial da Navigator na gestão de bio refinarias e florestas sustentáveis”, refere a Navigator. “A P2X Portugal é uma aliança pioneira que tem como objectivo ser uma referência internacional no desenvolvimento e comercialização em larga escala de produtos inovadores de combustíveis sintéticos para o sector da aviação”.

Portugal, segundo as empresas, encontra-se numa posição única para desenvolver um novo ‘cluster’ de produção de derivados de hidrogénio verde, como os combustíveis sintéticos, criando emprego, fomentando exportações e assegurando um papel de liderança no estabelecimento de uma bioindústria assente em florestas sustentáveis, que será fundamental para a ambicionada descarbonização do sector dos transportes.

Um projecto único

“A ‘joint venture’ P2X Portugal reúne empresas líderes em tecnologia e engenharia e integra toda a cadeia de valor do processo, incluindo a captura de até 280.000 toneladas por ano de CO2 biogénico e várias centenas de megawatts de nova capacidade de energia renovável. O projecto visa atingir uma capacidade total de produção de eFuel (eSAF) de 80 mil toneladas por ano assim que totalmente desenvolvido”, continuam.

Para as duas primeiras fases de desenvolvimento, o investimento do projecto totalizará cerca de 550 – 600 milhões de euros na instalação de produção de H2 verde, na infra-estrutura e processo de captura de CO2 biogénico, e na capacidade de produção de 40 mil toneladas por ano de crude e combustível sintético.

O Governo português concedeu ao projecto PtL da P2X Portugal o estatuto Projecto de Interesse Nacional (PIN), o que, segundo as duas empresas, constitui um testemunho da relevância e qualidade global do projecto da P2X Portugal.

Sujeito ao cumprimento de determinadas condições precedentes e a uma decisão final de investimento positiva prevista para meados de 2023, o projecto está programado iniciar a operação comercial no primeiro semestre de 2026. As condições precedentes exigidas para uma Decisão Final de Investimento positiva incluem, entre outras, (i) disponibilidade de energia renovável a preços competitivos (tipicamente eólica e solar), (ii) adequado enquadramento regulatório para a produção de Hidrogénio Verde, a definir no EU Delegated Act actualmente em discussão em Bruxelas, (iii) acordos de ‘off-take’ satisfatórios com companhias aéreas de referência, e (iv) obtenção de incentivos adequados ao investimento proporcionados pela União Europeia e pelo Governo Português. A ‘joint venture’ está em processo de obtenção de autorização das autoridades ‘anti-trust’ da UE.

Vantagens da localização

“Portugal oferece condições e políticas de apoio que deverão permitir um crescimento rápido da capacidade de produção de combustíveis sintéticos verdes, alinhado com a regulação climática da UE, que estabelece várias metas obrigatórias para o uso de eFuels em substituição gradual de combustíveis fósseis”, sublinham, adiantando que as principais vantagens da localização em Portugal incluem o acesso competitivo a electricidade 100 por cento renovável (solar e eólica) como elemento primário para a produção de hidrogénio verde, bem como a uma das fontes de dióxido de carbono biogénico mais importantes disponíveis na Europa: a biorrefinaria da Navigator localizada na Figueira da Foz, que gera CO2 biogénico derivado do processamento de biomassa de florestas sustentáveis.

Compromisso com a sustentabilidade

“Em consonância com os seus objectivos de liderança de mercado, a P2X Portugal não comprometerá a sustentabilidade da sua operação. A unidade rejeita fontes fósseis de carbono não qualificadas e opta por fluxos de carbono biogénico de florestas certificadas e sustentáveis”, asseguram. “O CO2 biogénico é originalmente sequestrado da atmosfera por fotossíntese e armazenado nas árvores. O uso de material florestal sustentável em processos industriais de bio refinaria da Navigator conduz a emissões biogénicas de CO2, assegurando um ciclo de carbono sem emissões (net zero cycle)”.

“O produto final da P2X Portugal (eSAF) será, portanto, resultado de um processo de transformação totalmente sustentável, iniciado com electricidade renovável (solar e eólica) e com a fotossíntese em florestas sustentáveis. Através deste processo, a P2X Portugal irá na prática armazenar energia solar e eólica num combustível líquido sintético”, continuam.

Perspectivas futuras

O projecto contribuirá para o desenvolvimento de uma nova cadeia de valor estratégica em Portugal, bem como para a concretização das principais iniciativas da UE na área climática, nomeadamente o Green Deal, a EU Hydrogen Strategy e a REPowerEU. O Parlamento Europeu tomou recentemente uma decisão histórica sobre a regulação dos combustíveis de aviação, estabelecendo metas vinculativas para a substituição do jet-fuel convencional (querosene) por combustível de aviação sustentável (SAF) em geral e, em particular, pelos combustíveis sintéticos verdes à base de hidrogénio produzidos a partir de fontes de energia renováveis (eSAF).

Combustível de aviação sustentável (SAF/eSAF)

Os Sustainable Aviation Fuels (SAF) baseados em Power-to-Liquids (PtL), também conhecidos como eSAF, são a alavanca mais importante para descarbonizar o setor da aviação. Para grandes aeronaves e voos de longa distância, o eSAF sintético será a única opção viável para diminuir as emissões de carbono. O eSAF (eKerosene) derivado de PtL, gerado a partir de eletricidade renovável e fontes biogénicas de CO2, como a P2X Portugal irá produzir, é especialmente promissor, pois reduz as emissões de carbono em 90 a 100 por cento por comparação com o combustível de aviação convencional.

 

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