Correio da Beira Serra

“Participar numa Júnior Empresa é o complemento perfeito, agregando a componente teórica lectiva e a componente prática”

A direcção da Júnior Enterprises Portugal (JE Portugal), a federação que agrega as 24 Júnior Empresas de Portugal e os mais de 1100 Júnior Empresários que as constituem (uma rede de jovens empreendedores universitários), terminou o seu mandato, tendo a nova direcção sido eleita no dia 4 de Junho. O oliveirense Michael Nunes e o visiense Rodrigo Neves, que fazem parte da direcção cessante, falam, em entrevista ao CBS, da importância daquela instituição no ensino e na sociedade.

Rodrigo Neves, 21 anos, natural de Viseu, é licenciado em Matemática Aplicada à Economia e Gestão, pelo Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa e actualmente estuda para ser mestre em Finanças na Universidade Católica Portuguesa. No Movimento Júnior Português fez parte da ISEG Junior Business Consulting tendo sido inicialmente director do departamento de projectos e de seguida Presidente da mesma. Foi, até ao dia 4, Presidente da JE Portugal.

Michael Nunes, 23 anos, natural de Oliveira do Hospital, concluiu este ano o Mestrado Integrado em Engenharia Mecânica pela Universidade de Aveiro. No Movimento Júnior fez parte da Aveiro Smart Business, onde integrou o departamento comercial e, posteriormente, assumiu o cargo de Presidente. Foi até às últimas (dia 4 de Abril) Secretário-Geral da JE Portugal.

CBS – O que é o Movimento Júnior e mais concretamente uma Júnior Empresa?

Rodrigo Neves – O Movimento Júnior é uma rede de jovens empreendedores universitários – chamados Júnior Empresários – que diariamente desenvolvem trabalho nas suas organizações, as Júnior Empresas. Por sua vez uma Júnior Empresa, costumamos dizer de forma genérica que funciona como uma verdadeira empresa com tudo que a mesma envolve. A única diferença é que é gerida apenas por estudantes universitários e, embora cobre pelos seus serviços, não tem um fim lucrativo. Geralmente uma Júnior Empresa tem entre 40 a 70 membros, que se dividem nas diferentes tarefas elementares que uma empresa exige (Recursos Humanos, Marketing, Tesouraria, etc). Além disso cada Júnior Empresa dentro do seu core business realiza projetos externos, para outras empresas ou entidades, constituindo este a fonte de rendimento das mesmas, mas também um dos momentos de maior aprendizagem para os membros que a integram. Esta é a parte em que acontece aquilo que nós costumamos dizer como um dos nossos valores: “Learn by doing”.

Qual a origem deste conceito?

Michael Nunes: A primeira Júnior Empresa remonta a 1967 e surgiu em França. Desde então o conceito tem vindo a expandir-se a outras localizações, sendo hoje em dia uma network internacional presente em mais de 46 países e reunindo mais de 66.000 Júnior Empresários. A Europa é um dos continentes onde o conceito está mais presente, contando com cerca de 370 Júnior Empresas. Em Portugal o conceito está presente desde 1990 e somos atualmente 24 Júnior Empresas.

Investem, sobretudo, na formação e capacitação dos estudantes do ensino superior…

Rodrigo Neves –Sim, claramente temos um papel, como conceito, na formação dos estudantes universitários. Num ambiente em Portugal em que o ensino é por norma numa vertente bastante teórica a possibilidade de participar numa Júnior Empresa é o complemento perfeito agregando assim a componente teórica lectiva e a componente prático da Júnior Empresa.

Além disso, dentro das Júnior Empresas e, por vezes, também dinamizadas pela JE Portugal, existem formações ou dias abertos entre empresas. Dando alguns números e factos, em média cada Júnior Empresário tem por ano 30 horas de formação leccionadas não só por membros e professores, mas também por empresas líder nos mercados em que actuam.

Em Portugal, em que universidades estão presentes e há quantos anos?

Rodrigo Neves – Estamos presentes na maioria das universidades portuguesas, nomeadamente nas maiores e mais históricas. Temos presença na Universidade de Lisboa, do Porto, de Aveiro, de Coimbra, da Beira Interior, na Universidade Católica Portuguesa e ainda nalguns Institutos Politécnicos do país. A primeira Júnior Empresa foi fundada em 1990 em Lisboa, no Instituto Superior Técnico.

Exemplo de alguns dos projectos mais recentes com um impacto directo na sociedade

Michael Nunes – Anualmente são realizados cerca de 200 projectos no total das Júnior Empresas Nacionais, variando a sua natureza consoante o core business de cada uma.  Mencionando alguns dos que tiveram maior impacto no ano transacto, começaria por referir o projecto levado a cabo pela Nova Junior Consulting em parceria com a embaixada da Finlândia com o intuito de identificar oportunidades de negócio entre ambos os países no sector das energias renováveis. Numa vertente mais ligada à saúde existiu também o projecto desenvolvido pela JUNITEC em parceria com o CEiiA e com o Hospital São João com vista à obtenção de uma pulseira inteligente capaz monitorizar os sinais vitais dos pacientes enquanto estes se encontram nas urgências. Ainda na área da saúde, este ano a Iscte Junior Consulting realizou um projecto na área de analytics para o Hospital Santa Maria, onde a análise de dados referentes a doentes cardiorrespiratórios permitiu identificar padrões que facilitam a procura de soluções médicas no tratamento destas patologias por parte dos profissionais de saúde.
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Depois existem ainda outros projectos que se destacam por procurarem ter um impacto directo na comunidade local de cada Júnior Empresa. Aqui, por exemplo, destacar um dos projectos levados a cabo pela ISEG Junior Business Consulting em parceria com a Junta de Freguesia de Campo de Ourique, no qual realizaram um conjunto de conferências sobre literacia financeira podendo assim os fregueses, de forma gratuita, compreender alguns dos conceitos básicos de finanças com que têm que lidar no dia-a-dia enquanto cidadãos com registo fiscal e actividade económica. Outra iniciativa bastante impactante para a comunidade estudantil, neste caso maioritariamente da Universidade do Porto, é o FJC Porto de Emprego, que consiste na maior feira de emprego realizada integralmente por estudantes, organizada pela FEP Junior Consulting, e que é já um marco na região por ocorrer consecutivamente há mais de 20 anos, com o apoio de empresas como a Sonae, a pwc ou a Deloitte! Isto mencionando aqui apenas alguns que me estão a surgir, contudo existem muitos outros de assinalável interesse!

“Sentimos que o nosso dever está sobretudo em garantir que nas instituições de ensino do interior do país há igualmente a oportunidade integrar uma actividade extracurricular tão rica quanto a esta de ser Júnior Empresário”

No caso concreto da região de Coimbra o Movimento Júnior está também bastante bem desenvolvido. Ao longo deste mandato a cidade de Coimbra acolhido dois dos maiores eventos nacionais do MJ, certo?

Michael NunesSim, o distrito de Coimbra conta com três Júnior Empresas pertencentes a três instituições de ensino diferentes, a FEUC (JEEFEUC), a FCTUC (jeKnowledge) e o ISCAC (ISCAC Junior Solutions). E conta ainda com um crescente número de organizações com potencial de vir a ser Júnior Empresas, que classificamos como Júnior Iniciativas. No início do nosso mandato assumimos que pretendíamos descentralizar os nossos eventos nacionais das grandes cidades. Felizmente contámos com a colaboração tanto da jeKnowledge como da JEEFEUC para, em dois momentos distintos, trazer um Congresso Nacional de Júnior Empresários, (que denominamos pela sigla inglesa JENC) a uma cidade que além de uma singular tradição académica teve e tem um papel determinante na génese do Ensino Superior em Portugal e na própria Europa. Foram dois fins-de-semana, um deles em Novembro e outro em Fevereiro, onde acederam à cidade de Coimbra mais de 300 Júnior Empresários de todo o país para assistir a momentos de debate, formação pessoal, mas também convívio e networking. Graças ao empenho das Júnior Empresas organizadoras, mas também ao apoio das empresas da região, da Câmara Municipal de Coimbra e da própria Universidade de Coimbra, ambos os eventos se revelaram um verdadeiro sucesso. Em tom de brincadeira costumamos dizer que a cidade nos acolheu tão bem, que tivemos de repetir a sua localização por duas vezes!

E no interior do país, vêm com preocupação a menor existência destas oportunidades? O que tentam fazer no sentido de o combater?

Michael Nunes – Infelizmente vivemos num país cada vez mais centralizado na faixa litoral, nomeadamente nas grandes cidades, onde inevitavelmente há um crescente número de oportunidades. Enquanto Federação Nacional apercebemo-nos que este êxodo dos jovens para os grandes centros urbanos ocorre maioritariamente aquando da sua entrada no Ensino Superior, estabelecendo relações que os impedem de regressar às suas origens. O problema é de uma natureza bastante complexa, no entanto, enquanto Federação Nacional, sentimos que o nosso dever está sobretudo em garantir que nas instituições de ensino do interior do país há igualmente a oportunidade integrar uma actividade extracurricular tão rica quanto a esta de ser Júnior Empresário. Com todo o dinamismo que depois a Júnior Empresa também é capaz de trazer ao território. Actualmente estamos já presentes na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e na Universidade da Beira Interior. Ainda assim, existe ainda uma imensidão de instituições de ensino e cidades onde poderemos chegar, pelo que temos actualmente uma estratégia de expansão pró-activa que procura identificar jovens potencialmente interessados em fundar uma Júnior Empresa nestas instituições e, assim, levar até elas as oportunidades desta rede mundial de Júnior Empresários

Há um reconhecimento das Júnior Empresas nacionais no panorama internacional, nomeadamente Europeu, de onde o Movimento é originário?

Rodrigo Neves Portugal tem vindo a ganhar cada vez mais preponderância a nível internacional dentro do Movimento Júnior. Por um lado, temos dado muitos passos nesse sentido quer por parte da JE Portugal quer por parte das nossas Júnior Empresas, mas por outro as próprias Júnior Empresas pelos seus próprios méritos têm vindo a trazer muito reconhecimento para o nosso país. Dois exemplos: uma o facto de a nossa International Manager, Matilde Oliveira, ser a General Assembly Delegate da JE Europe, sendo assim a responsável pelo contacto entre a JE Europe e todas as confederações nacionais e a segunda sendo a organização de eventos internacionais por parte de Júnior Empresas Portuguesas. Caso este da Iscte Junior Consulting e da ISEG Junior Business Consulting que em conjunto, no mês de Maio, organizaram a JEE Spring Conference que trouxe mais de 200 Júnior Empresários a Lisboa. Em relação à segunda parte é notável realmente o trabalho das Júnior Empresas! Este ano, nos JEE Excellence Awards, que premeiam as melhores Júnior Empresas a nível europeu, tivemos uma Júnior Empresa finalista em cada prémio tendo até a JUNITEC ganho o prémio de Júnior Empresa do Ano.

Foram anos de absoluta aprendizagem através de trabalho realizado em áreas que nunca tinha ouvido falar como também através de ter sido colocado em situações completamente fora da minha zona de conforto na altura. Por exemplo, apenas com 19 anos estava a negociar contratos com empresários para projectos de consultoria, coisa que normalmente apenas sócios de empresas realizam.

Quanto à JE Portugal, enquanto Federação Nacional, procura também ter um impacto na tomada de decisões políticas nacionais?

Rodrigo Neves –A JE Portugal, enquanto organização que aglomera todas as Júnior Empresas, tem assim duas responsabilidades principais. Por um lado, apoiar o desenvolvimento das Júnior Empresas e da Network, tendo como objectivo termos mais Júnior Empresas cada vez melhores e mais capazes, impactando assim o desenvolvimento de mais jovens. Por outro lado, a representação dos interesses das mesmas não só a nível nacional como internacional. Somos assim a ponte entre elas e os Órgãos onde estamos presentes como é o caso do Conselho Nacional da Juventude, da JE Europe (federação europeia) e até a JE Global (federação global). Além de mim e do Michael, a equipa é ainda constituída pela Margarida, pelo Sérgio e pela Matilde integralmente dedicados ao trabalho da Federação, tendo cada um de nós competências específicas alocadas, onde desenvolvemos a nossa actividade diária. Em algumas destas competências podemos ainda contar com a colaboração de Managers, que paralelamente estão a desenvolver trabalho nas suas Júnior Empresas.

Procuram também ter um impacto na tomada de decisões políticas nacionais que influenciem a comunidade, nomeadamente os jovens?
Michael NunesSim, ainda que arredados de ideologias partidárias, procuramos ter um papel ativo junto dos órgãos institucionais onde nos fazemos representar, como o Conselho Nacional da Juventude, a FNAJ, a FAJDP entre outros… ou das comissões e conferências onde somos convidados a participar. A nossa ação, ainda que seja abrangente aos vários temas em debate, recai sobretudo sobre assuntos que se relacionam directamente com os interesses dos jovens e do ensino, nomeadamente em matéria de empregabilidade jovem, ensino superior, empreendedorismo ou literacia em sociedade.  A título de exemplo, ao longo deste mandato versámos contributos sobre o Orçamento de Estado 2023, a Revisão Constitucional que se encontra em curso ou a alteração da lei referente à regulação das ordens profissionais.

Estando neste momento em fim de mandato, em jeito de balanço quais consideram terem sido as maiores conquistas? E que perspectivas para o futuro? Existe algum desafio maior a destacar?

Rodrigo Neves –Fazendo um balanço deste ano diria que foi um ano bastante positivo, de grande crescimento em várias das áreas de importância para a JE Portugal. A nível interno à network, trabalhamos na melhoria das Júnior Empresas otimizando o nosso processo de auditoria e aumentando o nosso nível de exigência no mesmo. A nível externo foi um ano em que aumentarmos expressivamente a nossa representação a nível institucional e internacional, mas também a nível empresarial, tendo contado com empresas de renome como jurados nos jeniAL Awards.

Mas, como sempre, existe ainda muito a fazer. A nova direcção terá o desafio de continuar e melhorar o trabalho desenvolvido até hoje. Muitos dos desafios que irão ter vão passar pelos mesmos que nós enfrentamos sendo que, na minha opinião, o foco deverá estar em disseminar o conceito pela sociedade em geral, dando a conhecer, a nível nacional, o que é uma Júnior Empresa e as mais valias de se ser um Júnior Empresário.

E se quem estiver a ler esta entrevista tiver ficado interessado em fundar uma Júnior Empresa na sua faculdade, quais os passos a seguir?

Rodrigo Neves – Os passos a seguir são bastante simples. O primeiro é juntar um grupo de alunos que esteja interessado em abraçar este desafio. De seguida deverão contactar a JE Portugal através do nosso website e marcar uma reunião connosco de forma a conhecerem melhor a JE Portugal e os passos a seguir. Para estes passos que menciono que são, por exemplo, a formalização da associação e o desenvolvimento de alguns processos internos. Estejam descansados que para esta fase que parece mais complicada vão ter uma pessoa da JE Portugal alocada a vocês disponível para vos ajudar em tudo o que for preciso.
 
Estando ao fim destes anos a terminar o vosso percurso no Movimento Júnior, paralelamente à conclusão dos vossos ciclos de estudos, numa perspectiva mais pessoal, quais as mais valias que retiram desta participação?

Rodrigo Neves – Passados 4 anos envolvido neste Movimento posso afirmar que muito daquilo que sou hoje deve-se maioritariamente à educação que me foi transmitida, mas também a estes anos de trabalho intenso. Foram anos de absoluta aprendizagem através de trabalho realizado em áreas que nunca tinha ouvido falar como também através de ter sido colocado em situações completamente fora da minha zona de conforto na altura. Por exemplo, apenas com 19 anos estava a negociar contratos com empresários para projectos de consultoria, coisa que normalmente apenas sócios de empresas realizam. Importa também mencionar as pessoas que se levam desta experiência, pessoas que tal como eu fizeram mais do que apenas o curso e todos os dias tinham trabalho extra, pessoas que foram importantes para aguentar tempos mais stressantes e a quem tenho de por isso agradecer.

Michael NunesEstes 3 anos no Movimento Júnior foram sinónimo de muita aprendizagem, tanto numa vertente mais técnica associada aos projectos desenvolvidos e às metodologias utilizadas como numa vertente mais interpessoal, associada ao trabalho em equipa, à discussão de ideias e à resolução de problemas. A capacitação que experienciei leva-me a reconhecer que sou hoje uma pessoa mais empreendedora no meu local de trabalho e na comunidade onde me insiro. Por outro lado, e não menos importante, tenho também a destacar as pessoas admiráveis que conheci e os momentos de convívio e amizade que vivenciei, que guardarei com terno agradecimento e alguma saudade.

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