Comecemos por assinalar que a ONU / FAO consagram 2026 como o “Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores” ou dos “Pastoralistas”. Para, também assim, “sensibilizar e promover o valor das pastagens e do pastoreio sustentável, bem como defender a necessidade de fortalecer ainda mais a capacidade do setor da pecuária pastoril e aumentar o investimento responsável neste setor”. Ora aí estão uns justos e meritosos objectivos da efeméride.
No caso dos Pastores e no enquadramento da nossa tradição de Ovinos (ovelhas e cabras), o “amor” à sua actividade tem sido “temperado” com bastante suor e muito sacrifício também. Quase sempre, por muitos mais anos seguidos do que os sete do pastor Jacob que amava Raquel filha de Labão, como rima e descreve o conhecido soneto de Camões.
Trabalho especializado. Ocupação permanente. Para quê ?
Entretanto, a vida e o trabalho desta pastorícia ainda tradicional, não são exactamente coincidentes com a visão idílica dos poetas e outros românticos ainda que de grande talento. Sobretudo se tais trabalhos se prolongam pela produção de Queijo e de Requeijão que a Manteiga de Ovelha, para venda, já lá vai. Agora, há alguns Pastores que têm passado para a produção do Borrego (DOP ou não) que, afirmo, o Borrego de Ovelha Bordaleira – a raça “autóctone” da Região – é das melhores carnes domésticas que conheço!
Pastorear o Rebanho e tirar o Leite às Ovelhas é, por assim dizer, o “primeiro turno” do trabalho diário. E fazer Queijo e Requeijão (na época da respectiva produção) é o “segundo turno” diário que a “ferrada” (vasilhame com o Leite ordenhado também ao fim da tarde ou início da noite) vem criar essa necessidade até se espremer e enfaixar a massa (diária) do Queijo. Ou seja, nestes casos, é uma actividade contínua que vai desde as seis horas da manhã até às 23 da noite, com esta última fase assegurada mais pelas mulheres queijeiras.
Pelo meio, há ainda que semear os prados que há já umas décadas que os Pastores e as Pastoras têm que manobrar os tratores nessa tarefa, Até há décadas atrás, os Pastores não praticavam a agricultura de “produção vegetal” sistematicamente. Agora, em geral, não há quem lhes prepare as Pastagens para eles assegurarem o “maneio” e a alimentação “natural” dos Rebanhos ou seja, têm que ser eles e seus familiares a fazerem esse serviço de agricultores… A última “invenção” que lhes facilita um pouco a vida e o trabalho é o tal “pastor eléctrico”, quer dizer os fios eléctricos (de baixa voltagem) ligados a bateria, e que colocam a rodear um determinado pasto onde os animais permanecem sem saírem de lá que apanham (pequenos) choques eléctricos se o tentarem. Ressalva-se o cuidado especial com o “alfeire” (ou alfeiro), aquele conjunto que deve ficar isolado do resto do rebanho e onde se mantêm as ovelhas prenhas ou com crias pequenas, isto no caso dos rebanhos da Região. E alguns Pastores já instalaram ordenhas mecanizadas junto ao ovil (curral ou “malhada”) o que também reduz dificuldades e tempo nas duas ordenhas diárias mas aumenta os custos da exploração pecuária pois a mão de obra familiar, por norma, não é contabilizada enquanto que são caras as máquinas de ordenhar e a energia que as move…
Ou seja, o Pastor não tem que estar permanentemente junto das suas Ovelhas que os Lobos também já os não há, embora muitos rebanhos continuem a ser acompanhados pelos corpulentos cães-pastores embora de hoje em dia aliviados das formidáveis coleiras metálicas eriçadas com bicos.
Porém, ao mesmo tempo, a transumância generalizada que se praticava entre um a dois meses no Verão – ida para a Serra dos Rebanhos (em alavões) – já pouco se pratica pelo que as Ovelhas ficam “em casa” 365 dias no ano. Não, não, nestas lides exigentes não há tempo para férias…
Com atrair as novas gerações para a Pastorícia de tipo familiar ?
Como consequências que convém evocar, um jovem a partir dos 16 anos não pensará facilmente em querer vir a ser pastor a cuidar de rebanho. É que mesmo na sua aldeia, ele vê os amigos da mesma idade a saírem para lazer ou recreio ao fim de tarde, após qualquer atividade diária que tenham, enquanto que ele, vai continuar “preso” ao rebanho mais umas horas e durante todo o ano… E que jovem mulher, sobretudo se não vier de família de pastores, encara de vontade espontânea casar-se e constituir família com um pastor ? É que se se puser a ver bem o caso, vai concluir que, casada com um pastor, vai assinar a passagem para uma vida trabalhosa, com diárias de umas 16 horas em actividade e durante grande parte do ano. A que depois irá juntar o dia a dia do trabalho dito “doméstico”, incluindo com a filharada que venha… E os rendimentos, e os rendimentos com tamanha “canseira”?…
De facto, é toda uma actividade que merece um rendimento bem maior do que aquele que normalmente obtém ! Eis pois a grande questão:- como assegurar mais rendimentos aos Pastores e Produtores de Queijo, e a suas Famílias ?!
Enfim, as ajudas públicas dão uma ajuda mas não o suficiente, pelo menos para já. E as “Feiras” e “Festas” anuais a pretexto do Queijo da Serra, elas animam mas não resolvem. E o preço do Queijo, na produção, é bastante mais baixo que nos mercados instituídos. Então que fazer?
Poderemos abordar este assunto em próximo artigo.
Março de 2026
João Dinis, Jano
