Os moradores resistem à degradação das habitações, desejam mais do poder local, mas dizem não querer arredar pé dali.
O incêndio que no início do mês desalojou uma octogenária da Quinta da Coitena, na freguesia da Bobadela, deu o sinal de alerta para a realidade que marca o dia-a-dia das quatro pessoas – um casal e duas idosas – que continuam a resistir ao passar dos anos e à degradação das suas casas.
A dois passos da cidade de Oliveira do Hospital e a outros tantos da sede de Freguesia, a Quinta da Coitena – com excepção da habitação ocupada pelo jovem casal – ostenta um cenário de miséria já pouco visto nos dias que correm. Paredes caídas e outras em vias de ruir, pequenos casebres cobertos com chapas velhas pintam um quadro pouco colorido, sobressaindo contudo as três casas ainda ocupadas por moradores que, por intervenção própria têm conseguido manter de pé, destacando-se também as benfeitorias, como a canalização de água, adaptação de casas-de-banho, instalação da luz eléctrica e até de telefone. Continua contudo a faltar o encaminhamento das águas residuais domésticas para a rede de saneamento básico. “Vai tudo para os quintais”, revelou uma moradora.
Moradores desejam mais atenção do poder local
Tal como acontece com a septuagenária que mora mais abaixo, o casal não considera estar abandonado na Quinta da Coitena, porque também – como contou Maria Alice – nunca pediu nada a ninguém. De tempos a tempos vão recebendo uma ajuda em géneros alimentícios por parte da Segurança Social e até a cadeira de rodas com que se move em casa lhe foi doado pelos serviços de acção social. Quanto ao facto de os senhorios nunca terem feito melhorias nas casas, contam que tal significaria um acréscimo nas rendas e lembram, com amargura, o processo que mantiveram em Tribunal por os proprietários pretenderem despejar os inquilinos daquelas casas. Porque, a única certeza dos quatro moradores da Quinta da Coitena é de que, enquanto puderem, querem permanecer nas casas onde nasceram, foram criados, constituíram família e criaram os filhos. Pese embora, a resignação a que se sujeitaram os quatro moradores da Coitena, não deixam de criticar a postura dos responsáveis políticos que “nunca” por ali passam, nem sequer dão ordens para – como disse uma moradora – mudar a lâmpada do poste de iluminação pública. Já para não falar do contentor do lixo que – segundo referiu – insistem em manter do lado oposto da principal via de acesso à Bobadela, obrigando os moradores a atravessar a estrada.
“Não lhe sei dizer como está agora Oliveira do Hospital”
Têm perfeita consciência de que vivem num mundo “à parte”, uma realidade que facilmente constatam com um olhar sobre os prédios que sobressaem na cidade. O carteiro fica-se pela entrada da quinta, onde se encontram as respectivas caixas de correio e, por ali, só passam os carros do jovem casal de que são vizinhos. Valorizam o facto de estarem num local sossegado, onde não são habituais sinais de vandalismo e sempre vão recebendo as visitas de familiares que, de hora em quando, os levam até à cidade. Menos sorte tem Maria Alice que, por estar entregue à cadeira de rodas só vai à cidade de ambulância e quando é necessário tratar de algum assunto relacionado com a saúde. “A mim faz-me muita confusão quando saio daqui para fora. E, se me perguntar, não lhe sei dizer como está agora Oliveira do Hospital”, rematou.
Liliana Lopes