Correio da Beira Serra

Portugal teve em 2024 o ano com menos incêndios desde que há registo, mas mantém fragilidades persistentes, como o abandono de terras e a falta de gestão florestal

Dois incêndios activos em Nelas, depois de extintos os de COIMBRA E GUARDADois incêndios activos em Nelas, depois de extintos os de COIMBRA E GUARDA

Apesar dos indicadores positivos, relatório da AGIF alerta para fragilidades persistentes, como o abandono de terras e a falta de gestão florestal, que colocam em risco os avanços alcançados desde 2017.

O “Relatório de Actividades do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais 2024”, entregue esta terça-feira à Assembleia da República e esta quarta-feira ao Governo, apresenta um balanço ambivalente. A Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) destaca que 2024 foi o ano com menor número de incêndios desde que há registo, resultado das estratégias de previsão, conhecimento e prontidão operacional adoptadas a partir de 2018. Contudo, os dados revelam também vulnerabilidades estruturais que comprometem o objectivo de alcançar um “Portugal protegido de incêndios rurais graves” até 2030.

O relatório, consultado pelo PÚBLICO, sublinha que apesar do esforço colectivo na redução do número de ignições e da frequência de grandes incêndios, persistem problemas em regiões como o Norte e o Centro Litoral, onde o abandono agrícola e a escassa gestão agroflorestal agravaram os efeitos de reacendimentos e falhas no ataque inicial. Em 2024, registaram-se 16 vítimas mortais — nove operacionais, quatro em queimadas ou por doenças súbitas e três vítimas directas —, dezenas de habitações e unidades industriais destruídas ou danificadas, 138 mil hectares de área ardida e perdas estimadas em 67 milhões de euros na floresta.

Para a AGIF, a leitura dos dados exige uma acção reforçada no campo da prevenção estrutural. O investimento público tem crescido — passou de 28 milhões de euros em 2017 para 354 milhões em 2024 —, mas os projectos estruturantes previstos no Plano Nacional de Acção 20-30 (PNA) requerem maior coordenação política. Entre as medidas prioritárias estão a revisão do regime sucessório, dos mecanismos reguladores da propriedade rústica, do regime florestal e da legislação relativa aos cortes.

“O país confronta-se com o paradoxo do fogo”, adverte a agência. A redução de ocorrências e de área ardida pode, paradoxalmente, conduzir a um aumento de risco se não forem realizadas intervenções pós-fogo em larga escala. O relatório chama a atenção para a acumulação de vegetação fina e arbórea nos últimos sete anos, que poderá alimentar incêndios mais rápidos e severos e levar, num cenário extremo, à destruição de mais de 750 mil hectares num único ano.

Desde 2017, os quatro objectivos estratégicos do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais — valorização económica do território, cuidado com os espaços rurais, mudança de comportamentos e lições aprendidas — orientam a acção pública. Segundo a AGIF, 48% dos 97 projectos previstos até 2030 estão já em execução. O progresso é reconhecido por organizações internacionais: um relatório recente da OCDE destaca que o modelo criado após os incêndios de 2017 “melhorou significativamente o quadro institucional para a gestão dos fogos”.

Ainda assim, o mesmo documento da OCDE sublinha a complexidade do problema e a necessidade de o Governo manter um papel central, tanto na coordenação financeira e operacional como na mobilização do sector privado e das entidades locais. Para a AGIF, esse envolvimento transversal é essencial para consolidar os avanços e evitar que os erros de 2017 se repitam.

Redução sustentada das ocorrências

Área ardida

Meteorologia e causalidade

Impacto económico e vítimas

Distribuição regional

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