Começar por (re)dizer que são trágicas as piores consequências humanas e sociais dos Incêndios Florestais e Rurais que martirizaram a nossa Região, a 15 e 16 de Outubro passado.
De facto, Populações inteiras ficaram abandonadas toda uma noite “inacreditável”, durante sete ou oito horas seguidas de medos, angústias, dramas e tragédias. Sem energia eléctrica na rede, sem água pública na rede, sem (tele)comunicações que até as estradas ficaram intransitáveis, sem “protecção civil”… Dentro de um “ciclone de fogo” !
Dizer, a seguir, que são desastrosos os prejuízos provocados pelo flagelo nas Actividades Sócio-Económicas, na Natureza, no Ambiente e em Recursos Naturais, na Indústria, na Agricultura e na Pecuária, na Floresta, a começar pela mais tradicional, na Fauna e na Flora silvestres.
Sim, logo após os nefastos acontecimentos dessa noite, de imediato se acelerou a solidariedade de múltiplas formas e de múltiplas proveniências, nomeadamente privadas. E sim, o concelho de Tábua, por exemplo, tem sido testemunha de uma enorme campanha de solidariedade “privada”, de base local. E na Região Centro, uma Entidade, de natureza privada e “sem fins lucrativos”, tem estado na linha da frente da reconstrução e a fazer mais e mais rápido que as próprias Instâncias Governamentais.
E sim, até agora, toda essa imensa solidariedade tem sido a base do renascer de esperança, de estruturas e recursos. Tem sido a base do renascer de vidas !
Perante a dimensão e os impactos, brutais, da tragédia e do desastre, as várias Entidades institucionais, a começar pelo Governo, acompanharam, pudera, com permanentes declarações de programas e de intenções de programas supostamente destinados a acudir às emergências, no curto e no médio prazos.
Diremos que programas e boas intenções não são de mais mas aquilo que nos interessa, agora, é “ver para crer” ou seja, cabe perguntar, onde estão as obras e a concretização de tanta (boa) intenção oficial ?!
Sobre Pedrógão já lá vão seis meses…sobre o 15 de Outubro já lá vão mais de dois meses e entrámos no Inverno que costuma ser frio e chuvoso…
Acuso de “burocracias” e de lentidão inadmissível as Entidades responsáveis, a começar pelo Governo e pela CCDRC mas também pelas Câmaras de Municípios dos mais flagelados.
Passo a falar sobre o que melhor conheço porque, em primeiro lugar, eu “estive lá”, na fornalha “global” desses Incêndios e sobrevivi (com sorte, como se diz…). E porque, a partir daí, tenho acompanhado o “rescaldo” quase diariamente.
Pois, numa situação tão excepcional a reclamar medidas de facto excepcionais – mas rápidas e eficazes – deixam que a burocracia impere e, ainda assim, perdem o controlo de “coisas” concretas que se desenrolam no terreno. Neste âmbito, são até “sujeitos passivos” em situação de conforto relativo e sofrem de entorses várias provocadas por “burocracia mental” que é a pior de todas as formas de burocracia!
Em especial, o Ministério da Agricultura armou uma confusão quase permanente em torno das ajudas ditas “simplificadas” (até aos 1 053 Euros e daí até 5 000 Euros) aos pequenos Agricultores. Chegou a ter bloqueadas as candidaturas aos apoios – acima dos 5 000 euros – à Agricultura e à Floresta. Enquanto isso, recusa prolongar os prazos de candidatura dos Agricultores e Produtores Florestais afectados a vários programas e medidas de apoio. Esperamos agora, mas agindo, que não tardem mais estas Ajudas prometidas pelo Ministério da Agricultura.
Câmara Municipais há que entraram em autêntico “apagão” no pós-incêndios talvez a seguirem o (mau) exemplo da EDP e da MEO/Altice. Outras há que entraram em “frenesim” verbal e em corrilórios para aqui, ali e acolá, assim tipo “vou a todo o lado por não saber bem onde quero ir”…
Falo agora em Oliveira do Hospital…
Falando do meu Concelho que é Oliveira do Hospital, aqui afirmo que, apesar de todas as “promessas” e “vias sacras”, o facto é que os desalojados, pelo Fogo, de Habitação própria, sim, foram realojados mas, salvo algumas excepções por motivos muito específicos, continuam sem ver a habitação própria a ser recuperada como já devia estar a sê-lo, passados que são dois meses e já em início de Inverno ! Ao que também se sabe, a “promessa” transitou já – o que é lamentável e aqui se denuncia – para um início das obras de recuperação das Habitações queimadas “lá para Fevereiro do próximo ano” ?!…
Aqui afirmo que, apesar de todas as “promessas”, os Produtores Pecuários (Pastores) – principalmente de Ovelhas – ainda não sabem como (e por quem) vão ser devidamente reconstruídos os seus currais (ovis) e outras estruturas “queimadas”, nem sabem bem como vão refazer os seus Rebanhos. Aliás, têm sido eles próprios a terem de se “desenrascar” que os Animais também não podem ficar “na rua” ao frio e à chuva. E, depois, as Entidades Oficiais e Locais vêm para cá “encher a boca” a falar e a comer Queijo Serra da Estrela…
E quanto à nossa Floresta mais tradicional que ardeu em substância ? Pois aquilo que se sabe é (quase) nada !…
Entretanto – objectivamente – há manifesto tratamento discriminatório entre os afectados pelos Incêndios, consoante a hora e o local onde se encontravam e se encontram quando chegaram e chegam algumas Ajudas. Sim, a falta de controlo e até de “simples” coordenação institucional, origina confusão, desenrascanço e tratamento diferenciado entre aqueles que (mais) sofreram com o flagelo.
Conheço casos em que uma determinada Junta de Freguesia apoiou as Pessoas desta e daquela formas concretas…mas outra Junta, e bem perto, já não o fez. Porquê ? Porque, de facto, não tem havido grande controlo do processo, o que também origina falta de transparência na distribuição de algumas Ajudas e origina descontentamentos vários mais ou menos justificados. Aqui, a “coisa” boa a acontecer é que não há a tal “burocracia mental” que, a “desenrascarmo-nos”, continuamos a ser bons…
E sim, as “burocracias” mais visíveis, e que aparecem em situações tão terríveis como esta foi e é, levam a que se enverede, “ruidosamente”, por manifestações “coloridas” e já rotineiras de “solidariedades” várias que até podem ter o seu lugar e até têm a sua importância. Mas, que se não exagere ! Entretanto, muito convém, até por razões de credibilidade, que sejam publicitados os resultados concretos dessas expressões de solidariedade activa, portanto, muito convém que haja “prestação de contas” e publicamente…
A reconstrução das Indústrias, severamente afectadas, “vai-se fazendo” de forma provisória que, espera-se, não venha a dar em definitiva. Ainda assim, a reconstrução acontece sobretudo à custa dos enormes esforços de cada um desses Industriais afectados e também à custa das expectativas – da instabilidade – dos seus Trabalhadores que receiam pelo posto de trabalho. A Indústria, em geral, até dispõe de razoáveis programas de apoio. Oxalá, não venham a faltar as verbas apregoadas pelo Governo (e pelas Seguradoras) e oxalá as várias “burocracias” não compliquem ainda mais tudo aquilo que já está muito complicado…
Sim, são as “burocracias mentais” que mais paralisam – por rotina de comportamentos e inércia mental – a tomada célere e eficaz das medidas mais operativas e capazes de, afinal, reconstruir sem hesitações mas com sabedoria, peça a peça, aquilo que ficou destruído, incluindo os ânimos e energias das nossas Gentes e a Natureza !
Por exemplo, as burocracias e os burocratas “de serviço” paralisam:
– A rápida reconstrução das Habitações destruídas pelo Fogo – a reconstrução dos Currais e dos Ovis para os Gados e as Palheiras e outros Armazéns da Agricultura – a reposição dos efectivos dos Rebanhos – a fixação dos Solos percorridos pelos Incêndios para evitar que “escorram” para dentro das Linhas de Água e as poluam – a definição, já, de um correcto Ordenamento do Território e da Floresta em particular o que, na Região, também implica pôr ponto final em “monopólios” pseudo-associativos, aliás muito controversos.
– Paralisam a correcção de graves entorses da chamada “Protecção Civil” que deve “descer” até ao nível de cada Povoação e não impõem a obrigatoriedade da PT pôr postes em cimento ou fazer passar os cabos das suas telecomunicações por calhas subterrâneas…
– E que também paralisam “coisas” tão simples mas tão preciosas como o repovoar dos nossos campos e matas, marcados agora por silêncios fúnebres, com a passarada e os (pequenos) animais do campo que desapareceram ou mortos ou fugidos – como o preservar de várias espécies de Árvores de fruta ou não – como o evitar-se o “massacre” de espécies tradicionais de Peixes dos nossos rios e que, agora, estão a ser vítimas indefesas (envenenadas) das “lamas” que escorrem dos terrenos percorridos pelos Incêndios…ou que estão a ser comidas por predadores aquáticos (introduzidos) que sobem pelas águas acima desde a Barragem da Aguieira… Ah ! O “problema” é que esses peixitos nem votam nem vão falar à televisão…e o presidente Marcelo ainda não faz “sermões aos peixes”…
É, os burocratas “de serviço” – mesmo os mais “frenéticos” – não são capazes de ter olhos e cabeça para verem e para reconstruírem estas “coisas simples”… Enfim, talvez por estas serem tão importantes e preciosas como até são !…
Hoje é Dia de Natal e vem aí o Novo Ano. Para mim, significam renovação e esperança.
E foi a chuvinha tranquila a melhor “prenda” que nos trouxe o Pai Natal, nesta noite natalícia de 2017.
