Correio da Beira Serra

Santa Margarida – em devoção festiva  –  Vila Franca da Beira. Autor: João Dinis Jano

Este ano de 2026 decorreu – a 14 e 15 de Agosto – a tradicional “Festa de Santa Margarida” (a de Antioquia) em Vila Franca da Beira.  Trata-se de um evento tradicional de matriz religiosa, católica, que também inclui passagens festivas.      E assim voltou a ser.

A organização tem estado a cargo da “Comissão da Capela de Vila Franca da Beira” e tem contado com o apoio de outras Entidades para além, claro, do envolvimento da População residente e visitante, crentes e não crentes.

É, pois, uma celebração que hoje poderemos sintetizar, inspirando-nos no saudoso Papa Francisco, como sendo de “todos, todos, todos”.  Avé !

Neste contexto, de nossa parte cumpre expressar uma espécie de “declaração de interesses” pessoal:- se nos perguntarem se acreditamos na Santa Margarida, diremos que sim, que acreditamos…porque vemos lá as pessoas a acreditarem Nela. Isto em termos de “fé” porque em termos comportamentais, objectivos, nós fazemos por estar fisicamente na celebração colectiva que se repercute a nível individual ou seja, a “Festa da Santa Margarida” produz efeitos a nível do meu próprio comportamento e isto para além da minha atitude, à partida.

Por sinal, a actual Capela da Povoação e Freguesia, foi consagrada a Nossa Senhora da Imaculada Conceição, uma Santa do chamado “Culto Mariano” (da Virgem Maria e Mãe de Jesus) e foi benzida em Fevereiro de 1891 (há mais de 135 anos).  Foi este um acto solene aprovado e sancionado previamente pelo Bispo de Coimbra da época. Há disso abundante documentação específica transcrita na obra “Monografia de Vila Franca da Beira” da autoria do nosso conterrâneo, José Marques Lopes ou “Zé Vicente”.  E não temos conhecimento que, entretanto, tenha havido alguma modificação a este aspecto fundador daquele espaço de celebração da fé, acto que tem uma legitimidade canónica, podemos dizer, semelhante à do baptismo católico, individual.

Santa Margarida – a virgem mártir que em humana também foi Pastora e como Santa é a Padroeira de Vila Franca da Beira.

Santa Margarida e sua devoção (cristã) específica é, porventura, o mais poderoso elo de ligação espiritual ente a População de Vila Franca da Beira e, nesta, entre os Vilafranquenses, incluindo os da diáspora. É assim há séculos, e assim vai continuar a ser.

É uma força anímica e espiritual que fez erigir e consagrar a primitiva Capela, essa sim, a “Capela de Santa Margarida”, afinal a Santa da devoção e a Padroeira e Orago de Vila Franca da Beira.

A pouco consensual passagem, entre os que a viveram em finais do século XIX, dessa primitiva Capela de Santa Margarida, desde o Cimo do Povo, situada que foi onde agora está o Largo do Cruzeiro, para o local onde construíram a atual Capela, esta consagrada, repete-se, a Nossa Senhora da Imaculada Conceição, constituiu uma “marca” de discórdia e divisão entre os Vilafranquenses, acirradas pelos padres e aspirantes a caciques dessa época. Nós costumamos até dizer que é um problema íntimo de Vila Franca da Beira que ainda hoje não está resolvido embora, na espuma dos dias e dos anos transcorridos, tenha perdido a veemência original.

Na sua já referida “Monografia de Vila Franca da Beira”, José Marques Lopes aborda o problema. E, entre quem a conhece, a murmurada “maldição da Santa Margarida” que, no imaginário popular local, recai sobre Vila Franca da Beira, demonstra bem a “violência” intrínseca desse mesmo problema e da crença que encerra. Basicamente, essa “maldição” transforma até uma Santa Margarida Padroeira e Orago, em Santa despeitada e chantagista. Grave emanação psicológica e mental dessa original e muito privativa discórdia entre Vilafranquenses…

Missa  –  Procissão  –  Festa  – 15 de Agosto ( e véspera).

A comemoração anual que concentra a “fé” em Santa Margarida, em Vila Franca da Beira, ocorre a 15 de Agosto talvez porque este dia é “Dia Santo”, há séculos.

A parte litúrgica consiste numa Missa ou Celebração seguida de uma Procissão na tarde de dia 15.

Tradicionalmente, a Procissão (popular) percorre um circuito a dar “a volta ao Povo”.  Este ano, voltou a percorrer uma distância 1, 2 Km, ao ritmo marcado por uma Filarmónica, com passadas cadenciadas e pouco espaçadas. Pelo trajecto, vêem-se moradores em varandas e janelas a assistir à passagem dos Andores e das Pessoas. Há colchas (bordadas) nos parapeitos e caem pétalas de flores.  Soam as orações em colectivo.  A filarmónica toca.  Avé !

E vem a parte festiva, de diversão.  Um conjunto musical contratado toca música, no Largo da Capela.  Há quem se agite a ritmo e há mesmo quem dance. Ali em frente da porta aberta da Capela. Lá dentro, com a bênção tranquila da Santa Margarida, embora “na casa” da Imaculada Conceição, repousam os Andores hoje muito decorados com centenas de Flores e que assim se mostraram durante a Procissão.  E para o ano, há mais, podem crer !

De nossa parte concluir afirmando que a nossa “crença” tem muito de humano e de Vilafranquense convicto. Respeito a Santa Margarida como os meus Conterrâneos a entendem respeitar. Por assim dizer, bebi a tradição de Santa Margarida no leite de minha mãe a qual, por sua vez, a tinha bebido no leite de minha avó e por aí fora.  E como Vilafranquense legítimo continuo umbilicalmente ligado à tradição da Santa Margarida.  Valores que tenciono transmitir a minha filhota.  Avé !

16 de Agosto de 2026

 

 

Autor: João Dinis, Jano

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