Correio da Beira Serra

Titanic – Titan  –  Jangada humana em Pylos – Autor: João Dinis

A “diferença” entre o morrer-se afogado por ter muito dinheiro…

E o morrer-se afogado para não morrer à fome ou para fugir à guerra…

 Há 111 anos, em 1912, deu-se a tragédia do naufrágio do paquete de luxo Titanic, então “gigante dos mares”, no qual morreram mais de 1 500 passageiros dos cerca de 2 400 que viajavam a bordo num cruzeiro com itinerário traçado para dar prazer a quem tinha dinheiro para o pagar ou seja, para milionários que para os Tripulantes era trabalho.

O naufrágio do Titanic continua a ser a tragédia marítima mais famosa, aliás romanceada em livros, revistas e também em cinema e em televisão, com cenas vistosas.

O  Titan  (Titã)  afinal estava “fraco”…

Há dias, aconteceu mais uma tragédia, também ela já muito famosa devido ao “massacre” noticioso a que a grande comunicação social se dedicou a pretexto.  Desta vez, foi o desaparecimento – devido a colapso funcional durante a descida até próximo aos destroços do “velho” Titanic – de um pequeno submersível, designado por Titan (Titã), especialmente preparado, diziam, para descer a grandes profundidades marítimas mas que, e também ao que se soube agora, não estava devidamente vistoriado para esse efeito.

As consequências da destruição deste Titan, a mais de 3 000 metros de profundidade, são trágicas e também impressionam mas estão muito longe da amplitude da tragédia com o Titanic.  A  maior semelhança está em que nos 5 passageiros que iniciaram descida dentro do Titan, 3 ou 4 deles também eram milionários, no caso em busca de aventura e emoções na viagem para verem “ao vivo” os destroços do Titanic.

E sim, o maior estímulo comum a motivar os “donos” destes empreendimentos, incontornavelmente, foi o “negócio” proporcionado sobretudo pelos milionários feitos passageiros, muitos (1ª e 2ª classes) no paquete Titanic, poucos no submersível Titan.  Apenas como elemento de melhor avaliação do peso específico desse factor financeiro, houve quem chegasse a pagar o equivalente a mais de 80 000 libras inglesas actuais (93 600 euros) na 1ª Classe do Titanic, paquete onde os passageiros de 3ª Classe, que não eram “turistas”, eram emigrantes carregados de filhos, foram os que pagaram (bastante) menos…  Enquanto que os 3 ou 4  passageiros-turistas subaquáticos do Titan pagaram 250 mil euros cada um  !…  Afinal, pagaram todos bastante…para ir morrer e acabar esmagados no fundo do mar !

Entretanto, para vasculhar os cenários possíveis do desastre com o Titan, e embora na (fraca) esperança de resgatar sobreviventes, foram mobilizados meios públicos e privados, dos mais sofisticados e a uma escala nunca vista.  Mas a tragédia já estava consumada!

Independentemente de outras considerações, a nós cabe-nos fazer votos em que “descansem todos em paz !” – as Vítimas do Titan e as Vítimas do Titanic !!

Deixem-me entretanto expressar uma opinião.  Considero uma autêntica “profanação de sepulturas” estas idas “turísticas” – muito bem pagas – a observar “in situ” os destroços do Titanic cuja tragédia é praticamente nossa contemporânea e ainda há familiares a lamentar as vítimas, aliás como era o caso de uma das vítimas que, agora,  seguia no Titan.

– Jangada humana naufragada em Pylos –

 Mais  uma tragédia – secundarizada – dos famintos anónimos que morrem no Mediterrâneo !

Também há dias continuou a série brutal de naufrágios de “jangadas humanas” no Mediterrâneo, um Mar menos problemático que este Oceano Atlântico Norte onde naufragou o Titanic e onde, agora, o Titan foi esmagado.  Mas um Mar Mediterrâneo que também mata sem contemplações !

A grande e mais “ignorada” diferença entre as mais de 700 Pessoas que se apinhavam na “jangada humana” que se afundou ao largo de Pylos, na Grécia, e onde as numerosas vítimas têm sido resgatadas a conta-gotas como que por favor, é que estas vítimas todas, incluindo várias dezenas de crianças, ao invés de serem “turistas” milionários, são emigrantes “à força”, desesperados como outros milhares de náufragos do tipo. A tentar fugir à fome, à doença e a à guerra, tragédias impostas às suas Regiões de origem por este sistema multinacional que nos rege !

E também como característica dramaticamente diferenciadora temos a falta de meios suficientes de salvamento e resgate mesmo quando os náufragos estão localizados !  E o acolhimento em terra ?  Como não ficar emocionado e indignado perante aquela imagem brutal do homem a chorar que, em desespero, agarra os braços de um irmão que está confinado entre umas grades a servirem de “separador” entre ambos ?!

Sim, é uma vergonha civilizacional tudo isto, onde nem a morte, trágica ou não, “consegue” ser factor de resgate (fim) das discriminações e injustiças sociais…  Mas estas mesmas tragédias humanas também são motivo de indignação !

Termino afirmando que curvo a minha cabeça em sinal de luto e pesar perante estas tragédias todas.  Mas também assumo que me choca ainda mais saber que um Ser Humano morre à fome do que saber que um Ser Humano paga 250 mil euros e acaba morto num submersível…   São, pois, estas diferenças e suas causas, a face mais escondida destas tragédias…e que importa pôr à vista desarmada !

Mas, sim, que descansem todos em paz !

Junho de 2023

 

 

Autor: João Dinis, Jano

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