O Mercado do queijo Serra da Estrela de Gouveia regressa ao formato presencial nos dias 2 e 3 Abril e o evento vai ficar marcado pela inauguração do renovado mercado municipal (investimento de 1,2 milhões de euros) e apresentação de um projecto, “simultaneamente cultural e de promoção turística”, com um investimento previsto de 750 mil euros em Vila Nova de Tazem que pretende dar a conhecer todo o ciclo do verdadeiro queijo Serra da Estrela, desde o início da produção até ao consumo. O presidente da Câmara Municipal de Gouveia refere, ainda em entrevista ao CBS, que a sua autarquia considera o queijo Serra da Estrela vital para a economia local e que tem realizado uma forte aposta na atracção de produtores com queijo certificado. “Num ano passámos de três para cinco e no próximo ano devemos ter outro”, explica. Apoia a construção de um aeroporto na região centro, mas com critério, e considera uma vergonha o que se tem feito em termos de acessibilidades, nomeadamente com o IP3 e a requalificação da EN17. “Espero é que os deputados eleitos por esta região não se olvidem das suas origens. Que não se esqueçam de onde vêm e de quem os elegeu…”, avisa Luís Tadeu que preside também à Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela.
Como está a ser vivido o regresso do Mercado em formato presencial a Gouveia?
Bem. Mas não podemos esquecer que não realizámos o Mercado na data habitual que é o Carnaval. Foi adiado precisamente porque existiam muitos casos de Covid-19 no concelho. As coisas felizmente têm estado a melhorar e resolvemos avançar com o mercado nesta data de 2 e 3 de Abril, porque era muito desejada pelos produtores e todos aqueles que vêm a Gouveia para provar, degustar e comprar queijo Serra da Estrela legítimo. É um evento que se reveste vários pontos importantes. Desde logo, o facto de podermos estar, embora com alguns cuidados, novamente a conviver e a saborear os produtos ímpares que temos no nosso território. Isto era algo que as feiras digitais dos últimos dois anos não permitiam.
Este Mercado do Queijo vai ser marcada também pela inauguração do novo mercado Municipal?
Sim, o evento terá início no sábado com a inauguração requalificado Mercado Municipal de Gouveia [uma empreitada avaliada em mais de 1,2 milhões de euros] que foi sendo adiado devido à pandemia. É este espaço que recebe todo o evento. Estamos a falar de uma área completamente renovada e requalificada onde as pessoas vão encontrar animação e comerciantes, bem como a possibilidade de visitarem os expositores, provando e adquirindo os produtos que estiverem em exibição. As pessoas vão sentir-se em liberdade para percorrer todo o evento.
Será também anunciado o projecto inédito designado “Abrigo Queijo Serra da Estrela DOP”?
É um projecto da Junta de Vila Nova de Tazem em articulação com a Câmara Municipal de Gouveia: o “Abrigo Queijo Serra da Estrela DOP”. Esta obra tem a ver com uma antiga escola de Vila Nova de Tazem que vai ser requalificada para acolher um espaço no qual as pessoas podem ver como se faz o queijo, com tudo o que existe de tradicional e também com recurso a elementos interactivos. Pretende-se que seja um espaço que dê a perceber, de forma fácil às pessoas, o ciclo da produção do queijo, desde o seu início e culminando com a prova final do produto. Queremos que os visitantes percebam o que é o verdadeiro queijo Serra da Estrela, porque muitos ainda o confundem com outros. Até por isso, se justifica este equipamento.
Como é que surgiu este projecto e qual o orçamento?
Partiu da Junta de Freguesia de Vila Nova de Tazem que propôs à Câmara Municipal, aproveitando um edifício que é do município. O investimento, que é simultaneamente cultural e de promoção turística, vai ser anunciado e vai avançar. A estimativa da empreitada aponta para valores nunca inferiores a 750 mil euros. Mas como vivemos tempos voláteis não sabemos quais os custos dentro de algum tempo.
“[Ausência de programas de televisão] Preferimos socorrer-nos da prata da casa. Das associações culturais do concelho que já demostraram e continuam a apresentar a sua qualidade”.
Este ano foi alterada a data do mercado do queijo e perdeu a Exposserra…
Normalmente, este evento seria realizado num pavilhão, simultaneamente com uma feira de actividades económicas, a referida Exposerra. Optámos por não ir tão longe. Vamos realizar o Mercado do Queijo com o enfoque em tudo aquilo que tem a ver com o queijo Serra da Estrela. Desde a parte da comercialização, passando por um conjunto de actividades sobre como aproveitar o queijo e como fazer a ligação entre este produto e a gastronomia. Vamos ter “Show Cooking” [a arte de cozinhar ao vivo] a propósito do borrego DOP, bem como da harmonização entre o queijo e o vinho do Dão. São sempre momentos importantes, não só para o produto principal do evento que é o queijo, mas também para outros produtos ligados ao sector da ovinocultura e distintos artigos endógenos que são fundamentais no nosso território. Em diferentes momentos, vamos ter a possibilidade de as pessoas presenciarem o “Show Cooking” e de saborearem. No domingo, vai haver provas de queijos de uma forma completamente livre. Vai ser também valorizado o papel das queijeiras, a quem se deve muito e nem sempre vêem o seu trabalho reconhecido.
O mercado de Gouveia corta um pouco com eventos semelhantes de outros concelhos ao afastar-se de programas de televisão. Qual é a razão?
É uma opção. Preferimos socorrer-nos da prata da casa. Das associações culturais do concelho que já demostraram e continuam a apresentar a sua qualidade. Vamos dar projecção, mais uma vez, às nossas colectividades concelhias. O objectivo é apostar nas associações culturais e recreativas locais que é algo que consideramos fundamentais para que as tradições não se percam. É uma linha que já vínhamos seguindo, mas que este ano será reforçada. Vamos intervalando os diferentes momentos que vamos tendo no programa com a actuações de grupos musicais do concelho, sejam grupos de concertinas, temos diversos, sejam grupos folclóricos. Vamos avançar com um programa que durante estes dois dias vai captar a atenção de todos. Ao contrário dos últimos anos, como não há a Exposserra que à noite tinha sempre concertos, este ano não vão existir. Vamos ter teatro, com o “Monólogo da Vacina”, com o João Baião, que, acredito, será do agrado das pessoas.
“É um orçamento que consideramos apreciável, mas inferior aos valores indicados para os eventos de Celorico da beira e Oliveira do Hospital”
Qual o orçamento deste evento?
O investimento é apreciável. De algumas dezenas de milhares de euros. Além daquilo que é investido no próprio evento, há também os apoios que damos aos nossos produtores que vão à feira. Todos eles recebem um apoio monetário e almoço. Há um conjunto diverso de acções que nos leva a um investimento avultado, mas que nós assumimos que vale a pena, não só para a promoção do produto, mas do próprio território e das suas gentes. É um daqueles investimentos que estávamos ansiosos de realizar.
Mas andará entre os 75 mil euros apontados para a Festa de Oliveira do Hospital e os 100 mil euros do evento de Celorico da Beira?
Menos do que qualquer desses valores. Ainda assim consideramo-lo significativo.
Há feiras, mas existem cada vez menos pastores e ovelhas. O que podem fazer para inverter este estado de coisas?
Tudo o que podemos fazer para promover o produto e para dar ainda mais a conhecer aquilo que é o produto e as suas mais-valias não em termos de produção, mas também na parte da comercialização que tem aspectos que podem ser abordados. Podem eliminar-se aqui algumas gorduras que ainda existam e que impedem que seja transmitido para o produtor o valor adequado. Esse é o ponto fundamental. Ninguém pode pedir a jovens que se dediquem a esta actividade difícil sem que tenham o justo retorno. É importante valorizar esta actividade para que as pessoas se envolvam nesta actividade. Não defendo as cooperativas, porque temos o exemplo dos vinhos que deu um mau resultado. Haverá outros métodos. As coisas podem e devem evoluir.
“Face à fase que estamos a viver tivemos de investir mais 50 mil euros para [produtores] compararem rações”
Mas os produtores queixam-se que os consumidores não conseguem distinguir o queijo Serra da Estrela dos outros queijos…
A Estrelacoop e a Ancose têm feito um bom trabalho. Será necessário esclarecer melhor as pessoas. Provavelmente sim. Mas aqui no concelho de Gouveia, para que os produtores não sejam sobrecarregados, é a Câmara quem paga a certificação. O custo é tão elevado que os nossos produtores nunca iriam certificar o queijo por si mesmo. E o sinal de que estamos a fazer um bom trabalho é que tínhamos três produtores a certificar queijo e este ano vamos passar a ter cinco. Há outros produtores que estão a desenvolver o seu processo e no próximo ano deverá existir mais um produtor a certificar o queijo. Quem se instale no concelho, como produtor de queijo DOP, tem logo à cabeça um apoio a fundo perdido de cinco mil euros, a que se juntam todos os outros apoios.
Como têm superado esta seca?
Com os esforços dos produtores e a ajuda possível da Câmara. Há quem pense que se faz a festa do queijo e está tudo resolvido. Não, não está. “Todo este processo de apoio a quem se dedica à actividade do queijo Serra da Estrela tem de ir muito além das festas e feiras anuais”. Nós todos os anos entregamos no mínimo 50 mil euros em apoios e incentivos aos nossos criadores da área do queijo Serra da Estrela. Agora face à fase que estamos a viver tivemos de investir mais 50 mil euros para compararem rações, uma vez que havia falta de pastos. Este valor não estava orçamentado e tivemos de o ir buscar a outras rubricas. Para nós este é um sector vital e estamos a apoiar substituindo-nos ao Estado.
“Espero que uma obra [empreitada na linha da beira Alta] prevista para nove meses não descambe para dois anos”
Um dos problemas destes territórios da Serra da Estrela e dos territórios de baixa densidade prende-se com a dificuldade de acessos. Acredita que finalmente vão existir soluções para esses problemas, numa altura em que vão entrar tantos milhões em Portugal?
A esperança é a última coisa a morrer. Estamos numa situação que é de ver para crer. O que não podemos é baixar a guarda na defesa dos interesses das populações. Outra, é conseguirmos ter essas intervenções, obras que já esperamos há demasiado tempo. Vou-lhe dar um exemplo: temos a desgraçada de uma estrada que tem anunciada uma intervenção há anos e é prometida todos os anos e nunca se concretiza. Estou a falar da Estrada Nacional 17. E quando me refiro a uma intervenção, é de uma efectiva requalificação, musculada e com resultados visíveis. Não de se taparem meia dúzia de buracos. Isso é constantemente prometido, mas o que temos todos os anos é alguns remendos. Não é isso que queremos. Não é isso que estes territórios, servidos por esta via, necessitam e merecem. O que precisamos é que a EN17, que é estruturante, servindo uma série de concelhos, seja tratada como merece, para o bem e seguranças dos utentes.
Há nesta legislatura deputados eleitos que durante os seus tempos de autarcas fizeram promessas e gritaram que haveria “guerrilha” se os projectos destes territórios não fossem concretizados…
Não vou individualizar. O que espero é que os deputados eleitos por esta região não se olvidem das suas origens. Que não se esqueçam de onde vêm, de quem os elegeu e mandatou para serem os seus representantes na Assembleia da República. É isso que aguardo.
Agora há ainda um problema suplementar com o encerramento durante nove meses da linha da Beira Alta. Como está a pensar lidar com esse problema?
Essa também e uma obra que estava prometida há anos e que finalmente virá. Ainda bem. É certo que todas as intervenções têm vantagens e inconvenientes. Mas a Infra-estruturas de Portugal estão conscientes desses contratempos e têm estado a fazer uma articulação com as Câmaras Municipais no sentido de ser, desde logo, passado para as populações as alternativas existentes e viáveis. É uma intervenção importante. Desde logo por razões de segurança, já que em termos de velocidade pouco ou nada se vai ganhar, e da capacidade de transporte. É uma empreitada longa, pesada e que, como é óbvio, vai ter inconvenientes. Espero é que uma obra que está prevista para nove meses não descambe para dois anos. Isso é que seria muito complicado.
Já foram contactados no sentido de se solidarizarem com as CIM de Coimbra e de Leiria no sentido da CIMBSE se solidarizar com o projecto de construção de um aeroporto para a zona Centro?
Ainda não fomos contactados, mas tudo o que seja investimentos e intervenções que reforcem a capacidade atractiva da região é bem-vinda. A facilitação de mobilidade, então, é prioritária hoje em dia. Penso que todas as CIM da região estarão de acordo em trazer essa infra-estrutura na área aeroportuária. Onde ela se vai localizar? Isso aí é outra coisa. A região Centro é vasta e este é um assunto para se discutir entre as entidades envolvidas nesta matéria. Era importante que houvesse articulação, não só neste caso, mas igualmente nas mais diversas áreas que nos afectam a todos.
Quer exemplificar?
O IP3 é um dos casos em que as CIM deviam estar unidas e fazer chegar em conjunto a quem decide o sentimento que temos em relação à importância desta via. É muito importante para as pessoas que ali circulam todos os dias. Para aqueles que necessitam daquela via. Como os turistas que pretendem visitar os nossos territórios, mas que muitas vezes não vêm porque dizem que para o Algarve é apenas auto-estrada. E não vemos uma solução à vista. É uma vergonha. E a questão aqui é só uma: se queremos falar de Coesão Territorial do país ou não? Se sim, então, é importante esta articulação das CIM na defesa de projectos relevantes para a região Centro. Como um todo.
A colaboração entre municípios não pode ajudar também estes territórios de baixa densidade?
E estamos a colaborar como é o caso de Gouveia e Celorico da Beira no que respeita ao canil. Este é um investimento que permitirá criar sinergias, um serviço mais efectivo e poupança para os contribuintes. Podem e devem existir mais. Mas defendo que não nos podemos circunscrever a acordos entre concelhos que confinam entre si. Temos de ir mais longe. Com projectos conjuntos no âmbito da Comunidade Intermunicipal de um conjunto de projectos que estão apresentados e que interessam a este território como um todo. É isso que importa.
