Sim, foi a 6 de Dezembro de 1383 que um grupo de corajosos patriotas entrou no palácio da regente do Reino de Portugal e dos Algarves, Leonor de Teles – a “aleivosa” no dizer do Povo e de Fernão Lopes — e apunhalou até à morte o seu “primeiro-ministro” (e amante) Conde (de) Andeiro (II Conde de Ourém)! Este era um personagem – um político – proveniente da Galiza que se tornou odiado e temido porque, na corte portuguesa de então, exercia de facto o poder mas já ao serviço do Rei de Castela (D. João de Castela) cujo casamento com a Princesa (herdeira) Beatriz de Portugal fora negociado ainda no tempo do pai desta, o recém-defunto rei de Portugal, D. Fernando, que fora casado com Leonor de Teles, a mãe da Princesa Beatriz.
É neste dia 6 de Dezembro e neste ano de 1383 que, categoricamente, se inicia, pelo uso legítimo da força nacional e patriótica, a Revolução de 1383 – 85, o exaltante processo de defesa da soberania e da independência do Reino de Portugal e dos Algarves, e dos Portugueses patriotas, face ao reino e ao rei de Castela que, logo após, entraram (mais uma vez aliás) em guerra aberta contra Portugal.
Enfim, sendo verdade que o conceito de “pátria” e de “nação”, à época, ainda seria um esboço do conceito e da sua materialização prática que hoje temos – eu digo “que hoje temos” porque continua a haver patriotas – também é verdade que os revoltosos sabiam muito bem o que queriam e sabiam que estavam a arriscar tudo o que tinham, incluindo as suas vidas, para não ficarem submetidos a Castela. Portanto, há um inequívoco desejo de defenderem a independência do Reino de Portugal e dos Algarves até porque muitos outros nobres, militares e eclesiásticos “se bandeavam” para o lado do Rei de Castela e, por isso, se posicionavam contra Portugal soberano e independente.
Há interessantes versões para os acontecimentos históricos ocorridos nesse dia 6 de Dezembro. Certo é o Conde (de) Andeiro ter sido morto pelos revoltosos onde se incluía o Grão-Mestre de Avis, embora de início um pouco a contragosto pois “jogava” mais na via do compromisso com os partidários de Leonor de Teles (que acabava de lhe “roer a corda” e se recusara a casar com ele, Grão-Mestre de Avis…). É pois com o verter do sangue do Conde (de) Andeiro que o então Grão-Mestre de Avis e futuro rei D. João I acabou por ficar comprometido e foi de seguida aclamado pelo Povo de Lisboa, “mobilizado” para as ruas para “acudir ao Mestre (de Avis) que o matam!” – como refere o lúcido cronista Fernão Lopes.
Ou seja, é o Povo de Lisboa – que de imediato adere e potencia o “golpe palaciano” dos revoltosos iniciais – que faz com que o Mestre de Avis, um chefe político-militar profissional e filho bastardo de D. Pedro I, se decida a assumir todas as suas responsabilidades, aceite ser “regedor e defensor do Reino de Portugal” e, nessa qualidade político-militar, enfrente os traidores e Castela!
- Nuno Álvares Pereira – de família nobre e poderosa – ainda jovem mas também ele já um militar experimentado em novas e flexíveis tácticas de guerra, junta-se ao grupo do Mestre de Avis, e cedo acaba por ser erigido a “comandante” dos exércitos patrióticos que se vão formando e juntando. Um pouco mais tarde, é nomeado “Condestável” – de facto o “chefe militar das forças armadas” — pelo novo rei D. João I, logo após as “famosas” cortes de Coimbra do Dr. João das Regras.
Nuno Álvares Pereira tem um decisivo papel de comando nos combates que se sucedem após o 6 de Dezembro de 1383 e em especial na batalha de Aljubarrota (Agosto de 1385) em que o Mestre de Avis e já D. João I, nesse dia, começa por se resguardar estrategicamente na retaguarda do famoso “quadrado” das tropas Portuguesas e só por flagrante necessidade se expõe mais e entra “a doer” nos embates mais duros e perigosos entre os dois exércitos, na batalha entre “os dois valerosos campos” como diz Camões.
Os Burgueses de Lisboa – grande Álvaro Pais, um alfaiate! – de facto, assumem a liderança política da Revolução em conjunto com alguns (poucos) nobres e têm o apoio heróico do Povo que passa à linha da frente dos acontecimentos, verdadeiramente revolucionários, que se espalham por Lisboa e por Portugal inteiro.
A grande maioria da nobreza e do clero, muitos comandantes militares destacados para os castelos e praças-fortes do Reino de Portugal, traem e “bandeiam-se” para o lado de Castela, aprestando-se a servir, até militarmente, o Rei Castelhano contra Portugal e os Patriotas.
Este processo que já antecede 1383 e que vai até Aljubarrota, em Agosto de 1385, demonstra que a classe dominante – a nobreza e o clero – pouco se ralaram com a “Pátria” e com o Povo Português. De facto, como o Rei de Castela – à frente da potência Castela – lhes prometia a salvaguarda dos principais privilégios de classe, logo mandaram às urtigas outros valores mais nobres como o patriotismo e a solidariedade nacional. De imediato e sem vergonha alguma se “bandearam” para Castela…e ao serviço de Castela “invadiram” militarmente o seu País de origem, Portugal. Foram clamorosamente derrotados e continuaram a ser derrotados até ao reconhecimento formal, por Castela, em 1411, de Portugal soberano e independente!
Como dantes, hoje, a história tem “condimentos” parecidos…
Parecido à revolução de 1383 – 85, acabou por vir a ser o 25 de Abril de 1974 embora sem as “batalhas militares” e sem os milhares de mortos e feridos de então.
Também a 25 de Abril de 1974, é o Povo que decide a sorte a Revolução ao apoiar, em massa, os militares revoltosos, naquele dia e seguintes com destaque para o 1º de Maio de 1974.
Aliás, a história “condimenta” os acontecimentos de 1580 – que culminaram com a perda da independência de Portugal para Espanha dos Filipes – com “ingredientes” semelhantes…
Filipe II de Espanha e I de Portugal vem às cortes de Tomar e garante à nobreza e ao clero “portugueses” que não lhes vai retirar os privilégios de classe e que até vai manter “portugueses” a dirigir Portugal em seu nome… Perante estas e outras promessas, logo aí, essa nobreza e esse clero, traem a Pátria, os patriotas e a solidariedade nacional e também eles se bandeiam, submissos, para a então Espanha dos Filipes…
Os patriotas conspiradores palacianos, a 1 de Dezembro de 1640, vão ao Terreiro do Paço e aí matam o “português traidor” Miguel de Vasconcelos, este o “primeiro-ministro” da duquesa de Mântua que “reinava” em Portugal em nome do Filipe IV de Espanha e III de Portugal, e que é feita prisioneira. Pois também esses “Conjurados” do 1 de Dezembro de 1640, foram de imediato apoiados pelo Povo Português e pelos Patriotas que souberam enfrentar e ganhar muito duras batalhas contra Espanha durante os 28 anos seguidos da “Guerra da Restauração”.
Hoje a “guerra” é outra mas há “ingredientes” semelhantes…
Com a entrada da CEE – agora da UE – em Portugal, temos perdido elementos importantes da soberania e da independência nacionais. Neste processo, o capital nacional associa-se e submete-se ao capital multinacional. Aplica-se a teoria e a prática do “supra-nacionalismo”, o que os seus propagandistas e agentes papagueiam como sendo “inevitabilidades”…
Hoje, como dantes, as classes dominantes bandeiam-se para o lado do “diktat” das três ou quatro maiores potências europeias que “mandam” na agora UE, na busca da manutenção ou mesmo do reforço dos seus privilégios de classe. No processo, mandam às urtigas valores nobres como patriotismo, como honra, como solidariedade nacional (que não é nacionalismo…).
No processo, estamos talvez já pior do que em 1580 em que Filipe II de Espanha e I de Portugal até permitiu que mantivéssemos a moeda Portuguesa, o “Real”… Hoje, agrilhoaram-nos a um tal “euro”, a moeda da nossa desgraça e da nossa vergonha enquanto patriotas Portugueses!
Sim, ultimamente, como dantes, tem havido grandes traidores à Pátria, e já lá vão 31 anos de submissão!
Mas, com o nosso Povo, havemos de os derrotar !
Viva Portugal soberano e independente!