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Descer de divisão: metáfora de um concelho estagnado. Autor: Fernando Tavares Pereira

Sem estádio, sem investimento e sem visão estratégica, o FC Oliveira do Hospital perdeu muito antes de descer de divisão. A câmara recusou a proposta para um novo complexo desportivo e vai gastar mais um milhão num espaço que não serve os objectivos. A cidade esteve ausente e o clube ficou sozinho.

A descida de divisão do FC Oliveira do Hospital não surpreende. Lamenta-se, com a amargura de quem sabe que não foi apenas dentro de campo que se perdeu. Perdeu-se muito antes, quando se recusou fazer o que estava por fazer. Quando se falhou com a cidade, com o clube e com o futuro.

Disse-o publicamente, há algum tempo: estava disponível para ceder um terreno para a construção de um novo complexo desportivo em Oliveira do Hospital. Era um passo estratégico, uma infra-estrutura âncora, capaz de gerar mais receitas, atrair pessoas, consolidar o clube e afirmar o concelho. A proposta foi ignorada. A câmara municipal optou por não aceitar a proposta.

Sem estádio com condições para a Liga 3, o FC Oliveira do Hospital jogou em Tábua. Jogou sempre fora de casa. Perdeu a identidade local. Promoveu um concelho vizinho — nas transmissões televisivas, no impacto económico. Jogar em casa é mais do que uma questão desportiva. Tem um valor acrescentado, seria um acto de presença e de apoio ao comércio. E Oliveira do Hospital esteve ausente de todo este processo desportivo.

A despromoção não pode ser separada deste contexto. As razões não são apenas técnicas ou tácticas. São estruturais. São políticas. São o reflexo de uma ausência de visão e de planeamento. Perdeu-se no campo porque se perdeu antes, na gestão e no investimento.

E o erro vai repetir-se. A autarquia vai investir mais um milhão de euros no actual complexo desportivo — que, mesmo depois desse investimento, continuará a não poder receber jogos da Liga 3. O dinheiro continua a ser aplicado num espaço que não serve os objectivos. Não há futuro ali. Já se gastou demasiado. E vai continuar a gastar-se.

Tudo isto podia ter sido diferente. Pois o projecto político lançado em 2009 colocava a construção de um novo complexo desportivo com diversas valências entre as prioridades. Mas poucas das promessas dos responsáveis que se instalaram à frente dos destinos do município se concretizaram. A variante à cidade ficou por fazer. A zona industrial de Nogueira do Cravo, a zona habitacional e os espaços para comércio e serviços não avançaram. O IC6 continua parado, apesar de ter sido prometido por quem garantiu que se demitiria se não fosse feito. Não andou um centímetro, apesar desse autarca ter estado 12 anos como presidente da câmara e agora mais quatro anos como presidente da Assembleia Municipal, sempre acompanhado praticamente pelos mesmos nomes. O IC6 não avançou e ele, de mãos nos bolsos, assobiando para o lado, lá continuou em funções como se nada tivesse prometido.

O caso do FC Oliveira do Hospital é, infelizmente, apenas um entre vários sinais penosos para o concelho. Há uma desertificação silenciosa, transversal a vários sectores. Perderam-se empresas, perderam-se postos de trabalho, perdeu-se capacidade de atracção. Fica algum comércio, como os hipermercados e estabelecimentos chineses. Além disso, ficam também muitos discursos e o consolo da palmadinha nas costas.

Quero, com justiça, reconhecer o trabalho do presidente do clube, Mário Brito. Tem lutado com abnegação, muitas vezes à custa da vida pessoal. Mas não pode carregar o clube sozinho. O FC Oliveira do Hospital merecia mais. E a cidade também. Merece um clube, pelo menos, na Liga 3.

A despromoção não é só uma perda desportiva. É uma consequência política. É o resultado de uma escolha: a de não fazer, a de não ouvir, a de não investir onde devia. Falhou-se no clube. Falhou-se na cidade.

E, mais uma vez, quero enfatizar a minha disponibilidade para discutir cara a cara, com os responsáveis, todos estes problemas…

 

 

Autor: Fernando Tavares Pereira

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