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Do concelho à Nação: a política que queremos construir. Autor: João Miguel Pais

A vitória da AD em Oliveira do Hospital é sinal de confiança, mas também de exigência. A política começa no território, e o país não se mudará sem coragem, proximidade e uma visão reformista. O CDS-PP tem de fazer parte da resposta. A Aliança Democrática venceu. E venceu com mérito. Mas essa vitória não basta. Não é um ponto de chegada. É um teste. Um momento de viragem ou de ilusão. Se não for bem compreendida, se não for usada para reformar, será o primeiro passo para uma nova desilusão. A vitória da AD não é um cheque em branco é mais do que tudo uma confiança com prazo de validade.

Portugal não precisa apenas de alternância. Precisa de diferença. Precisa de respostas. Os cidadãos estão cansados de um Estado que promete muito, regula tudo, mas resolve pouco. Um Estado pesado, centralista, ineficaz, que falha nas suas funções básicas: na saúde, na justiça, na educação, na segurança e na mobilidade. O país vive entre dois perigos: o radicalismo sem solução e a tecnocracia sem alma. Uns gritam sem saber governar, outros parece que gerem sem saber para onde vão.

A AD tem de ser diferente: liderar com visão, reformar com valores e servir com propósito. Não será fácil, mas é indispensável. Portugal precisa de uma nova ambição. De um novo contrato social. De um Estado que se concentre no essencial e devolva espaço à sociedade civil. Reformar o sistema eleitoral. Reestruturar o SNS. Modernizar a escola pública. Devolver autoridade ao Estado e confiança à política. E, acima de tudo, devolver esperança a quem já não acredita em nada.

É neste vazio que cresce o Chega. Não só por mérito próprio, mas por falha dos outros. O voto no Chega é, na maioria dos casos, uma interjeição. Um grito. Um protesto de quem se sente abandonado. Não se combate esse voto com moralismos ou rótulos. Combate-se com responsabilidade. Com presença e soluções.

À esquerda, o Partido Socialista afastou-se do país real. Trocaram o reformismo pela propaganda de nicho, os históricos pelas direções de facção, o Estado social por causas identitárias. O resultado está à vista: perderam a confiança das classes médias, das províncias, dos democratas reformistas. A erosão do PS não é apenas um problema da esquerda é, acima de tudo uma fragilidade do regime democrático. Sem partidos populares sólidos, a democracia desequilibra-se. E abre espaço ao vazio.

Contudo, a responsabilidade não é só de quem perdeu. É, sobretudo, de quem venceu. A AD tem de ser mais do que uma frente eleitoral. Tem de ser o novo centro político português: não um meio-termo tímido, mas o espaço da construção responsável. Unir liberdade com justiça social, autoridade com compaixão, mérito com proteção. Esse espaço — reformista, personalista, patriótico — está órfão há demasiado tempo.

A política não se reconstrói apenas em Lisboa. Constrói-se em cada freguesia, em cada município, em cada conversa com quem ainda acredita. As eleições autárquicas de 2025 serão decisivas. E quem pensa que os resultados das legislativas se traduzem automaticamente em vitórias locais comete um erro profundo. A política local vive de proximidade, de verdade, de obra feita. Os cidadãos votam nas pessoas, nas equipas, nas ideias. E esperam coerência. Esperam entrega.

As freguesias são o que resta da confiança política. São o lugar onde a política ainda é levada a sério. E por isso, são também o lugar onde tudo pode começar a mudar.

Conquanto, falar do território não pode ser apenas retórica. É no concelho que se testa o valor das ideias. Oliveira do Hospital mostrou que há confiança para fazer diferente, mas essa confiança exige continuidade, compromisso e visão de futuro. O concelho tem potencial para liderar pelo exemplo: na defesa do “interior”, na valorização do mundo rural, na criação de oportunidades para os jovens, na aposta em cultura, na habitação, na mobilidade e na inovação local. A descentralização verdadeira não se impõe, constrói-se. E pode mesmo começar aqui.

As autárquicas serão o espelho do país. Ou renovamos a frota de autarcas e de protagonistas políticos — com uma nova geração de servidores públicos — ou cairemos na estagnação. Precisamos de juventude. Não como símbolo, mas como missão. A minha geração não quer ser decorativa. Quer ser chamada a decidir. A fazer diferente. Porque já não basta participar, hoje, é tempo de assumir. E aqui, a responsabilidade não é só dos partidos. É também de cada cidadão. A democracia não falha apenas por culpa de quem governa. Falha quando todos se demitem: os que se abstêm, os que se calam, os que desistiram de acreditar. Portugal não precisa de mais espectadores. Precisa de protagonistas. De gente que pense, que escolha, que esteja e queria estar presente.

E é aqui que entra o CDS-PP. Temos uma nova oportunidade. E não a podemos desperdiçar. Continuamos a ter ideias, quadros, ousadia e causas. Não obstante, precisamos de mais. De estrutura. De ambição. De militância com alma. De uma nova geração com capacidade de liderança e coragem para marcar a diferença. Ou somos úteis, ou seremos esquecidos. E não nos basta ter história… temos de fazer história outra vez.

Por fim, clarificar isto: a democracia não se salva com palavras. Salva-se com reformas. E com exemplo. Está nas nossas mãos fazer da AD mais do que uma coligação: um caminho. E do CDS-PP mais do que uma memória: uma esperança.

 

Autor: João Miguel Pais

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