Fátima Simões, 73 anos, sofreu uma arritmia e o INEM, devido à ausência de urgências em Oliveira do Hospital, levou-a para Seia antes de ser transportada para Coimbra numa corrida contra o tempo…
A saúde em Oliveira do Hospital já não é o que era. Esta é a convicção de Fátima Simões que no dia 5 de Dezembro passou por um susto que a alertou para o estado em que se encontram os cuidados de saúde no concelho Oliveirense. Fátima sofreu uma arritmia quando se encontrava numa superfície comercial da cidade ( (Cooperativa Beira-Centra) ao início da tarde. Sentiu-se mal. Pediu uma garrafa de água. Mas os sintomas agravaram-se. Quem estava por ali ligou ao INEM. A ambulância, dos Bombeiros Voluntários de Oliveira do Hospital, chegou rápido. E, depois de transmitirem os dados para o Centro de Orientação de Doentes Urgentes, receberam indicação para transportarem a paciente para o serviço de urgência básica de Seia. Após alguns exames foi accionada uma outra ambulância de Seia para transportar com urgência a doente para os Hospitais de Coimbra.
“Os médicos disseram que tive sorte de não ter sofrido um enfarte”, conta Fátima Simões sem esconder a sua indignação pela falta de urgências em Oliveira do Hospital que a obrigaram a percorrer quilómetros que permitiriam fazer metade do caminho para Coimbra. Conversadora e incisiva, Fátima Simões não consegue calar a revolta que lhe vai na alma. A sua consciência, explica, obriga-a a denunciar “o estado calamitoso a que deixaram chegar Oliveira do Hospital nesta área”. “Como é que a cidade mais populosa desta região não tem urgências? Porque razão temos de ir para Seia ou Arganil? Os nossos políticos locais deviam ter vergonha”, acusa Fátima Simões. Aquele tempo, no vai e vem, insiste, poderia ter feito toda a diferença. Foram os clínicos que lho garantiram.
“Quem tem governado a Câmara não tem defendido os interesses da população”
“Tive sorte disseram os médicos. Podia ter corrido tudo mal. Felizmente correu bem. Em Coimbra fiquei ligada a uma máquina 26 horas e realizei um cateterismo”, conta, explicando que agora aguarda por uma operação que vai substituir a válvula mitral. Faz questão de dizer que não são as cores políticas que a movem. Não quer saber disso. Diz que vota em quem quer. O que a faz falar, assegura, é o facto de ver a “cidade a perder estruturas vitais” para o bem-estar da população. Enfatiza que a sorte que ela teve poderá não acompanhar outros oliveirenses que precisem de aceder às urgências.
“Não é por ser este presidente ou outro qualquer. Olhe, quando o Mário Alves [PSD] era presidente tive lutas bem acesas com ele. Agora volto a sentir necessidade de falar. Quem tem governado a Câmara não tem defendido os interesses da população”, sublinha Fátima Simões, frisando que quando há cerca de 40 anos veio morar para Oliveira do Hospital havia urgências no hospital da Fundação Aurélio Amaro Diniz (FAAD). “Mais tarde construíram o Centro de Saúde e em Outubro de 2017 encerraram as urgências. É lamentável. Algo está mal”, diz, sem esquecer que alguém falou num projecto revolucionário para a saúde de Oliveira do Hospital “que ninguém, sabe muito do que se trata”.
“… os oliveirenses parecem viver num clima de medo”.
“Afinal, toda essa revolução resumiu-se a consultas alargadas na FAAD durante a noite e aos fins-de-semana, mas pelo que me explicaram não fazem parte do sistema nacional de urgências. É uma vergonha. Se ligarmos para o 112 somos encaminhados para outros locais e até nisso os nossos bombeiros ficam a perder. É que o meu transporte, ou o de outro qualquer doente urgente, daqui para Seia é feito pelos bombeiros de Oliveira do Hospital, mas de Seia para Coimbra é a corporação de lá. Até nisso, este concelho fica a perder”, insiste Fátima Simões, reformada, que sente um certo conformismo por parte da população.
Confessa que a irrita o silêncio das pessoas. De viverem como se tudo estivesse bem. “Se fosse como noutros locais já tinham cortado a EN 17”, diz, frisando que os oliveirenses “parecem viver num clima de medo”. “Ninguém fala. Tudo isto me revolta. Quem tem seguros vai ao privado, os pobres é que sofrem. Eu não devo nada a ninguém e não tenho medo de dizer as verdades que podem ajudar outros conterrâneos”, sublinha.
“Aqui, em Oliveira do Hospital, só somos ricos em supermercados”
Os novos tempos não se revelaram famosos para esta ex-emigrante em França e que por vários anos explorou uma charcutaria em Oliveira do Hospital. Conta que os clientes eram tantos que às vezes se sentia atrapalhada. Mas vieram as grandes superfícies e o negócio começou a esmorecer. “O primeiro sinal foi quando os Irmãos Gonçalves abriram o hipermercado”, conta. A partir daquele momento o seu estabelecimento foi ficando mais vazio. A certa altura, o que ia facturando já não dava para as despesas. Optou por encerrar. “Aqui em Oliveira do Hospital só somos ricos em supermercados. Esta cidade acabou com os pequenos comerciantes. Não têm possibilidades de sobreviver. Depois, além dos hipermercados, há ainda a concorrência dos chineses”, sentencia.
A terminar, Fátima Simões deixa um apelo aos políticos da terra. “Não olhem só para as festas e para os amigos. Olhem para a nossa terra que tem perdido muitas coisas e a saúde acima de tudo. Sei que não depende deles, mas foram eleitos para nos representar e são eles que têm de reclamar. Dizem que fizeram, a maior festa do queijo do país. Pois é. Mas chega uma altura em que ganhamos consciência que afinal não vivemos de festas”, remata.
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