Correio da Beira Serra

Políticos do passado, entre a vaidade e a necessidade…. Autor: Fernando Tavares Pereira

As cheias em Coimbra não são uma fatalidade. Há cerca de cinquenta anos que se anuncia a necessidade de requalificar e completar o sistema do Mondego. Fez-se a primeira obra há cerca de 40 anos. O resto ficou por cumprir. O país habituou-se a que lhe prometam o que não executam e a aceitar como inevitável o que é apenas consequência da negligência.

O caso da barragem de Girabolhos ilustra essa incapacidade de planeamento estratégico. A necessidade existia. O projecto esteve em cima da mesa. Gastaram-se milhões de euros. Só que o mesmo morreu. Tal como sucedeu em Foz Côa, ou em Midões, que também fazia parte do conjunto de barragens previstas para o rio Mondego. Morreram por vaidade política, por hesitação, por incapacidade de assumir prioridades. Quando a vaidade prevalece sobre a necessidade, o território paga. E paga, sobretudo, o Interior.

A construção da barragem de Girabolhos, agora novamente evocada, não deve ser vista apenas como uma obra hidráulica, mas como um possível eixo estruturante de desenvolvimento. As câmaras de Gouveia, Seia e Mangualde devem fazer um esforço para aproveitar esta oportunidade e exigir, como contrapartida, a melhoria das acessibilidades, designadamente o IC-7, o IC-37 e o IC-6, tantas vezes prometido e nunca concluído, apesar dos milhões investidos em projectos. Mais do que abrir estradas, trata-se de articular políticas e reforçar a coesão territorial.

A resposta às catástrofes segue o mesmo padrão. A protecção civil revelou insuficiências. No dia seguinte à primeira tragédia, a mobilização deveria ser imediata e total. Bombeiros, autarquias e serviços do Estado deviam convergir para o território afectado. Num país com dimensão e recursos limitados, não é aceitável que milhares de pessoas e empresas fiquem desassistidas. Trabalha-se em conjunto: um por todos e todos por um. Ainda assim, importa reconhecer que, depois de uma fase inicial marcada por falhas e descoordenação, o Governo começou a revelar maior capacidade de resposta, com o Primeiro-ministro e ministros no terreno. Os contactos intensificaram-se e surgiu alguma organização.

A precariedade das comunicações foi outro dilema. Se as empresas de telecomunicações conseguem reforçar redes em grandes eventos como o Rock in Rio, entre outros, não se percebe por que razão não o fazem perante populações isoladas por tempestades, incêndios ou outras catástrofes. A tecnologia existe. Falta exigência pública e contratual. É lamentável que a cablagem de telecomunicações e de electricidade não seja subterrânea, quando todos os anos é destruída por tempestades ou incêndios. Não será tempo de apostar na segurança? Creio que sim.

Também as autarquias devem interrogar as suas prioridades. As festas e feiras têm valor cultural e identitário. Mas a gestão pública exige hierarquia. Antes do espectáculo, a prevenção. Cada freguesia devia dispor de geradores e de meios mínimos para garantir água e electricidade em situação de crise. Não é apenas uma questão financeira. É uma questão de critério.

Estas catástrofes trazem à memória o falhanço nos incêndios de Outubro de 2017. Prometeram-se apoios, avaliaram-se prejuízos através da Direcção-Geral da Agricultura, anunciaram-se milhões. Muitos milhares de lesados não receberam nada. Houve recursos para os tribunais e os processos ainda decorrem. Falar de largas dezenas de milhões que desapareceram não é retórica, é a constatação de que o Estado falhou no essencial: pagar a quem tudo perdeu.

A gestão desses processos foi, para muitos, uma desgraça de vida. O Presidente da República cessante, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou que iria vigiar e zelar pelo cumprimento das promessas. Não foi isso que aconteceu.

O Presidente da República eleito, António José Seguro, assumiu um compromisso diferente. Num almoço em Midões, no aniversário dos 50 anos do grupo Tavfer, garantiu que não esquecerá o Interior. E acredita-se que cumprirá. O Interior não pede privilégios. Pede coerência. Pede que a necessidade prevaleça sobre a vaidade. Pede que, desta vez, não se fale apenas. Que se faça.

Lamento a atitude agressiva da actual presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Ana Abrunhosa, no dia 24 de Fevereiro, para com o ministro da Agricultura, esquecendo que, enquanto presidente da CCDR e, mais tarde, ministra da Coesão Territorial, a partir de 2019, no Governo de António Costa, deixou milhares de lesados dos incêndios de Outubro de 2017 sem qualquer apoio e muitas casas por construir. Mas que memória tão curta. Diz-me o que fazes e por onde andas…

 

 

Autor: Fernando Tavares Pereira

Exit mobile version