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Casa dos avós de Victor Ramos em Ervedal

“Por Parte do Pai”: documentário sobre a vida de um exilado político filho do Ervedal

Nasceu em Lisboa, em 1920, mas passou grande parte da infância em Ervedal da Beira na companhia da mãe e dos avós maternos. Jornalista da France Press, Victor de Almeida Ramos foi obrigado, pelos seus ideais políticos, a exilar-se em Paris no final da década de 40. Mais tarde rumou ao Brasil. Fundou o jornal Portugal Democrático, onde reuniu personalidades brasileiras e portuguesas que apoiavam a democracia, como Floresta Fernandes ou o ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso. Fez carreira na Universidade de São Paulo, mas nunca mais voltou a Portugal. Permaneceu no exílio cerca de 20 anos e faleceu em 1974, poucos dias depois da revolução do 25 de Abril, quando tinha finalmente a possibilidade de regressar ao país que o viu nascer. Agora a sua vida está prestes a passar, pela mão da sua filha Guiomar Ramos, a documentário televisivo. Com o título “Por parte do Pai” tem exibição assegurada nas estações estatais dos nove países da Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP), incluindo a RTP.

Guiomar Ramos
Guiomar Ramos

Ervedal da Beira foi um dos pontos de paragem obrigatório da equipa de produção que esteve no concelho de Oliveira do Hospital a recolher imagens e sons. “Ele tinha uma grande paixão por esta terra. Foi aqui que ele solidificou os seus ideais mais firmes e a humildade que o caracterizava. O Ervedal era como que o seu Rosebud [referência ao filme Citizen Kane que conta a vida do magnata Charles Foster Kane e Rosebund era o seu trenó de infância, numa alusão à única fase da vida em que o multimilionário foi realmente feliz] ” explicou ao CBS Guiomar Ramos, à mesa de um café no Ervedal, durante uma pausa dos trabalhos, que vão passar ainda, entre outros locais, por Lisboa e Paris.

“A mãe era daqui e como se separou muito cedo do meu avô, passou muito tempo aqui, principalmente nas férias, até aos 25 anos. DE tanto falar no Ervedal, nós ficámos sempre com o imaginário do que seria esta terra. Tínhamos uma foto da casa na década 30 onde viveram os meus bisavós e várias fotos do meu pai nestes locais enquanto jovem”, continua, sublinhando que ela própria sente uma enorme simpatia por esta vila oliveirense. “É um local muito especial. Gosto muito do silêncio, da sonoridade. A vista para a Serra da Estrela, então, é maravilhosa”, resume esta professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Casa dos avós de Victor Ramos em Ervedal
Casa dos avós de Victor Ramos em Ervedal

 

A ideia do documentário surgiu na cabeça de Guiomar Ramos em 2011. Queria que o seu progenitor tivesse o tributo merecido na luta pela liberdade. Começou por aproveitar as viagens a congressos para entrevistar os ex-colegas do pai como Miguel Urbano, António Fonseca ou Rui Fazenda. Só Mário Soares não se mostrou disponível para colaborar. No ano passado apresentou o projecto titulado “Por Parte do Pai” num concurso da CPLP que subsidia obras cinematográficas dos países membros. Foi um dos nove vencedores, representando o Brasil, e conseguiu um financiamento de 50 mil euros, a verba que faltava para concretizar o sonho de realizar um documentário factual de 52 minutos que poderá ter ainda uma versão de longa metragem. Um trabalho totalmente documentado, factual e contendo várias entrevistas que deverá estar concluído em Outubro.

“A trajectória de vida do meu pai foi trágica. Comemorou os 54 anos precisamente no dia 25 de Abril de 1974 e faleceu no Brasil poucos dias depois quando já fazia planos para se despedir do exílio e regressar ao local que mais amava: Portugal”, lamenta a filha, Guiomar Ramos, que com esta obra pretende dar a conhecer o pai que, nas suas palavras, “lutou a vida inteira pela liberdade, mas o seu nome é completamente desconhecido no país que o viu nascer”.

Victor de Almeida Ramos entrou na lista negra do regime e quando tinha cerca de 30 anos foi forçado a partir para Paris. Trabalhava na France Press e continuou naquela agência de notícias em França. Foi lá que conheceu a sua futura esposa, uma brasileira 12 anos mais nova. “Apaixonaram-se. Ficaram trocando cartas durante dois anos. Depois ele foi para o Brasil e casaram”, conta a filha.

Portugal democrático

No Brasil, Em 1956, Victor Ramos fundou o jornal Portugal Democrático, uma ocupação que partilhava com a actividade docente de literatura portuguesa e francesa na Universidade de São Paulo. A publicação começou como um pequeno jornal de São Paulo, mas depressa se expandiu a todo o território brasileiro e a vários activistas políticos portugueses que se encontravam espalhados por diversos países. Durante 21 anos, divulgou as notícias proibidas em Portugal, acompanhava o processo de pessoas presas ou desaparecidas e seguia a actividade dos movimentos de libertação das ex-colónias africanas, dos quais Victor Ramos era adepto, tendo sido colega de Agostinho Neto [aquele que viria a ser o primeiro Presidente de Angola até 1979] e de outros líderes. “O jornal era uma forma de dar voz a quem se encontrava longe de Portugal”, sublinha Guiomar Ramos.

A vida de Victor de Almeida Ramos terminou de forma trágica e brusca. No dia 25 de Abril de 1974 fez 54 anos. Nos dias seguintes iniciou os planos para regressar a Portugal. A 2 de Maio, porém, durante uma reunião em sua casa para organizar a festa de despedida dos exilados, sofreu um aneurisma. Desmaiou e morreu quatro horas depois. A esposa, historiadora, organizou um acervo sobre tudo o que lhe dizia respeito, desde os seus livros até à correspondência que mantinha com personagens como Jorge Sena, Casais Monteiro e outros. Aquele património esteve depositado na Universidade de São Paulo. No ano passado, por pressão da investigadora Júlia Coutinho, veio para Portugal, passando a estar disponível ao público na Biblioteca Nacional.

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